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Loucura é um conceito amplo, mas se for para classificar,
eu digo que existe a loucura tradicional, e existe a
outra. Por exemplo, dois gêmeos fazendo a barba olhando
um para o outro, invertendo o braço que segura a navalha,
só para economizar no espelho, dá para classificar como
um ato de loucura até divertido. Mas, se um dos gêmeos
se corta e sangra abundantemente, e o outro, em vez
de ajudar, se corta também, para continuar economizando
no espelho até a morte, aí, meu filho... não há explicação
na loucura.
Só nas trevas.
Em Os Intocáveis, Malone, personagem que deu
o Oscar a Sean Connery, diz a Elliot Ness (Kevin Costner),
"todo mundo sabe onde está Al Capone, o problema é encontrar
alguém disposto a enfrentar as conseqüências de prendê-lo".
Em Tropa de Elite, o Capitão Nascimento (Wagner
Moura) é categórico: quem quiser cumprir o dever de
policial honesto no Rio de Janeiro terá de ir para a
guerra.
Batman já dizia isso muito tempo antes. Muito antes
de o considerarem um super-herói.
Numa análise rasa, eu diria que nosso desejo íntimo
de fazer justiça é punir quem merece rapidamente, ou
seja, sem precisar do judiciário, com seu tecnicismo
responsável em dar direito de defesa a todos, que o
torna moroso e ainda podendo deixá-lo sem punir ninguém.
Porém, se fôssemos nós a tomar as iniciativas de fazer
acontecer frente ao mundo cruel, então o judiciário
nos chamaria pejorativamente de justiceiros, e ser justiceiro
não significa ser da justiça, mas o inverso.
Para não ser chamado de justiceiro, o super-herói deve
ser o cara muito mais da conduta exemplar do que da
identidade secreta ou dos superpoderes. Que combate
o mal agindo sob fortes preceitos morais. E se conhecer
o Código Penal da primeira à última linha, consagra
o kit básico para casar com a filha de juízes e advogados
e ter a legitimidade de receber o cumprimento do comissário
de justiça ou até do presidente da nação. Fosse para
citar um ícone, daria Superman na cabeça. Ninguém melhor
do que ele personifica descer dos céus na velocidade
da luz só para ajudar uma velhinha a atravessar a rua.
Que amor.
Por isso os super-heróis se deram melhor do lado de
dentro das revistas, dos desenhos animados, dos filmes
e das séries de TV, nos seus mundos que emulam o nosso
mundo cruel e injusto, blábláblá, e que nos tornam oniscientes
como leitores ou espectadores. Podemos distinguir com
absoluta certeza os bons e os maus. E a justiça pode
ser feita rapidamente sob nossa benção. Os "súpers"
cheios de moral e conduta ilibada são a extensão do
nosso martelo.
E, melhor ainda, qualquer perigo, sobra para eles. Mas
que graça tem? Correr perigo nos mundos emulados infanto-juvenis
deles é das partes mais divertidas. O estranho ritmo
natural das coisas por lá, garante o direito de, na
eventualidade de serem capturados, que seus arqui-inimigos
em vez de matá-los rapidamente, sejam obrigados a montar
todo um esquema mirabolante de afogamento por goteiras
do teto, além de ter de contar seus planos secretos
de destruir o mundo enquanto os pingos caem. Os heróis
capturados são os que melhor vencem no fim, pois arrancam
a confissão dos réus, e ainda podem acusá-los de tentativa
de assassinato ineficiente.
Ledo engano quem acha que candidato a super-herói precisa
necessariamente de superpoderes. Coragem, inteligência,
tenaz treinamento de combate marcial, rios de dinheiro
para desenvolver tecnologias à frente do seu tempo,
já disponibilizam a carteirinha.
