BATMAN - A REVOLUÇÃO DAS TREVAS
Alexandre Mesquita
 
 

Loucura é um conceito amplo, mas se for para classificar, eu digo que existe a loucura tradicional, e existe a outra. Por exemplo, dois gêmeos fazendo a barba olhando um para o outro, invertendo o braço que segura a navalha, só para economizar no espelho, dá para classificar como um ato de loucura até divertido. Mas, se um dos gêmeos se corta e sangra abundantemente, e o outro, em vez de ajudar, se corta também, para continuar economizando no espelho até a morte, aí, meu filho... não há explicação na loucura.

Só nas trevas.

Em Os Intocáveis, Malone, personagem que deu o Oscar a Sean Connery, diz a Elliot Ness (Kevin Costner), "todo mundo sabe onde está Al Capone, o problema é encontrar alguém disposto a enfrentar as conseqüências de prendê-lo". Em Tropa de Elite, o Capitão Nascimento (Wagner Moura) é categórico: quem quiser cumprir o dever de policial honesto no Rio de Janeiro terá de ir para a guerra.

Batman já dizia isso muito tempo antes. Muito antes de o considerarem um super-herói.

Numa análise rasa, eu diria que nosso desejo íntimo de fazer justiça é punir quem merece rapidamente, ou seja, sem precisar do judiciário, com seu tecnicismo responsável em dar direito de defesa a todos, que o torna moroso e ainda podendo deixá-lo sem punir ninguém. Porém, se fôssemos nós a tomar as iniciativas de fazer acontecer frente ao mundo cruel, então o judiciário nos chamaria pejorativamente de justiceiros, e ser justiceiro não significa ser da justiça, mas o inverso.

Para não ser chamado de justiceiro, o super-herói deve ser o cara muito mais da conduta exemplar do que da identidade secreta ou dos superpoderes. Que combate o mal agindo sob fortes preceitos morais. E se conhecer o Código Penal da primeira à última linha, consagra o kit básico para casar com a filha de juízes e advogados e ter a legitimidade de receber o cumprimento do comissário de justiça ou até do presidente da nação. Fosse para citar um ícone, daria Superman na cabeça. Ninguém melhor do que ele personifica descer dos céus na velocidade da luz só para ajudar uma velhinha a atravessar a rua. Que amor.

Por isso os super-heróis se deram melhor do lado de dentro das revistas, dos desenhos animados, dos filmes e das séries de TV, nos seus mundos que emulam o nosso mundo cruel e injusto, blábláblá, e que nos tornam oniscientes como leitores ou espectadores. Podemos distinguir com absoluta certeza os bons e os maus. E a justiça pode ser feita rapidamente sob nossa benção. Os "súpers" cheios de moral e conduta ilibada são a extensão do nosso martelo.

E, melhor ainda, qualquer perigo, sobra para eles. Mas que graça tem? Correr perigo nos mundos emulados infanto-juvenis deles é das partes mais divertidas. O estranho ritmo natural das coisas por lá, garante o direito de, na eventualidade de serem capturados, que seus arqui-inimigos em vez de matá-los rapidamente, sejam obrigados a montar todo um esquema mirabolante de afogamento por goteiras do teto, além de ter de contar seus planos secretos de destruir o mundo enquanto os pingos caem. Os heróis capturados são os que melhor vencem no fim, pois arrancam a confissão dos réus, e ainda podem acusá-los de tentativa de assassinato ineficiente.

Ledo engano quem acha que candidato a super-herói precisa necessariamente de superpoderes. Coragem, inteligência, tenaz treinamento de combate marcial, rios de dinheiro para desenvolver tecnologias à frente do seu tempo, já disponibilizam a carteirinha.

