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Em 71 Fragmentos de uma Cronologia do Acaso
(1994), o desfecho é antecipado logo no começo. Um letreiro
informa que na véspera de Natal um jovem de 19 anos
matará três pessoas em um banco de Viena e depois cometerá
o suicídio. A partir daí, o que se segue são imagens
desconexas da vida cotidiana de várias pessoas. Rapidamente,
entende-se que o destino daqueles indivíduos se encontrará
com a tragédia final. A questão que nos envolve e prende
ao filme, o terceiro de Michael Haneke, é: como isso
vai acontecer?
O formato é semelhante ao que o diretor usaria mais
tarde em Código Desconhecido (2000). Entre os
que surgem aqui como protagonistas, estão um garoto
romeno que fugiu de casa e perambula sozinho pelas ruas
da cidade, um casal que enfrenta dificuldades de relacionamento
com a criança recém-adotada, um velhote solitário que
gasta seu tempo falando pelo telefone, pais aflitos
com a doença do filho e um jovem estudante que treina
ping-pong e revela um comportamento agressivo quando
perde apostas para amigos.
A vida dessas pessoas não é contada a partir de grandes
eventos, mas sim em uma exploração crua das mais corriqueiras
ações. Haneke foi, de certa forma, muito sensível ao
traçar nos detalhes um retrato humano e intimista. Se
a intenção com a adoção do formato fragmentado era distanciar
o espectador dos personagens, pequenos momentos fazem
o contrário, de tão realistas que nos parecem. Falamos,
por exemplo, da rápida troca de olhares do garoto que
acabar de tirar comida do lixo com uma pessoa dentro
de um carro na rua; ou do senhor que, ao acordar, ajoelha-se
e pede a Deus que não seja vítima de nenhuma guerra
ou ataque nuclear.
Aos picotes do cotidiano, acrescentam-se imagens jornalísticas
que noticiam a violência em várias partes do mundo.
E aí encontramos a crítica social, elemento indispensável
em um título hanekiano. Aqui, abre-se espaço a inúmeras
interpretações. Podemos falar de espetacularização da
violência ou de um paralelo entre a brutalidade da guerra
e a agressividade sistemática no meio urbano. Não importa.
O que sentimos é que Haneke não fala de seres fictícios
em um universo imaginado. Fala do que é real e concreto,
do que conhecemos bem, mas muitas vezes não pensamos
a respeito.
Partindo de uma olhada sem atenção, poderíamos entender
que a coleta dos fragmentos apenas justifica o desfecho.
Falaríamos, portanto, de uma obra frívola, uma vez que
o final já é sabido por todos desde o primeiro instante,
e que a vida dos personagens não apresenta nada de muito
interessante. Tudo isso é verdade, mas o valor da produção
está exatamente aí. Haneke fala do acaso, da forma mais
inimaginável como duas ou mais vidas podem se encontrar.
Faz-nos pensar que o acaso faz vítimas e que ninguém
está imune a ele. Talvez seja muito pior do que qualquer
guerra. Quem vai saber?
71 FRAGMENTOS DE UMA CRONOLOGIA DO ACASO (71
Fragmente einer Chronologie des Zuffals, Áustria/Alemanha,
1994)
Direção: Michael Haneke.
Elenco: Gabriel Cosmin Urdes, Lukas Miko, Otto
Grünmandl.
Cotação: ****
Este artigo é parte integrante da série
de textos "Sextas-Feiras
com Haneke". Confira, pois a cada sexta há
a publicação de um artigo inédito.
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