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Depois de chegar ao ápice do reconhecimento e da popularidade
com "Titanic" (1997), o "rei do mundo" James
Cameron ganhou um poderoso inimigo: sua sombra. Tudo
o que ele fizesse dali por diante seria inevitavelmente
confrontado com seu apogeu. O que parecia uma confortável
aposentadoria da cadeira de diretor, tendo o canadense
passado a realizar exclusivamente a trabalhos de produção
- entre os quais, a série de televisão "Dark
Angel" (2000-2002) e a caprichada, do ponto de vista
audiovisual, refilmagem do clássico "Solaris"
(2002) -, deu lugar a um ousado projeto de direção
chamado "Avatar", prometido como revolucionário
na história do cinema mundial.
A expectativa, sabemos, é grande adversária dos filmes
que vêm de cineastas já consagrados. "Será que
este Haneke pode ser melhor que o anterior?" "Spielberg
conseguirá cativar multidões em seu novo rebento?"
Estas e outras perguntas do gênero mexem com corações
e cérebros de cinéfilos ao redor do mundo. A Cameron
se aplica o mesmo: não é possível se desviar do passado,
deixar de fazer comparações ou avaliar com menos rigor
quem já mostrou muito talento.
Eis que o saldo de "Avatar" (2009) se situa bem
abaixo de "Titanic" do ponto de vista cinematográfico
geral. Sorry, Jim, mas é da vida: quem arrisca,
sempre está sujeito a tropeços, embora são apenas os
espíritos indômitos que têm o destemor de tentar. "Avatar"
não é um desastre, mas padece da "síndrome da expectativa
(não-correspondida)" e do fantasma do (bom) passado
de seu realizador.
Algo que é tido por inovador deveria ser bastante original
(até porque "totalmente original" é uma utopia). A revolução
de "Avatar" fica muito antes do meio do caminho:
o brilho maior de sua estrela está em seu visual esmerado,
na sua espetacular emulação de perspectivas que dão
a dimensão de profundidade com grande realismo (fato
constatado na projeção em 3D), na riqueza da detalhista
captação de movimentos, em sua bela concepção
artística que cria bem um mundo de fantasia.
E só. Todo o bom cinema que se fez com isto acaba murchando
em face da falta de um bom cinema equivalente em outros
aspectos que deveria cercá-lo. Em suma, nem só de imagem
vive a Sétima Arte. Assim começa o lado negativo do
novo filme de Cameron: em meio a todo o deleite visual
que propõe, lacunas narrativas surgem aos borbotões
e não conseguem ser tampadas a contento.
O fato de seu roteiro ser óbvio e simples não é pecado
quando se sabe fazer desse mesmo "óbvio-e-simples" algo
que emocione genuinamente, ou melhor, quando se é conhecedor
de transformar, e até distorcer, essa singeleza em obra-prima,
caso de "Titanic". O alquimista de ontem perdeu
sua magia. A história de "Avatar" - um filme
de pouca alma - não empolga nunca, a despeito
de seu rico visual, o qual é insuficiente para alavancar
a obra ao patamar esperado. Não se torna possível fazer
uma vasta leitura multicamadas nela ou achar ali bem-vindas
nuances, pois as cartas do roteiro escrito por Cameron
estão todas sobre a mesa e não vão além de suas temáticas
mais evidentes: a mensagem ecologicamente correta, o
mito do bom selvagem versus a ganância do ser
civilizado, a correspondência imediata com uma crítica
da política imperalista americana. Tudo balizado por
um romance central entre os protagonistas que chega
meio postiço e um tanto gélido ao coração da plateia
(que saudades de Rose e Jack!).
Ao reciclar elementos de sua filmografia ao longo da
narrativa de seu novo filme, o diretor acaba ou por
fazer uma auto-homenagem - na melhor das hipóteses -
ou revelar uma crise criativa (na pior das suposições,
e a mais provável delas). Um problema extra está
no fato de que não são somente suas obras
anteriores a serem referidas aqui, mas também
as de diversos outros cineastas. "Dança
com Lobos" (1990), "Pocahontas"
(1995) e inclusive o recente "Substitutos"
(2009) constituem apenas alguns dos exemplos cujos certos
aspectos particulares ganham associação
com episódios do filme de James.
Também ele não levou em conta a fadiga que seu espetáculo
causa. Após uns trinta minutos de efeitos especiais
que surpreendem, não é difícil deixar de se seduzir
por eles, pois o ineditismo inicial passa, e a super-exposição
de efeitos e as repetições de soluções visuais implantadas
para manter o interesse na projeção em 3D começam a
dar gosto de déjà-vu nos espectadores. Junte-se
a isso a desnecessária duração da narrativa: duas horas
e quarenta minutos que podiam ser polidos de modo a
eliminar um rol de excessos que atravancam o andamento
de um filme que, ao final das contas, tem pouco a dizer.
Aliás, a rasidade de seus personagens impressiona negativamente
e os clichês mal empregados sobejam. Basta lembrar que
temos aqui um dos vilões mais batidos e irritantes do
cinema desta década, incomodamente recordando
aquele do malfadado "Austrália" (2008) - até
o modo dele sair de cena imita o do personagem de David
Wenham na presunçosa fita dirigida por Baz Luhrmann.
Apesar da tecnologia avançada que utilizou aqui
e que pretende ser um ícone para o futuro do
cinema, algumas coisas ficaram no século passado para
Cameron, o qual desaprendeu que o maior dos efeitos
cinematográficos é a capacidade de conquistar não
somente os olhos, mas principalmente, a mente e o coração
dos espectadores.
AVATAR (idem, EUA, 2009)
Direção: James Cameron.
Elenco: Sam Worthington, Zoe Saldana, Stephen
Lang, Sigourney Weaver, Joel Moore, Giovanni Ribisi,
Wes Studi, CCH Pounder, Michelle Rodriguez.
Cotação: **
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