Batman, o herói do morcego, humano, com capa e máscara negra, que carrega no cinto acessórios para o combate ao crime, criado por Bob Kane em 1939, teve dois momentos na televisão. Um bom, o desenho animado Liga da Justiça, onde apesar de certa importância, era coadjuvante de Superman, Mulher Maravilha e Lanterna Verde. Parecia estar ali mais para suporte técnico. Ou então de favor mesmo. E teve, aí sim, um grande momento, a nostálgica série dos anos sessenta, que demarcou as fronteiras de como pais e filhos deveriam pensar Batman. Começava na inesquecível música de abertura, o maior clássico melódico de três notas de todos os tempos, movido a bat-cafeína, que nos apressava para terminar o lanche e correr para a frente da TV a dar socos no ar. Para levar tranquilidade às ruas da imaginária Gotham City, o herói já tinha a ajuda do "garoto prodígio" Robin, do bat-móvel, da bat-caverna, do bat-cinto de utilidades, da Batgirl, da mesma bat-hora e bat-canal. Porém, convenhamos, o ato de combater o crime contra vilões de matiné como "aquele" Coringa (seu principal inimigo), o Pinguim, o Charada, o Senhor Gelo, a Mulher Gato, o Rei Tut, etc., deveria dar uma emoção igual à de desfilar numa escola de samba. Gotham mais parecia um desfile colorido do bloco do Soc! Pow! Biff! A cidade cheia de criminosos mais inofensiva da face da Terra. Na frente da TV, nas tardes, depois da hora do lanche, com o Batman, o negócio era botar máscara, capa, nocautear adversários imaginários e rir.

Contudo, este Homem-Morcego, voltado brilhantemente para o lado da aventura cômica, talvez tenha frustrado seu criador. Pois no meio da diversão ninguém se perguntava porque o herói vestia preto, com tons cinzas, personificando uma criatura noturna.

A série se encerrou em 1968, não sei se por coincidência, ou porque já se percebia um fenômeno progressivo de desinteresse do público pelos caras da cueca por cima da fantasia, que aumentou mais ainda até metade dos anos oitenta. Nesta época, a maioria dos super-heróis das grandes editoras de quadrinhos atingiram ou estavam indo para o fundo do poço em interesse, credibilidade e, consequentemente, poder comercial. Seus leitores nasciam enfadados, e no meio da troca de fraldas clamavam por mudanças. As aventuras soavam como o sempre do de sempre do de sempre. Para não cometer injustiça houve, sim, trabalhos que tentaram algo mais, mas não tiveram impacto para suplantar todo um modelo engessado. A grande maioria ainda ancorada no universo do vilão que conta os planos enquanto as goteiras fazem o resto. Batman, em especial, mesmo nos quadrinhos, parecia abandonado à sensação de que ia e vinha da sua bat-caverna apenas por estar preso a um circulo vicioso fadado a engolir a si mesmo, receita anos sessenta, e a dizer que está bom assim.

No entanto, um certo roteirista americano chamado Frank Miller escreveu e desenhou uma história que foi lançada em 1986 na forma de minissérie, em que um aposentado Batman, com cinquenta e tantos anos de idade, considerado morto, volta a atuar em Gotham City. Para alguns leitores havia algo de errado, e não era com a velhice, mas com seu modo de agir. Para outros havia algo de diferente, e para os amantes do subversivo havia algo de espetacular. O personagem de Miller agia guiado por fantasmas em sua cabeça, e da melhor qualidade, fantasmas que não podem ser curados, por isso gerando as forças motrizes mais perturbadoras e determinadas possíveis.

Ei-la, a explicação. Batman, então um Bruce Wayne com dez anos, teve os pais assassinados na sua frente em um assalto. Segurar a cabeça do pai e ver seu olhar sumir, levou ao menino Bruce a sensação de que caíra numa caverna escura, cheia de criaturas de olhos amarelos e sedentas de sangue, e que voavam em sua direção. As trevas entraram para dentro dele.

E de lá começaram a ditar regras.

Batman renasceu com o melhor título que seu personagem poderia ter. The Dark Knight Return, que no Brasil foi traduzido como O Cavaleiro das Trevas. Um título que iniciou uma revolução que abrangeu todo o universo "super". Iniciou a era dos heróis para adultos, que foi sacramentada logo em seguida, por Watchmen, do inglês Alan Moore e do desenhista americano Dave Gibbons, esta considerada a melhor minissérie de quadrinhos de todos os tempos.

Na sequência, mais duas obras primas sobre Batman brotaram de Miller e Alan Moore. A Piada Mortal do autor inglês e mais Brian Bolland e Batman: Ano Um de Frank Miller e David Mazzucchelli. (Alguns incluiriam Asilo Arkham, porém muito mais pelos desenhos/pinturas de Dave Mackean do que por alguma inovação que o roteiro de Grant Morrison, e portanto não será aqui abordado).

Vamos a um olhar resumido na chamada trinca sagrada.