Batman, o herói do morcego, humano, com capa e máscara
negra, que carrega no cinto acessórios para o combate
ao crime, criado por Bob Kane em 1939, teve dois momentos
na televisão. Um bom, o desenho animado Liga da Justiça,
onde apesar de certa importância, era coadjuvante de
Superman, Mulher Maravilha e Lanterna Verde. Parecia
estar ali mais para suporte técnico. Ou então de favor
mesmo. E teve, aí sim, um grande momento, a nostálgica
série dos anos sessenta, que demarcou as fronteiras
de como pais e filhos deveriam pensar Batman. Começava
na inesquecível música de abertura, o maior clássico
melódico de três notas de todos os tempos, movido a
bat-cafeína, que nos apressava para terminar o lanche
e correr para a frente da TV a dar socos no ar. Para
levar tranquilidade às ruas da imaginária Gotham City,
o herói já tinha a ajuda do "garoto prodígio" Robin,
do bat-móvel, da bat-caverna, do bat-cinto de utilidades,
da Batgirl, da mesma bat-hora e bat-canal. Porém, convenhamos,
o ato de combater o crime contra vilões de matiné como
"aquele" Coringa (seu principal inimigo), o Pinguim,
o Charada, o Senhor Gelo, a Mulher Gato, o Rei Tut,
etc., deveria dar uma emoção igual à de desfilar numa
escola de samba. Gotham mais parecia um desfile colorido
do bloco do Soc! Pow! Biff! A cidade cheia de criminosos
mais inofensiva da face da Terra. Na frente da TV, nas
tardes, depois da hora do lanche, com o Batman, o negócio
era botar máscara, capa, nocautear adversários imaginários
e rir.
Contudo, este Homem-Morcego, voltado brilhantemente
para o lado da aventura cômica, talvez tenha frustrado
seu criador. Pois no meio da diversão ninguém se perguntava
porque o herói vestia preto, com tons cinzas, personificando
uma criatura noturna.
A série se encerrou em 1968, não sei se por coincidência,
ou porque já se percebia um fenômeno progressivo de
desinteresse do público pelos caras da cueca por cima
da fantasia, que aumentou mais ainda até metade dos
anos oitenta. Nesta época, a maioria dos super-heróis
das grandes editoras de quadrinhos atingiram ou estavam
indo para o fundo do poço em interesse, credibilidade
e, consequentemente, poder comercial. Seus leitores
nasciam enfadados, e no meio da troca de fraldas clamavam
por mudanças. As aventuras soavam como o sempre do
de sempre do de sempre. Para não cometer injustiça
houve, sim, trabalhos que tentaram algo mais, mas não
tiveram impacto para suplantar todo um modelo engessado.
A grande maioria ainda ancorada no universo do vilão
que conta os planos enquanto as goteiras fazem o resto.
Batman, em especial, mesmo nos quadrinhos, parecia abandonado
à sensação de que ia e vinha da sua bat-caverna apenas
por estar preso a um circulo vicioso fadado a engolir
a si mesmo, receita anos sessenta, e a dizer que está
bom assim.
No entanto, um certo roteirista americano chamado Frank
Miller escreveu e desenhou uma história que foi lançada
em 1986 na forma de minissérie, em que um aposentado
Batman, com cinquenta e tantos anos de idade, considerado
morto, volta a atuar em Gotham City. Para alguns leitores
havia algo de errado, e não era com a velhice, mas com
seu modo de agir. Para outros havia algo de diferente,
e para os amantes do subversivo havia algo de espetacular.
O personagem de Miller agia guiado por fantasmas em
sua cabeça, e da melhor qualidade, fantasmas que não
podem ser curados, por isso gerando as forças motrizes
mais perturbadoras e determinadas possíveis.
Ei-la, a explicação. Batman, então um Bruce Wayne com
dez anos, teve os pais assassinados na sua frente em
um assalto. Segurar a cabeça do pai e ver seu olhar
sumir, levou ao menino Bruce a sensação de que caíra
numa caverna escura, cheia de criaturas de olhos amarelos
e sedentas de sangue, e que voavam em sua direção. As
trevas entraram para dentro dele.
E de lá começaram a ditar regras.
Batman renasceu com o melhor título que seu personagem
poderia ter. The Dark Knight Return, que no Brasil
foi traduzido como O Cavaleiro das Trevas. Um
título que iniciou uma revolução que abrangeu todo o
universo "super". Iniciou a era dos heróis para adultos,
que foi sacramentada logo em seguida, por Watchmen,
do inglês Alan Moore e do desenhista americano Dave
Gibbons, esta considerada a melhor minissérie de quadrinhos
de todos os tempos.
