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Dois recentes - e excelentes - filmes que tratam de
questões delicadas e complexas envolvendo discussões
ideológicas, política partidária e internacional bem
como a luta pelos direitos humanos merecem menção e
uma pequena análise, menção esta que não seria exagerado
classificar como honrosa para ambos os casos. "Um
Ato de Liberdade", produção norte-americana dirigida
por Edward Zwick, e "O Grupo Baader Meinhof",
de Uli Edel (coprodução alemã, checa e francesa), mexem,
de alguma forma, com as mazelas do sistema, tanto o
da Alemanha nazista quanto do mesmo país esfacelado
e fragmentado pelo pós-guerra na década de setenta com
a efervescência de movimentos de extrema esquerda no
lado ocidental.
"Um Ato de Liberdade" narra a história verídica
dos irmãos Bielski (Tuvia, Zus e Asael), judeus bielorrussos
que se refugiam nas matas do leste europeu fugindo do
implacável e cruel exército nazista, amealhando outros
refugiados e criando um grupo de resistência alinhavado
por ideais socialistas e eficientes técnicas de guerrilha.
O mesmo mote, baseado nas teorias socialistas de Lênin
e Trotski, mas nem tanto com os preceitos bolcheviques,
é o que move o assim chamado Baader Meinhof Komplex,
uma designação da RAF (Facção Armada Vermelha),
grupo idealista alemão da década de setenta que se utilizava
de técnicas de guerrilha urbana para chamar a atenção
das autoridades alemãs e pregava o anti-imperialismo
estado-unidense em relação à presença ianque em território
vietnamita.
Independente da discussão de a RAF ser um grupo
acusado de praticar atos terroristas, algo que não será
explorado nem de soslaio nesta pequena resenha, o ponto
aqui é explorar uma conexão entre fatos dos filmes através
do viés metodológico que os une, a saber, os ideais
motivacionais tanto dos irmãos Bielski na sua luta ferrenha
e comovente pela sobrevivência, quanto dos integrantes
da RAF em busca de justiça e validação normativa
dos direitos humanos categoricamente violados na política
alemã do pós-guerra e no expansionismo imperialista
da América do Norte estado-unidense em direção ao extremo
oriente, particularmente na intervenção militar na guerra
do Vietnã.
Especificamente no caso dos filmes que retratam estas
situações, é impressionante a forma com que Tuvia e
Zus Bielski foram interpretados, respectivamente, por
Daniel Craig e Liv Schreiber em "Um Ato de Liberdade":
ambos estão em perfeita sintonia fina, e suas atuações
extremamente comprometidas com a causa pela qual lutam,
juntamente com um belíssima fotografia, roteiro e direção,
e que fazem da obra de Zwick um filme bastante intenso
e convincente, que mescla na medida cenas de sangrenta
batalha campal com discussões teóricas e dramas pessoais
que comovem e integram o espectador nos meandros da
trama. A relação meio que Caim-Abel entre Tuvia e Zus
é explorada no seu máximo, extraindo vivacidade e carga
emocional intensa dos seus protagonistas, que tinham
o mesmo ideal basicamente, mas divergiam profundamente
quanto aos métodos a serem utilizados em suas práticas.
Um pouco distinto nesta ambiguidade, mas semelhante
no ideal conjunto, é o que move os integrantes da RAF
em "O Grupo Baader Meinhof": Andreas Baader e
sua namorada Gudrun Ensslin são radicais de esquerda,
filhos da geração nazista alemã, e preconizam e defendem
atos extremos para atingir as autoridades, como através
de atentados e sequestros, onde se faz referência ao
do voo da Lufhtansa, por exemplo, em troca da libertação
de presos políticos - algo que perdurou na organização
mesmo com a prisão de seus líderes do alto escalão e
o seguimento dos princípios básicos por quem assume
a liderança da facção. Opondo-se ao casal Baader-Gudrün
está Ulrike Meinhof (Martina Gedeck), uma espécie de
Fernando Gabeira no grupo: assim como o atual senador
do Partido Verde no MR-8 (Movimento Revolucionário 8
de Outubro, grupo extremista que sequestrou o embaixador
Charles Eldrick na época da ditadura do governo militar
no Brasil nos anos 60, fato contado tanto no livro como
no filme homônimo "O Que É Isso, Companheiro?"),
Ulrike quer atingir a autoridade pela palavra, pelo
discurso retórico bem argumentado, algo não compactuado
por Andreas e Gudrun, os quais não querem saber tanto
assim de papo e sim objetivam a ação, o que gera imensos
conflitos em relação aos métodos que inclusive envereda
para questões ideológicas.
Ao contrário de Tuvia e Zus, que conseguiram sobreviver
à perseguição do III Reich nas matas enlameadas e perigosas
da Bielo-Rússia e levaram seu grupo, com consideráveis
baixas, a uma vitória no acuamento em que se encontravam
lutando pelas suas vidas, o grupo Baader Meinhof sucumbiu
ao poder sob a égide das sombras suásticas que indiretamente
o acompanhava, mas continuou agindo na clandestinidade,
como já o fazia, mas sem a liderança fragmentada, mas
intensa, de Andreas, Gudrun e Ulrike, que são torturados
na prisão durante um longo e penoso julgamento que se
arrasta sob denúncias de assassinato e corrupção de
provas.
Há um legado, ou mais de um, a ser compreendido e sentido
ao se assistirem ambos os filmes: são excelentes produções,
cada uma em seus aspectos e nas contendas a que se pretende
investigar, merecendo um mínimo de atenção. Assista-os
e julgue-os como achar mais justo e razoável à tudo
que será submetido nestas experiências cinematográficas
tão ricas em uma indústria paradoxalmente tão pobre
e intelectualmente sofrível de filmes sobre estas temáticas
recentemente. Ainda resta a esperança, portanto, à luta,
companheiros(as)!
UM ATO DE LIBERDADE (Defiance, EUA, 2008)
Direção: Edward Zwick.
Elenco: Daniel Craig, Liev Schreiber, Jamie Bell.
Cotação: *****
O GRUPO BAADER MEINHOF (Der Baader Meinhof
Komplex, Alemanha/França/ Rep. Checa, 2008)
Direção: Uli Edel.
Elenco: Moritz Bleibtreu, Martina Gedeck, Johanna
Wokalek, Bruno Ganz.
Cotação: ****
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