BATMAN: O CAVALEIRO DAS TREVAS

O bilionário Bruce Wayne, com cinqüenta e cinco anos, há dez não aparece como Batman (para ressaltar a questão da idade, Miller faz uma brincadeira sutil, mostrando o mordomo Alfred com uma aparência mais jovem do que a do patrão). Mas isso representou um esforço tremendo. Ele é O Médico e o Monstro de Gotham City, duas personalidades, apenas um corpo. Em busca de sossego, passou os últimos dez anos tentando equilibrar as duas partes. Essa guerra interior é projetada no seu interesse pelo bandido Duas Caras, cujo nome verdadeiro é Harvey Dent, confinado na prisão para doente mentais perigosos chamada Asilo Arkham. Dent era um promotor público dedicado, mas que ao ter metade do seu rosto desfigurado num acidente transformou-se num marginal ambíguo: suas vítimas viviam ou morriam dependendo da moeda que ele jogava para cima (alguém lembrou do "oscarizado" Anton Chigurh, de Onde os Fracos Não Têm Vez ?). Wayne paga o tratamento para "consertar" o rosto de Dent, numa esperança que pudesse por simbiose freudiana consertar a si mesmo. Dent depois da cirurgia alega que está curado e quando todos acreditam, ele aproveita para fugir. E Batman também. Em boa hora... Gotham City está um caos, o comissário Gordon - seu maior alicerce moral - com setenta anos, se aposentará em breve.

Nas ruas, uma gangue de garotos, que se autodenomina Mutantes, mata inescrupulosamente, e com requintes de crueldade, difundido a barbárie e o medo. Paralelamente, a corrupção das instituições, a ameaça de uma guerra nuclear entre EUA e a Rússia, e o calor sufocante do verão, tornam Gotham City uma panela fechada sobre fogo alto. O Homem-Morcego retorna para ajeitar as coisas, mas o fará do seu jeito. Numa cena, é atacado por um mutante e pensa: "existem sete maneiras de defender este golpe, três salvariam o agressor, três o matariam e uma o aleijaria". Opta pela última. E para completar, o seu mais temível inimigo, o insano Coringa, também preso no Arkham , catatônico, adivinhem, há dez anos, volta a sorrir e escapa. Após provocar muitas mortes, inclusive de crianças, para atrair o eterno rival à sua armadilha, os dois se enfrentam. No duelo, Batman quebra o pescoço do Coringa, que mesmo assim morre rindo. E, para quem da velha guarda, das goteiras, tinha alguma dúvida, tipo não estar chocado, o final reserva o espetacular combate entre Batman e o bom moço Superman, ainda galã supremo das filhas de advogados e juízes (para dar um fim no incômodo bat-problema, ele é convocado pelo presidente americano em pessoa, e diz Sim, Senhor). O resultado lava a alma de quem não vai com a cara de garotos de recado.

Frank Miller traçou com ironia e humor negro um panorama moderno da sociedade americana. Mesmo que o cenário de uma guerra nuclear com os russos esteja desatualizado (embora não impossível), as relações de poder e a política, pautada muito em interesses pessoais e corporativos, permanecem as mesmas. Portanto Miller, nesta obra, foi muito além da reconhecida ressurreição do Homem-Morcego, agora um sombrio e violento justiceiro, e que, interessante, não carrega nenhum remorso do que faz. Há apenas o objetivo e a busca por atingi-lo, não importa como.