Na sequência, mais duas obras primas sobre Batman brotaram
de Miller e Alan Moore. A Piada Mortal do autor
inglês e mais Brian Bolland e Batman: Ano Um de
Frank Miller e David Mazzucchelli. (Alguns incluiriam
Asilo Arkham, porém muito mais pelos desenhos/pinturas
de Dave Mackean do que por alguma inovação que o roteiro
de Grant Morrison, e portanto não será aqui abordado).
Vamos a um olhar resumido na chamada trinca sagrada.
BATMAN: O CAVALEIRO DAS TREVAS
O bilionário Bruce Wayne, com cinqüenta e cinco anos,
há dez não aparece como Batman (para ressaltar a questão
da idade, Miller faz uma brincadeira sutil, mostrando
o mordomo Alfred com uma aparência mais jovem do que
a do patrão). Mas isso representou um esforço tremendo.
Ele é O Médico e o Monstro de Gotham City, duas
personalidades, apenas um corpo. Em busca de sossego,
passou os últimos dez anos tentando equilibrar as duas
partes. Essa guerra interior é projetada no seu interesse
pelo bandido Duas Caras, cujo nome verdadeiro é Harvey
Dent, confinado na prisão para doente mentais perigosos
chamada Asilo Arkham. Dent era um promotor público dedicado,
mas que ao ter metade do seu rosto desfigurado num acidente
transformou-se num marginal ambíguo: suas vítimas viviam
ou morriam dependendo da moeda que ele jogava para cima
(alguém lembrou do "oscarizado" Anton Chigurh, de Onde
os Fracos Não Têm Vez ?). Wayne paga o tratamento
para "consertar" o rosto de Dent, numa esperança que
pudesse por simbiose freudiana consertar a si mesmo.
Dent depois da cirurgia alega que está curado e quando
todos acreditam, ele aproveita para fugir. E Batman
também. Em boa hora... Gotham City está um caos, o comissário
Gordon - seu maior alicerce moral - com setenta anos,
se aposentará em breve.
Nas ruas, uma gangue de garotos, que se autodenomina
Mutantes, mata inescrupulosamente, e com requintes de
crueldade, difundido a barbárie e o medo. Paralelamente,
a corrupção das instituições, a ameaça de uma guerra
nuclear entre EUA e a Rússia, e o calor sufocante do
verão, tornam Gotham City uma panela fechada sobre fogo
alto. O Homem-Morcego retorna para ajeitar as coisas,
mas o fará do seu jeito. Numa cena, é atacado por um
mutante e pensa: "existem sete maneiras de defender
este golpe, três salvariam o agressor, três o matariam
e uma o aleijaria". Opta pela última. E para completar,
o seu mais temível inimigo, o insano Coringa, também
preso no Arkham , catatônico, adivinhem, há dez anos,
volta a sorrir e escapa. Após provocar muitas mortes,
inclusive de crianças, para atrair o eterno rival à
sua armadilha, os dois se enfrentam. No duelo, Batman
quebra o pescoço do Coringa, que mesmo assim morre rindo.
E, para quem da velha guarda, das goteiras, tinha alguma
dúvida, tipo não estar chocado, o final reserva o espetacular
combate entre Batman e o bom moço Superman, ainda galã
supremo das filhas de advogados e juízes (para dar um
fim no incômodo bat-problema, ele é convocado pelo presidente
americano em pessoa, e diz Sim, Senhor). O resultado
lava a alma de quem não vai com a cara de garotos de
recado.
Frank Miller traçou com ironia e humor negro um panorama
moderno da sociedade americana. Mesmo que o cenário
de uma guerra nuclear com os russos esteja desatualizado
(embora não impossível), as relações de poder e a política,
pautada muito em interesses pessoais e corporativos,
permanecem as mesmas. Portanto Miller, nesta obra, foi
muito além da reconhecida ressurreição do Homem-Morcego,
agora um sombrio e violento justiceiro, e que, interessante,
não carrega nenhum remorso do que faz. Há apenas o objetivo
e a busca por atingi-lo, não importa como.
