ESCANDALOSO
Pedro Garcia
 
 
Há pouco mais de século, um ilusionista francês provou ao mundo que o cinema deveria existir. Até então, nem mesmo os criadores do maquinário capaz de armazenar recortes da realidade acreditavam em sua real serventia, para além de garantir por algum tempo a distração de uns milhares de curiosos. Mas George Méliès, com sua Viagem à Lua (1902), fez todos compreenderem a que veio a tal traquitana: para traduzir a imaginação. Méliès inventou o espetáculo cinematográfico; atestou que o cinema não precisaria reproduzir a realidade, e sim superá-la - mesmo sem introduzir ainda os mecanismos ideais para isso, o que seria feito apenas uma década mais tarde, por Griffith.

Passados tantos anos, a crítica não perde de sublinhar que o "efeito deslumbre" não basta. Na época em que a regra é explorar à exaustão a técnica, afastando a cada dia mais os limites da tecnologia, a classe analítica permanece irredutível. Cadê o conteúdo, para quê tudo isso, questiona-se. E então surge 2012 (2009), com tudo o que é mais odioso para aqueles que gostam de cinema, mas não de pipoca. O resultado é óbvio e já se confirmou. Falar bem deste filme causa tanto receio quanto perceber o apocalipse.

Que a premissa da superprodução de Roland Emmerich sugere uma infinidade de discussões pertinentes, é verdade, assim como a decisão do diretor de Independence Day e O Dia Depois de Amanhã de ignorá-las por completo. Não, 2012 jamais ilustrará um tratado acadêmico sobre o legado cultural da humanidade. Mas quem disse que é esse o seu proposto? Não teria Emmerich pensado antes em ruir uma metrópole de maneira majestosa, do que pautar discussões eruditas?

Se tomamos ciência do que este filme se propõe a ser, torna-se fácil e prazeroso digerí-lo. A atenção, aqui, recai sobre a ação, e não há quaisquer constrangimentos quanto a isso. Cumprida uma apresentação dosada da trama, abre-se caminho para um desfile de grandiosas e eficientes sequências de destruição de arranha-céus e símbolos mundiais, como a Torre Eiffel, a Capela Sistina e o Cristo Redentor. Em tempo, a história gira em torno da missão internacional traçada para salvar o máximo de pessoas do fim do mundo que se aproxima, conforme profetizado pelos maias. Assistimos ao caos se espalhar pelo planeta em um encadeamento de impecáveis retratos de carros sendo engolidos, árvores sucumbindo e ondas gigantescas avançando sobre a população indefesa.

As rupturas necessárias no ritmo alucinado dão lugar à subtramas que delicadamente se entrelaçam. Clichês? Verdade. O pai divorciado incomodado com o filho que demonstra mais afeto pelo padrasto surge como um flashback doloroso, e de fato as historinhas acabam por soar como "encheção de linguiça". Há imprecisões aqui e ali, algumas contornadas com desvios vistosos (a resistência física dos protagonistas é de deixar invejoso o James Bond), outras que se despedem sem explicações. Mas quem se importa. 2012 é e quer ser uma jogata gostosa, e o que vale é a ânsia pelo próximo prédio a desmoronar.

Com falhas evidentes, mas amaciadas pelo poder e qualidade das ações dominantes, esse delírio distópico cinematográfico convence por ser despretensioso de um lado, e sonhar altíssimo de outro. Aqui não se busca uma mensagem sentenciada, e sim um escândalo de encher os olhos. Pobre por mostrar muito e dizer pouco? Então Viagem à Lua não tem nada a nos dizer. Das duas, uma: ou se reconhece que 2012 é fantástico, ou se apaga George Méliès da história do cinema.



2012 (EUA/Canadá, 2009)

Direção: Roland Emmerich.

Elenco: John Cusack, Amanda Peet, Woody Harrelson, Danny Glover, Thandie Newton, Chiwetel Ejiofor, Oliver Platt, Thomas McCarthy.

Cotação: ****