A PIADA MORTAL

Na cena inicial, Batman e Coringa estão frente a frente em uma mesa na cela do Asilo Arkham, onde o vilão está preso. Foi Batman quem pediu para conversar. O Coringa, rosto impassível, apenas joga cartas. O Homem-Morcego abre seu coração, quer convencer o rival a uma trégua, a desistir de viver uma vida cujo propósito é apenas espalhar o caos e gargalhadas. Pressente-se que se continuarem duelando do jeito que o fizeram tantos anos, acabarão por se matar. Batman fala, fala, e ao ficar incomodado com o silêncio do outro, descobre que abriu seu coração para uma fraude. O verdadeiro Coringa aproveitou sua visita para escapar e preparar mais um plano de vingança. Em flashback é mostrada sua origem. Um humorista desempregado, com a mulher grávida e neném prestes a nascer. Em desespero, aceita a proposta de dois ladrões para participar de um roubo numa fábrica de cartas de baralho. No dia anterior ao delito recebe a notícia, por policiais, que sua esposa e o neném morreram num acidente doméstico. O mundo lhe desabou naquele dia ruim. Tenta desistir do roubo, mas seus comparsas o ameaçam. Na cena do crime, os parceiros morrem e ele encontra o Batman. No desespero da fuga, cai sobre um tanque com lixo químico. Conseguiu escapar do Batman, mas ao sair num esgoto com o cabelo verde, pele branca e sorriso eterno podemos dizer que ele jamais escapou. De volta ao presente, o Coringa invade o apartamento de Bárbara Gordon, a Batgirl, e atira em sua barriga fraturando-lhe a espinha. Ela é filha do Comissário Gordon, que estava no apartamento e é pego de surpresa. O vilão rapta o Comissário, leva-o para um parque de diversões abandonado e o tortura de todas as formas, inclusive mostrando-lhe fotos da filha nua, ferida e violentada. Ao encontrar Bárbara desse jeito, Batman percebe que não havia mais solução. Com ódio, inicia uma corrida contra o tempo para acertar de forma definitiva as contas com o inimigo.

Ambos finalmente se encontram no parque. O Coringa, às gargalhadas, comenta sobre origens e motivações: Apenas um dia ruim separa um cidadão comum de pessoas como nós, apenas um dia ruim. Você deve ter tido um dia muito ruim para sair por aí vestido de rato voador. Esse discurso define o eixo Batman-Coringa, como duas imagens invertidas da mesma coisa. O Comissário Gordon, por outro lado, mesmo depois de mal-tratado, mesmo depois de ser exposto a tudo de ruim que fizeram com sua filha (o Coringa o fez para enlouquecer Gordon e comprovar sua tese), se mantém íntegro. Quando foi salvo pelo Batman, disse: "Prenda-o, mas pela lei, pela lei, ouviu? Para provar a ele que do nosso jeito funciona". O herói responde que sim, mas acho que foi mais para não contrariar um homem que foi torturado nu. A história termina com ambos frente a frente, depois de uma luta sob a chuva, em que Batman vence facilmente. Com o adversário batido, diz que ainda gostaria de ajudá-lo, retomando as intenções do começo. O Coringa pela primeira vez fica sério, e conta a piada dos dois loucos no hospício em que um louco faz uma proposta ao outro: fugir do hospício, caminhando sobre o facho de luz de uma lanterna. O outro recusa porque acha a idéia uma loucura, já pensou se a luz apaga no meio do caminho? Termina com os dois loucos morrendo de rir sobre a chuva, não os da piada, os da revista.

Alan Moore em grandiloquente forma. O autor inglês é um arquiteto como nenhum outro de histórias. Sabe onde que chegar e assim elabora cada detalhe do começo, do meio, e do fim como peça de um quebra-cabeças muito bem montado. Foi pela Piada Mortal que a conduta do personagem passou a ser questionada por ele mesmo. Batman se discute quando propõe paz ao principal antagonista.



BATMAN: ANO UM

Duas histórias paralelas contam começos. A iniciação do próprio Batman, sob a ótica de um jovem Bruce Wayne, recém-chegado ao lar depois de andanças pelo Oriente, se preparando física e mentalmente para a grande batalha que escolheu. E, paralelamente, é narrada a chegada do incorruptível tenente Gordon, a Gotham City, uma cidade corrupta (sempre), dos policiais aos políticos, onde os ladrões são os que mais reclamam. Gordon também travará grandes batalhas, as piores serão contra os próprios colegas de profissão. Não há nesta história a violência e o humor negro aos níveis de O Cavaleiro das Trevas, mas tudo é muito bem feito. Mostra os tropeços de Batman no início, sofrendo até para dominar uma gangue de delinquentes e apanhando de prostitutas. A relação amigável dele com Harvey Dent, até então um promotor determinado contra o crime. O surgimento da Mulher Gato. Até o lado humano do incorruptível Gordon é exposto: com a esposa grávida em casa, ele cai em adultério com uma colega de trabalho.