A PIADA MORTAL
Na cena inicial, Batman e Coringa estão frente a frente
em uma mesa na cela do Asilo Arkham, onde o vilão está
preso. Foi Batman quem pediu para conversar. O Coringa,
rosto impassível, apenas joga cartas. O Homem-Morcego
abre seu coração, quer convencer o rival a uma trégua,
a desistir de viver uma vida cujo propósito é apenas
espalhar o caos e gargalhadas. Pressente-se que se continuarem
duelando do jeito que o fizeram tantos anos, acabarão
por se matar. Batman fala, fala, e ao ficar incomodado
com o silêncio do outro, descobre que abriu seu coração
para uma fraude. O verdadeiro Coringa aproveitou sua
visita para escapar e preparar mais um plano de vingança.
Em flashback é mostrada sua origem. Um humorista
desempregado, com a mulher grávida e neném prestes a
nascer. Em desespero, aceita a proposta de dois ladrões
para participar de um roubo numa fábrica de cartas de
baralho. No dia anterior ao delito recebe a notícia,
por policiais, que sua esposa e o neném morreram num
acidente doméstico. O mundo lhe desabou naquele dia
ruim. Tenta desistir do roubo, mas seus comparsas o
ameaçam. Na cena do crime, os parceiros morrem e ele
encontra o Batman. No desespero da fuga, cai sobre um
tanque com lixo químico. Conseguiu escapar do Batman,
mas ao sair num esgoto com o cabelo verde, pele branca
e sorriso eterno podemos dizer que ele jamais escapou.
De volta ao presente, o Coringa invade o apartamento
de Bárbara Gordon, a Batgirl, e atira em sua barriga
fraturando-lhe a espinha. Ela é filha do Comissário
Gordon, que estava no apartamento e é pego de surpresa.
O vilão rapta o Comissário, leva-o para um parque de
diversões abandonado e o tortura de todas as formas,
inclusive mostrando-lhe fotos da filha nua, ferida e
violentada. Ao encontrar Bárbara desse jeito, Batman
percebe que não havia mais solução. Com ódio, inicia
uma corrida contra o tempo para acertar de forma definitiva
as contas com o inimigo.
Ambos finalmente se encontram no parque. O Coringa,
às gargalhadas, comenta sobre origens e motivações:
Apenas um dia ruim separa um cidadão comum de pessoas
como nós, apenas um dia ruim. Você deve ter tido um
dia muito ruim para sair por aí vestido de rato voador.
Esse discurso define o eixo Batman-Coringa, como duas
imagens invertidas da mesma coisa. O Comissário Gordon,
por outro lado, mesmo depois de mal-tratado, mesmo depois
de ser exposto a tudo de ruim que fizeram com sua filha
(o Coringa o fez para enlouquecer Gordon e comprovar
sua tese), se mantém íntegro. Quando foi salvo pelo
Batman, disse: "Prenda-o, mas pela lei, pela lei,
ouviu? Para provar a ele que do nosso jeito funciona".
O herói responde que sim, mas acho que foi mais para
não contrariar um homem que foi torturado nu. A história
termina com ambos frente a frente, depois de uma luta
sob a chuva, em que Batman vence facilmente. Com o adversário
batido, diz que ainda gostaria de ajudá-lo, retomando
as intenções do começo. O Coringa pela primeira vez
fica sério, e conta a piada dos dois loucos no hospício
em que um louco faz uma proposta ao outro: fugir do
hospício, caminhando sobre o facho de luz de uma lanterna.
O outro recusa porque acha a idéia uma loucura, já
pensou se a luz apaga no meio do caminho? Termina
com os dois loucos morrendo de rir sobre a chuva, não
os da piada, os da revista.
Alan Moore em grandiloquente forma. O autor inglês é
um arquiteto como nenhum outro de histórias. Sabe onde
que chegar e assim elabora cada detalhe do começo, do
meio, e do fim como peça de um quebra-cabeças muito
bem montado. Foi pela Piada Mortal que a conduta
do personagem passou a ser questionada por ele mesmo.
