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"ANJOS" AMANTES EXTERMINADORES
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Ricardo
Rangel
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Seria, em alguma medida, um disparate intelectual procurar
estabelecer uma periférica relação entre a recente produção
"Amantes", dirigida por James Gray, com a magnífica
obra clássica de Luis Buñuel "O Anjo Exterminador"
- um dos grandes exemplares do movimento surrealista na
história do cinema? À primeira vista, sim, pois ambos
possuem pouco ou nenhum ponto de contato. Mas como se
diz na linguagem coloquial, se "forçarmos a barra" um
pouco, até poderemos encontrar algum viés convergente,
dependendo do enfoque e do ponto de vista adotado. E o
que pretendo minimamente aqui é apenas utilizar a película
buñuélica como baliza e metáfora, na sua idéia central,
a fim de discorrer um pouco sobre as teias relacionais
do triângulo amoroso que se configura em "Amantes".
Uma análise mais fina de "O Anjo Exterminador"
exigiria um outro ensaio e outra oportunidade, com mais
riqueza argumentativa na "manga", pois tal obra é, em
sua essência, densa e visceral, bem como grande parte
- para não dizer a sua totalidade - da filmografia de
Buñuel, expoente máximo do surrealismo com o seu inesquecível
"Um Cão Andaluz", em parceria com o não menos genial
e grandioso pintor espanhol Salvador Dali. Sem mais delongas,
passemos a explorar a idéia básica de "Amantes" tendo
"O Anjo Exterminador" como pano de fundo, pois.
Em "Amantes", Leonard (Joaquin Phoenix) vive na
casa de seus pais, e trabalha na loja da família judaica.
Um amigo de seu pai, também judeu, tem uma filha, Sandra
(Vinessa Shaw, "clone" de Hilary Swank...), solteira como
Leonard e à procura de um bom partido. O namoro é arranjado,
mas Leonard apaixona-se pela sua nova vizinha, Michelle
(Gwyneth Paltrow, que interpreta personagem razoavelmente
semelhante à Stella de "Grandes Esperanças", de
Alfonso Cuarón, adaptação da obra homônima de Charles
Dickens... se quiser descobrir o porquê, assista a ambos
os filmes, e compare!), a quem pode ver de sua janela,
num exercício de voyeurismo que o leva a um envolvimento
com uma pessoa que se mostra o avesso da sua namorada
de conveniência: Michelle é confusa, emocionalmente vulnerável
e com questões afetivas mal resolvidas, assim como Leonard.
Um empecilho é crucial nesta relação entre ambos, construída
em torno da submissão onipresente de Leonard em relação
à Michelle - esta tem um caso com um homem casado, Ronald
(Elias Koteas), e Leonard, mesmo sabendo disto, não se
importa nem um pouco em humilhar-se e correr atrás de
Michelle, levando uma "vida dupla" que, na medida em que
seu envolvimento com ambas se aprofunda, torna-se insustentável
para ele próprio manter as aparências e fingir que nada
acontece.
Bem, mas qual a relação rasa e superficial disto tudo
com "O Anjo Exterminador"? A questão dos protagonistas
amantes de entreolharem-se através das janelas parece
tangenciar o ponto que se pode alinhavar alguma conexão
mesmo que muito forçada.
