O EFEITO DOS EFEITOS
Adriano de Oliveira
 
 

Depois de chegar ao ápice do reconhecimento e da popularidade com "Titanic" (1997), o "rei do mundo" James Cameron ganhou um poderoso inimigo: sua sombra. Tudo o que ele fizesse dali por diante seria inevitavelmente confrontado com seu apogeu. O que parecia uma confortável aposentadoria da cadeira de diretor, tendo o canadense passado a realizar exclusivamente a trabalhos de produção - entre os quais, a série de televisão "Dark Angel" (2000-2002) e a caprichada, do ponto de vista audiovisual, refilmagem do clássico "Solaris" (2002) -, deu lugar a um ousado projeto de direção chamado "Avatar", prometido como revolucionário na história do cinema mundial.

A expectativa, sabemos, é grande adversária dos filmes que vêm de cineastas já consagrados. "Será que este Haneke pode ser melhor que o anterior?" "Spielberg conseguirá cativar multidões em seu novo rebento?" Estas e outras perguntas do gênero mexem com corações e cérebros de cinéfilos ao redor do mundo. A Cameron se aplica o mesmo: não é possível se desviar do passado, deixar de fazer comparações ou avaliar com menos rigor quem já mostrou muito talento.

Eis que o saldo de "Avatar" (2009) se situa bem abaixo de "Titanic" do ponto de vista cinematográfico geral. Sorry, Jim, mas é da vida: quem arrisca, sempre está sujeito a tropeços, embora são apenas os espíritos indômitos que têm o destemor de tentar. "Avatar" não é um desastre, mas padece da "síndrome da expectativa (não-correspondida)" e do fantasma do (bom) passado de seu realizador.

Algo que é tido por inovador deveria ser bastante original (até porque "totalmente original" é uma utopia). A revolução de "Avatar" fica muito antes do meio do caminho: o brilho maior de sua estrela está em seu visual esmerado, na sua espetacular emulação de perspectivas que dão a dimensão de profundidade com grande realismo (fato constatado na projeção em 3D), na riqueza da detalhista captação de movimentos, em sua bela concepção artística que cria bem um mundo de fantasia. E só. Todo o bom cinema que se fez com isto acaba murchando em face da falta de um bom cinema equivalente em outros aspectos que deveria cercá-lo. Em suma, nem só de imagem vive a Sétima Arte. Assim começa o lado negativo do novo filme de Cameron: em meio a todo o deleite visual que propõe, lacunas narrativas surgem aos borbotões e não conseguem ser tampadas a contento.

O fato de seu roteiro ser óbvio e simples não é pecado quando se sabe fazer desse mesmo "óbvio-e-simples" algo que emocione genuinamente, ou melhor, quando se é conhecedor de transformar, e até distorcer, essa singeleza em obra-prima, caso de "Titanic". O alquimista de ontem perdeu sua magia. A história de "Avatar" - um filme de pouca alma - não empolga nunca, a despeito de seu rico visual, o qual é insuficiente para alavancar a obra ao patamar esperado. Não se torna possível fazer uma vasta leitura multicamadas nela ou achar ali bem-vindas nuances, pois as cartas do roteiro escrito por Cameron estão todas sobre a mesa e não vão além de suas temáticas mais evidentes: a mensagem ecologicamente correta, o mito do bom selvagem versus a ganância do ser civilizado, a correspondência imediata com uma crítica da política imperalista americana. Tudo balizado por um romance central entre os protagonistas que chega meio postiço e um tanto gélido ao coração da plateia (que saudades de Rose e Jack!).

Ao reciclar elementos de sua filmografia ao longo da narrativa de seu novo filme, o diretor acaba ou por fazer uma auto-homenagem - na melhor das hipóteses - ou revelar uma crise criativa (na pior das suposições, e a mais provável delas). Um problema extra está no fato de que não são somente suas obras anteriores a serem referidas aqui, mas também as de diversos outros cineastas. "Dança com Lobos" (1990), "Pocahontas" (1995) e inclusive o recente "Substitutos" (2009) constituem apenas alguns dos exemplos cujos certos aspectos particulares ganham associação com episódios do filme de James.

Também ele não levou em conta a fadiga que seu espetáculo causa. Após uns trinta minutos de efeitos especiais que surpreendem, não é difícil deixar de se seduzir por eles, pois o ineditismo inicial passa, e a super-exposição de efeitos e as repetições de soluções visuais implantadas para manter o interesse na projeção em 3D começam a dar gosto de déjà-vu nos espectadores. Junte-se a isso a desnecessária duração da narrativa: duas horas e quarenta minutos que podiam ser polidos de modo a eliminar um rol de excessos que atravancam o andamento de um filme que, ao final das contas, tem pouco a dizer. Aliás, a rasidade de seus personagens impressiona negativamente e os clichês mal empregados sobejam. Basta lembrar que temos aqui um dos vilões mais batidos e irritantes do cinema desta década, incomodamente recordando aquele do malfadado "Austrália" (2008) - até o modo dele sair de cena imita o do personagem de David Wenham na presunçosa fita dirigida por Baz Luhrmann.

Apesar da tecnologia avançada que utilizou aqui e que pretende ser um ícone para o futuro do cinema, algumas coisas ficaram no século passado para Cameron, o qual desaprendeu que o maior dos efeitos cinematográficos é a capacidade de conquistar não somente os olhos, mas principalmente, a mente e o coração dos espectadores.



AVATAR (idem, EUA, 2009)

Direção: James Cameron.

Elenco: Sam Worthington, Zoe Saldana, Stephen Lang, Sigourney Weaver, Joel Moore, Giovanni Ribisi, Wes Studi, CCH Pounder, Michelle Rodriguez.

Cotação: **