Batman se discute quando propõe paz ao principal antagonista.
BATMAN: ANO UM
Duas histórias paralelas contam começos. A iniciação
do próprio Batman, sob a ótica de um jovem Bruce Wayne,
recém-chegado ao lar depois de andanças pelo Oriente,
se preparando física e mentalmente para a grande batalha
que escolheu. E, paralelamente, é narrada a chegada
do incorruptível tenente Gordon, a Gotham City, uma
cidade corrupta (sempre), dos policiais aos políticos,
onde os ladrões são os que mais reclamam. Gordon também
travará grandes batalhas, as piores serão contra os
próprios colegas de profissão. Não há nesta história
a violência e o humor negro aos níveis de O Cavaleiro
das Trevas, mas tudo é muito bem feito. Mostra os
tropeços de Batman no início, sofrendo até para dominar
uma gangue de delinquentes e apanhando de prostitutas.
A relação amigável dele com Harvey Dent, até então um
promotor determinado contra o crime. O surgimento da
Mulher Gato. Até o lado humano do incorruptível Gordon
é exposto: com a esposa grávida em casa, ele cai em
adultério com uma colega de trabalho.
Frank Miller está mais tradicional, mas não menos fabuloso.
Na minha opinião, este cara quando está a fim (o que
não vem acontecendo nos últimos anos, vide aquele imensa
porcaria chamada infelizmente de O Cavaleiro das
Trevas 2, mas deixa pra lá), é disparado o melhor
narrador dos quadrinhos. Com pouco diz muito. Por exemplo,
em apenas um quadrinho ele conseguiu representar todo
o inferno interior do Comissário Gordon, que aparece
sentado em sua cama segurando uma arma, a esposa dorme
ao lado. "Neste momento, eu devia estar falando com
ela, pedindo que me perdoe por causa do bebê em sua
barriga e pela maneira como estou pensando em Essen.
Sim...eu devo chamá-la de Essen. Esquecer seu corpo,
sua pele...seus lábios. Bárbara....eu devia falar com
ela. Não podia estar pensando na Sargento...nem no Batman.
Ele é um criminoso. Eu sou um policial. Mas, mas, estou
numa cidade onde o prefeito e o comissário usam guardas
como assassinos contratados. Batman salvou aquela velha.
Ele salvou aquele gato. Até pagou o terno.....A peça
metálica em minha mão nunca pesou tanto."
Agora a pergunta. Olhando os argumentos das três histórias
acima, que alçaram o Homem-Morcego ao posto principal
dos heróis dos quadrinhos adultos, dá para falar de
fidelidade, ou respeito, por parte dos quatro filmes
da franquia que começou com Tim Burton e terminou a
sete palmos com Joel Schumacher?
Quando anunciado oficialmente o primeiro filme, a expectativa
dos fãs era enorme para ver o Batman Miller-Moore nas
telas. A boca entortou um pouco quando anunciaram o
diretor Tim Burton. Bem, não era muito famoso na época,
mas os produtores ressaltaram sua categoria para o clima
gótico, e ainda largaram um papo que a direção de arte
traria Gotham City no estilo Salvador Dali com tons
escuros. Mas o caldo engrossou com a confirmação do
franzino Michael Keaton no papel do protagonista. Reclame
atenuado pela roupa de borracha musculosa que ele usaria.
Por outro lado, recepção acalorada para a notícia que
o Coringa sairia na conta de Jack Nicholson. Batman
- O Filme teve uma grande bilheteria, provocando
uma batmania de ocasião. Porém, os fãs da trinca sagrada
ficaram desapontados. Foi-lhes arremessado nos olhos
um Batman para vender em loja de brinquedos, que tirava
o pé na hora de fazer valer seu direito de violar direitos.
Quase uma sacanagem.
Como todos sabemos, sucesso comercial é sequência. Batman
- O Retorno, ainda trazia Tim Burton na direção,
e com mais liberdade. Usando seu reconhecido talento,
trabalhou bem a presença de Michelle Pfeiffer, como
a Mulher Gato, e Danny de Vito como o Pinguim, para
que todos esquecessem que era Keaton quem estava sob
a roupa do morcego. Filme melhor do que o antecessor.
