GUERRILHA URBANA E RESISTÊNCIA NA SELVA (OU VERSA-VICE)
Ricardo Rangel
 
 

Dois recentes - e excelentes - filmes que tratam de questões delicadas e complexas envolvendo discussões ideológicas, política partidária e internacional bem como a luta pelos direitos humanos merecem menção e uma pequena análise, menção esta que não seria exagerado classificar como honrosa para ambos os casos. "Um Ato de Liberdade", produção norte-americana dirigida por Edward Zwick, e "O Grupo Baader Meinhof", de Uli Edel (coprodução alemã, checa e francesa), mexem, de alguma forma, com as mazelas do sistema, tanto o da Alemanha nazista quanto do mesmo país esfacelado e fragmentado pelo pós-guerra na década de setenta com a efervescência de movimentos de extrema esquerda no lado ocidental.

"Um Ato de Liberdade" narra a história verídica dos irmãos Bielski (Tuvia, Zus e Asael), judeus bielorrussos que se refugiam nas matas do leste europeu fugindo do implacável e cruel exército nazista, amealhando outros refugiados e criando um grupo de resistência alinhavado por ideais socialistas e eficientes técnicas de guerrilha. O mesmo mote, baseado nas teorias socialistas de Lênin e Trotski, mas nem tanto com os preceitos bolcheviques, é o que move o assim chamado Baader Meinhof Komplex, uma designação da RAF (Facção Armada Vermelha), grupo idealista alemão da década de setenta que se utilizava de técnicas de guerrilha urbana para chamar a atenção das autoridades alemãs e pregava o anti-imperialismo estado-unidense em relação à presença ianque em território vietnamita.

Independente da discussão de a RAF ser um grupo acusado de praticar atos terroristas, algo que não será explorado nem de soslaio nesta pequena resenha, o ponto aqui é explorar uma conexão entre fatos dos filmes através do viés metodológico que os une, a saber, os ideais motivacionais tanto dos irmãos Bielski na sua luta ferrenha e comovente pela sobrevivência, quanto dos integrantes da RAF em busca de justiça e validação normativa dos direitos humanos categoricamente violados na política alemã do pós-guerra e no expansionismo imperialista da América do Norte estado-unidense em direção ao extremo oriente, particularmente na intervenção militar na guerra do Vietnã.

Especificamente no caso dos filmes que retratam estas situações, é impressionante a forma com que Tuvia e Zus Bielski foram interpretados, respectivamente, por Daniel Craig e Liv Schreiber em "Um Ato de Liberdade": ambos estão em perfeita sintonia fina, e suas atuações extremamente comprometidas com a causa pela qual lutam, juntamente com um belíssima fotografia, roteiro e direção, e que fazem da obra de Zwick um filme bastante intenso e convincente, que mescla na medida cenas de sangrenta batalha campal com discussões teóricas e dramas pessoais que comovem e integram o espectador nos meandros da trama. A relação meio que Caim-Abel entre Tuvia e Zus é explorada no seu máximo, extraindo vivacidade e carga emocional intensa dos seus protagonistas, que tinham o mesmo ideal basicamente, mas divergiam profundamente quanto aos métodos a serem utilizados em suas práticas.

Um pouco distinto nesta ambiguidade, mas semelhante no ideal conjunto, é o que move os integrantes da RAF em "O Grupo Baader Meinhof": Andreas Baader e sua namorada Gudrun Ensslin são radicais de esquerda, filhos da geração nazista alemã, e preconizam e defendem atos extremos para atingir as autoridades, como através de atentados e sequestros, onde se faz referência ao do voo da Lufhtansa, por exemplo, em troca da libertação de presos políticos - algo que perdurou na organização mesmo com a prisão de seus líderes do alto escalão e o seguimento dos princípios básicos por quem assume a liderança da facção. Opondo-se ao casal Baader-Gudrün está Ulrike Meinhof (Martina Gedeck), uma espécie de Fernando Gabeira no grupo: assim como o atual senador do Partido Verde no MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro, grupo extremista que sequestrou o embaixador Charles Eldrick na época da ditadura do governo militar no Brasil nos anos 60, fato contado tanto no livro como no filme homônimo "O Que É Isso, Companheiro?"), Ulrike quer atingir a autoridade pela palavra, pelo discurso retórico bem argumentado, algo não compactuado por Andreas e Gudrun, os quais não querem saber tanto assim de papo e sim objetivam a ação, o que gera imensos conflitos em relação aos métodos que inclusive envereda para questões ideológicas.

Ao contrário de Tuvia e Zus, que conseguiram sobreviver à perseguição do III Reich nas matas enlameadas e perigosas da Bielo-Rússia e levaram seu grupo, com consideráveis baixas, a uma vitória no acuamento em que se encontravam lutando pelas suas vidas, o grupo Baader Meinhof sucumbiu ao poder sob a égide das sombras suásticas que indiretamente o acompanhava, mas continuou agindo na clandestinidade, como já o fazia, mas sem a liderança fragmentada, mas intensa, de Andreas, Gudrun e Ulrike, que são torturados na prisão durante um longo e penoso julgamento que se arrasta sob denúncias de assassinato e corrupção de provas.

Há um legado, ou mais de um, a ser compreendido e sentido ao se assistirem ambos os filmes: são excelentes produções, cada uma em seus aspectos e nas contendas a que se pretende investigar, merecendo um mínimo de atenção. Assista-os e julgue-os como achar mais justo e razoável à tudo que será submetido nestas experiências cinematográficas tão ricas em uma indústria paradoxalmente tão pobre e intelectualmente sofrível de filmes sobre estas temáticas recentemente. Ainda resta a esperança, portanto, à luta, companheiros(as)!



UM ATO DE LIBERDADE (Defiance, EUA, 2008)

Direção: Edward Zwick.

Elenco: Daniel Craig, Liev Schreiber, Jamie Bell.

Cotação: *****



O GRUPO BAADER MEINHOF (Der Baader Meinhof Komplex, Alemanha/França/ Rep. Checa, 2008)

Direção: Uli Edel.

Elenco: Moritz Bleibtreu, Martina Gedeck, Johanna Wokalek, Bruno Ganz.

Cotação: ****