Em "O Anjo Exterminador", apenas para dar um resumo
muito rápido do que se trata, basicamente sua trama é
a seguinte: várias pessoas de classe alta, burgueses,
são convidadas para uma festa-banquete num casarão, cujo
anfitrião evidentemente faz parte desta alta roda. Após
o término da mesma, por uma razão inexplicável as pessoas
não conseguem ir embora da casa, não conseguem abandonar
o local. Essa situação paradoxal, incômoda e deveras surreal
dura horas, dias, semanas inclusive, e a incomunicabilidade
do ambiente no interior do recinto é total em relação
ao mundo exterior, cujos membros também não podem ingressar
para dentro da casa. O pânico se estabelece, as pessoas
sentem-se incomodadas e tem suas privacidades invadidas,
criando-se, com o passar do tempo, situações tensas com
manifestações egoísticas dos convidados - agora praticamente
"moradores" forçados da casa - deixando o ambiente pesado,
com a maioria estando com os nervos "à flor da pele" com
toda a situação criada. Uma espécie de estado de natureza
hobbesiano é instaurada, uma guerra de todos contra todos,
um "Senhor das Moscas" sem a presença juvenil,
um reality show antevendo loucos tempos posteriores
que hoje muito bem entreteria gerações inteiras no vazio
das ideologias. Apenas com estes elementos poderia se
discorrer sobre variadas interpretações filosóficas e
psicológicas, dentre outras, do contexto todo gerado;
contudo, não nos deteremos nisto, pois a intenção é relacionar,
de alguma forma, este cenário à la big brother
sem o consentimento mútuo dos protagonistas com o triângulo
amoroso de "Amantes".
Mas que relação, afinal, se poderia estabelecer? Leonard
e Michelle, de certa forma, não conseguem sair de suas
"casas" contíguas, não conseguem abandonar seus mundos,
nesta metáfora forçada: o jovem está obcecado pela sua
vizinha misteriosa e desmiolada, e esta brinca com os
sentimentos dele, porém não sem ter algum sentimento pelo
mesmo, o que gera um conflito constante. Leonard se vê
preso ao seu mundinho particular, seu emprego na loja
de seus pais cupidos (a mãe merece um olhar mais atento:
é uma das grandes divas de outrora do cinema, Isabela
Rossellini, castigada pelo tempo, face enrugada, mas imponente
como sempre...) e a inércia amorosa de seu relacionamento
com Sandra. Michelle é submissa a Ronald, está presa ao
mundo dele, o do homem comprometido com a sua família
incapaz de dedicar-se plenamente à sua amante a quem paga
o apartamento contíguo a Leonard em que vive. Nesse torvelinho
de fortes relações e confusões emocionais, Leonard mantém-se
fiel ao seu objeto do desejo desde o princípio, sua amada
quase que ideal, cego por este desígnio: nisso ele está
preso também, e não consegue sair, e muito menos consegue
adentrar no universo de Sandra, como os burgueses surrealistas
de Buñuel (embora no filme de Gray isto se dê em
um jogo de mão dupla).
Nesta possivelmente trágica e evanescente estória de amor,
ninguém é anjo por inteiro, onde dissimulações, mentiras
e fingimentos perpassam os meandros de toda a trama quase
que constantemente, sendo que o que fica por ser exterminado
é o verdadeiro amor, o amor intenso e sincero, puro por
vezes, mas cruel quando passado da potência ao ato. O
legado apontado por "Amantes", em seu epílogo melancólico
em meio aos festejos de reveillon, pode ser parafraseado
por um famoso ditado popular: "já que não tem tu, vai
tu mesmo". Mas amor verdadeiro, que o dramaturgo Nélson
Rodrigues afirmou certa feita poder ser comprado, se verdadeiro
o for de fato, não tem preço, e o "prêmio de consolação"
só trará mais infelicidade a todos os envolvidos. Aí sim
é que ninguém conseguirá mesmo impelir-se para fora das
masmorras construídas pelas próprias escolhas equivocadas
e irracionais feitas e nem entrar no caminho que conduz
à felicidade no que diz respeito a esse tão misterioso
e obscuro amor, seja ele qual for.
AMANTES (Two Lovers, EUA, 2008)
Direção: James Gray.
Elenco: Joaquin Phoenix, Gwyneth Paltrow, Vinessa
Shaw, Elias Koteas, Moni Moshonov, Isabela Rossellini.
Cotação: ****
O ANJO EXTERMINADOR (El Ángel Exterminador,
México / Espanha,1962)
Direção: Luis Buñuel.
Elenco: Augusto Benedico, Silvia Pinal ,Claudio
Brook, Cesar del Campo, Jacqueline Andere.
Cotação: ***** |
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