Mas melhor no sentido de cinema. Nenhuma evolução em
direção ao cara das Trevas. Os dois filmes subsequentes
da franquia, Batman Eternamente e Batman e
Robin vão para a classe dos sem-comentários (inclusive
em termos de bilheteria). Ou dos muitos palavrões ao
seu diretor, Joel Schumacher.
Batman no cinema parecia fadado ao sinal da cruz. Porém
novamente veio a ideia. Estendendo a bandeira branca,
os idealizadores da nova empreitada trataram rapidamente
de esclarecer pontos. O título seria algo com Begins
(Início). Juraram sobre entes queridos que nunca ouviram
falar de um tal J. Schumacher. O comando artístico seria
de Christopher Nolan, do cult Amnésia, e um protagonista
de não muito renome, mas que fez Psicopata Americano
(baita carta de recomendação!), chamado Christian
Bale. Os desconfiados fãs não sorriram, mas pelo menos
largaram os paus e as pedras. Batman Begins não
chegou a tirar o fôlego, mas trouxe realmente bons ares
de renovação. O personagem teve a origem mostrada e
o lado psicológico construído. Um terço dele é totalmente
dedicado à sua busca de problemas pelo mundo para entender-se
com seus conflitos, até encontrar o treinamento que
precisava numa sociedade secreta, A Liga das Sombras.
Está longe o filme de ser uma adaptação, mas com certeza
deslocou a tradução de Begins, para muito próximo
de "Ano Um". Várias situações, como a fuga de
Batman do Arkham, utilizando um sonar para chamar morcegos,
bem como a referência à peregrinação em busca da auto-descoberta
de Wayne e sua volta, e a forma como foi escolhida a
simbologia do morcego, vieram da história de Miller.
Mas o filme também apresenta seu lado independente com
boas idéias, como a destruição da mansãoWayne e a Liga
que treina Bruce. Entretanto, mesmo com todas as virtudes,
ele não se mostrou concretamente como o verdadeiro filme
Batman, O Esperado. Um epílogo mais para os filmes
da franquia anterior, e vilões, que embora bem desempenhados,
como o mestre Henry Ducard/Ra's Al Ghul de Liam Neeson,
ainda não se enquadraram como os artífices do batismo
de fogo no cinema de um personagem que mereça ser chamado
de a extensão do martelo dos fãs Miller-Moore. Mas,
no próximo filme cogitava-se morte, destruição e caos.
Cogitava-se o Coringa.
Expectativa e otimismo no ar.
Depois de três anos, Batman - O Cavaleiro das Trevas
(The Dark Knight, EUA, 2008). Embora já evidente,
enfatizo para esvair qualquer confusão que o original
de Frank Miller se chama The Dark Knight Returns
(tradução: O Retorno do Cavaleiro das Trevas). O título
da sua tradução brasileira que é homônimo ao deste filme.
Uma cena no começo marcou a comemoração de encerramento
de uma era e o começo de outra, tendo os olhos desordenados
do Coringa como mestres de cerimônia. Este Coringa surge
no meio de um bando de ladrões e para ganhar o respeito
deles anuncia que fará a mágica de sumir uma caneta
com a ajuda do cara que naquele momento estava começando
a atacá-lo. O fez. Digamos que o cara se arrependeu
amargamente antes de morrer. Naquele sumiço de caneta
foi finalmente perdida a inocência do emulado universo
"super" no cinema.
Em Gotham City, o milionário Bruce Wayne (Christian
Bale), morando de improviso num container high tech
feito pelo cientista Lucius Fox (Morgan Freeman) enquanto
reconstroem sua mansão, está impressionado com a determinação
do promotor público Harvey Dent (Aaron Eckhart), tido
como um herói da população, pois vem combatendo os criminosos
e os corruptos com mão pesada, acumulando muito inimigos.
