OS PERIGOS DO ACASO
Pedro Garcia
 
 

Em 71 Fragmentos de uma Cronologia do Acaso (1994), o desfecho é antecipado logo no começo. Um letreiro informa que na véspera de Natal um jovem de 19 anos matará três pessoas em um banco de Viena e depois cometerá o suicídio. A partir daí, o que se segue são imagens desconexas da vida cotidiana de várias pessoas. Rapidamente, entende-se que o destino daqueles indivíduos se encontrará com a tragédia final. A questão que nos envolve e prende ao filme, o terceiro de Michael Haneke, é: como isso vai acontecer?

O formato é semelhante ao que o diretor usaria mais tarde em Código Desconhecido (2000). Entre os que surgem aqui como protagonistas, estão um garoto romeno que fugiu de casa e perambula sozinho pelas ruas da cidade, um casal que enfrenta dificuldades de relacionamento com a criança recém-adotada, um velhote solitário que gasta seu tempo falando pelo telefone, pais aflitos com a doença do filho e um jovem estudante que treina ping-pong e revela um comportamento agressivo quando perde apostas para amigos.

A vida dessas pessoas não é contada a partir de grandes eventos, mas sim em uma exploração crua das mais corriqueiras ações. Haneke foi, de certa forma, muito sensível ao traçar nos detalhes um retrato humano e intimista. Se a intenção com a adoção do formato fragmentado era distanciar o espectador dos personagens, pequenos momentos fazem o contrário, de tão realistas que nos parecem. Falamos, por exemplo, da rápida troca de olhares do garoto que acabar de tirar comida do lixo com uma pessoa dentro de um carro na rua; ou do senhor que, ao acordar, ajoelha-se e pede a Deus que não seja vítima de nenhuma guerra ou ataque nuclear.

Aos picotes do cotidiano, acrescentam-se imagens jornalísticas que noticiam a violência em várias partes do mundo. E aí encontramos a crítica social, elemento indispensável em um título hanekiano. Aqui, abre-se espaço a inúmeras interpretações. Podemos falar de espetacularização da violência ou de um paralelo entre a brutalidade da guerra e a agressividade sistemática no meio urbano. Não importa. O que sentimos é que Haneke não fala de seres fictícios em um universo imaginado. Fala do que é real e concreto, do que conhecemos bem, mas muitas vezes não pensamos a respeito.

Partindo de uma olhada sem atenção, poderíamos entender que a coleta dos fragmentos apenas justifica o desfecho. Falaríamos, portanto, de uma obra frívola, uma vez que o final já é sabido por todos desde o primeiro instante, e que a vida dos personagens não apresenta nada de muito interessante. Tudo isso é verdade, mas o valor da produção está exatamente aí. Haneke fala do acaso, da forma mais inimaginável como duas ou mais vidas podem se encontrar. Faz-nos pensar que o acaso faz vítimas e que ninguém está imune a ele. Talvez seja muito pior do que qualquer guerra. Quem vai saber?



71 FRAGMENTOS DE UMA CRONOLOGIA DO ACASO (71 Fragmente einer Chronologie des Zuffals, Áustria/Alemanha, 1994)

Direção: Michael Haneke.

Elenco: Gabriel Cosmin Urdes, Lukas Miko, Otto Grünmandl.

Cotação: ****

Este artigo é parte integrante da série de textos "Sextas-Feiras com Haneke". Confira, pois a cada sexta há a publicação de um artigo inédito.