Um deles, secretamente pode ser o próprio Batman, já
que sua noiva é a promotora pública Rachel Dawes (Maggie
Gyllenhaal), ela mesmo, a que mais se aproximou de ser
namorada do Morcego no filme anterior. O comissário
Gordon (Gary Oldman), como sempre, anda dividido entre
a luta contra bandidos e contra os corruptos da polícia,
inclusive seus superiores. Surge um vilão de não deixar
dúvidas, o Coringa (Heath Ledger), sujeito de olhar
maligno, cara maquiada de branco, sorriso eterno garantido
por cortes que rasgaram sua boca de canto a canto. Insano,
genial, não mede conseqüências, e adora disseminar o
caos. E toda vez que explode ou mata, é para tentar
mostrar ao Batman que a única coisa que os difere é
a discordância frente ao caos... o resto, igualzinho.
O vilão leva sua razão de ser à plenitude quando se
coloca na frente do Homem-Morcego, que vem a toda na
sua direção com uma possante moto, dizendo "Me atropele,
me atropele". Se Batman matá-lo desse jeito, prova
o vilão que estava certo. Todos os personagens citados,
e muitos outros, acabam vítimas das tramas do Coringa.
As escolhas de vida e morte são constantes e muitas
vezes com consequências dramáticas. Como o nascimento
de outro marginal, o Duas Caras, a partir de uma tragédia
com Harvey Dent e sua noiva, que colocou Batman em conflito
consigo mesmo.
Se for para citar a fonte da trinca sagrada a qual o
filme mais bebeu, essa é, sem dúvida, A Piada Mortal.
Confirma-se a relação por um ponto aparentemente destoante
entre ambos. Ao contrário da história de Alan Moore,
a origem do Coringa no filme é vaga, o personagem só
revela fragmentos. Este artifício foi declarado como
intencional pelo diretor Christopher Nolan, para que
o personagem pareça uma entidade absoluta, que não precise
de passado para ser o que é. Mas na própria revista
há um momento que demonstra exatamente o mesmo comportamento.
Próximo do fim, na discussão sobre origens, o Coringa
também diz. "Foi assim que aconteceu comigo, sabe...bem,
eu não tenho certeza absoluta...algumas vezes me lembro
de um jeito. Outras vezes de outro...Se eu vou ter um
passado, prefiro que seja de múltipla escolha! Ah, ah,
ah!" Outros paralelos. A situação-limite na excelente
cena dos dois barcos, onde o vilão quer provar sua tese
sobre o ser humano, remete à tortura do comissário Gordon.
Feitas as devidas adaptações, pode-se afirmar que o
desfecho também é equivalente. A posição em que o Coringa
fica sentado na cela, com o jogo das sombras em volta,
é a mesma posição em que seu sósia está no começo da
revista. E para finalizar, a própria participação do
Coringa é encerrada pela metáfora explícita do espelho,
imagens inversas da mesma coisa.
Mesmo que apresente alguns problemas de continuidade,
o trabalho do roteiro dos irmãos Christopher e Jonathan
Nolan, com David S. Goyer, é formidável, pelo simples
fato de conter uma história complexa onde vários personagens
são amarrados, e bem. Devem ter perdido os autores,
noites e noites de sono, buscando soluções verossímeis
para juntar os conflitos, reviravoltas e cenas de ação
a vínculos importantes como o triângulo amoroso, os
conflitos morais de cada personagem e as tramas de Coringa,
que deveriam ser sempre geniais e dementes.
Os quase cento e cinquenta minutos de duração parecem
dez.
Vilões para sacramentar o batismo de fogo. Uma grande
expectativa girou sob Heath Ledger, primeiro porque
ele parecia não ter nada a ver fisicamente com o pior
dos inimigos do Homem-Morcego, e, voluntário ou não,
disputaria o ingrato concurso de melhor Coringa com
Jack Nicholson. Sim, são contextos diferentes, mas o
histriônico filhote de Nicholson parecia uma barbada,
por ser interpretado por alguém tido como o Coringa
que desistiu da carreira no crime para ser ator. Contudo,
embora, aclamado na época pela batmania, o ator de O
Iluminado sofreu desconforto por algumas vozes na
multidão o acusarem de super-interpretação, que significava
um trabalho sem muito esforço, mais para o exibicionismo.
E o segundo, e trágico, motivo. Ledger morreu por excessiva
ingestão de comprimidos no inicio de 2008. Este foi
seu derradeiro trabalho. Como emitir um comentário de
desempenho não influenciado pelo pesar do falecimento
de um ator que vinha mostrando uma carreira consistente?
Ovação antes mesmo do filme estrear era uma possibilidade
muito forte, e deveria ser evitada. Pois Ledger, distanciados
os efeitos de sua morte, definitivamente coloca o Coringa
de Jack Nicholson para trás. A prova claríssima está
no que se vê em tela e no conhecimento de como ele chegou
a tal. Isolamento exemplar de um mês em um quarto de
hotel para desenvolver o personagem, evolução registrada
passo a passo em diário, e sempre pautada na busca criativa
pela mistura, segundo ele mesmo. Inspirou-se em Alex
de Laranja Mecânica, agregando muitos trejeitos
que podem ter sido tirados de Jack Sparrow, mais movimentos
de língua e olhos e alguns sons guturais para marcação
de demência. Ledger merece todos os elogios e prêmios
em sua obra terminal.
Mas ele no filme soma, e não o carrega nas costas. Ali
se encontra também um competentíssimo Aaron Eckhart,
como o promotor Harvey Dent. Os sempre muito bem Michael
Caine, como o mordomo Alfred, e Morgan Freeman como
Lucius Fox. Maggie Gyllenhaal, não tão bonita quanto
a insossa Kate Holmes, está muito mais competente e
por isso mais bonita. O antes camaleão Gary Oldman continua
com o seu comissário Gordon, sóbrio e íntegro como nos
quadrinhos, mas com ar de fragilidade, toque pessoal
do ator. E Christian Bale afirma-se no caminho de ser
aclamado com o melhor dos Batmans, pois além de atlético,
garantindo o lado heroico, consegue expressar todos
os dramas dos personagem. Vamos ver se ele mantém o
pique até, digamos, os cinquenta e cinco anos, aí quem
sabe, terá seu próprio batismo de fogo. Como assim?
Do trabalho de Christopher Nolan pode-se dizer o seguinte.
A série continuará. Pode ser que venham filmes inferiores.
Se sucesso comercial é sequência, sequência é mais para
enfraquecer do que fortalecer. Mas, lá no fim quando
quiserem finalmente desistir, e fazer um filme derradeiro,
com Christian Bale aos cinqüenta e cinco anos, Nolan
está definitivamente credenciado para nos dar a grande
transposição para o cinema de The Dark Knight Return.
Por ter sobrenome Blockbuster, talvez não coloque pimenta
nos ânimos dos intelectuais, mas, a meu ver, é um dos
grandes filmes em todos os gêneros da temporada. O mundo
de Batman, negro, sombrio, demente, um prato cheio de
metáforas da psicologia humana. A poesia das entranhas
da alma alistada no combate ao crime.
Por fim, o esclarecimento que se faz necessário. Em
nenhum momento eu quis fazer apologia à violência ou
ao descumprimento da lei. Apenas defendi fidelidade
a um cenário bruto onde um personagem de ficção renasceu
exercendo a vocação para a qual foi criado. Alguém que
se veste da noite e se espelha em morcegos, não pode
ter a ver com escoteiro, pode até salvá-los, mas só.
Alguém que não deve ser divertido, mas sim cultuado
pelo rastro de sombras que deixa na sua eterna tentativa
de se curar. Que combate criminosos sendo humano, mas
que pratica sua justiça sendo vilão também. Que embora
seja o mais aclamado de todos os super-heróis, está
longe de ser um. Chamam-no de "O Cavaleiro das
Trevas".
Perfeito.
BATMAN - O CAVALEIRO DAS TREVAS (The Dark
Knight, 2008)
Direção: Christopher Nolan.
Elenco: Christian Bale, Heath Ledger, Aaron Eckhart,
Michael Caine, Gary Oldman, Maggie Gyllenhaal, Morgan
Freeman, Eric Roberts, Monique Curnen, Chin Han.
COTAÇÃO: *****
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