Frank Miller está mais tradicional, mas não menos fabuloso. Na minha opinião, este cara quando está a fim (o que não vem acontecendo nos últimos anos, vide aquele imensa porcaria chamada infelizmente de O Cavaleiro das Trevas 2, mas deixa pra lá), é disparado o melhor narrador dos quadrinhos. Com pouco diz muito. Por exemplo, em apenas um quadrinho ele conseguiu representar todo o inferno interior do Comissário Gordon, que aparece sentado em sua cama segurando uma arma, a esposa dorme ao lado. "Neste momento, eu devia estar falando com ela, pedindo que me perdoe por causa do bebê em sua barriga e pela maneira como estou pensando em Essen. Sim...eu devo chamá-la de Essen. Esquecer seu corpo, sua pele...seus lábios. Bárbara....eu devia falar com ela. Não podia estar pensando na Sargento...nem no Batman. Ele é um criminoso. Eu sou um policial. Mas, mas, estou numa cidade onde o prefeito e o comissário usam guardas como assassinos contratados. Batman salvou aquela velha. Ele salvou aquele gato. Até pagou o terno.....A peça metálica em minha mão nunca pesou tanto."



Agora a pergunta. Olhando os argumentos das três histórias acima, que alçaram o Homem-Morcego ao posto principal dos heróis dos quadrinhos adultos, dá para falar de fidelidade, ou respeito, por parte dos quatro filmes da franquia que começou com Tim Burton e terminou a sete palmos com Joel Schumacher?

Quando anunciado oficialmente o primeiro filme, a expectativa dos fãs era enorme para ver o Batman Miller-Moore nas telas. A boca entortou um pouco quando anunciaram o diretor Tim Burton. Bem, não era muito famoso na época, mas os produtores ressaltaram sua categoria para o clima gótico, e ainda largaram um papo que a direção de arte traria Gotham City no estilo Salvador Dali com tons escuros. Mas o caldo engrossou com a confirmação do franzino Michael Keaton no papel do protagonista. Reclame atenuado pela roupa de borracha musculosa que ele usaria. Por outro lado, recepção acalorada para a notícia que o Coringa sairia na conta de Jack Nicholson. Batman - O Filme teve uma grande bilheteria, provocando uma batmania de ocasião. Porém, os fãs da trinca sagrada ficaram desapontados. Foi-lhes arremessado nos olhos um Batman para vender em loja de brinquedos, que tirava o pé na hora de fazer valer seu direito de violar direitos. Quase uma sacanagem.

Como todos sabemos, sucesso comercial é sequência. Batman - O Retorno, ainda trazia Tim Burton na direção, e com mais liberdade. Usando seu reconhecido talento, trabalhou bem a presença de Michelle Pfeiffer, como a Mulher Gato, e Danny de Vito como o Pinguim, para que todos esquecessem que era Keaton quem estava sob a roupa do morcego. Filme melhor do que o antecessor. Mas melhor no sentido de cinema. Nenhuma evolução em direção ao cara das Trevas. Os dois filmes subsequentes da franquia, Batman Eternamente e Batman e Robin vão para a classe dos sem-comentários (inclusive em termos de bilheteria). Ou dos muitos palavrões ao seu diretor, Joel Schumacher.

Batman no cinema parecia fadado ao sinal da cruz. Porém novamente veio a ideia. Estendendo a bandeira branca, os idealizadores da nova empreitada trataram rapidamente de esclarecer pontos. O título seria algo com Begins (Início). Juraram sobre entes queridos que nunca ouviram falar de um tal J. Schumacher. O comando artístico seria de Christopher Nolan, do cult Amnésia, e um protagonista de não muito renome, mas que fez Psicopata Americano (baita carta de recomendação!), chamado Christian Bale. Os desconfiados fãs não sorriram, mas pelo menos largaram os paus e as pedras. Batman Begins não chegou a tirar o fôlego, mas trouxe realmente bons ares de renovação. O personagem teve a origem mostrada e o lado psicológico construído. Um terço dele é totalmente dedicado à sua busca de problemas pelo mundo para entender-se com seus conflitos, até encontrar o treinamento que precisava numa sociedade secreta, A Liga das Sombras. Está longe o filme de ser uma adaptação, mas com certeza deslocou a tradução de Begins, para muito próximo de "Ano Um". Várias situações, como a fuga de Batman do Arkham, utilizando um sonar para chamar morcegos, bem como a referência à peregrinação em busca da auto-descoberta de Wayne e sua volta, e a forma como foi escolhida a simbologia do morcego, vieram da história de Miller. Mas o filme também apresenta seu lado independente com boas idéias, como a destruição da mansãoWayne e a Liga que treina Bruce. Entretanto, mesmo com todas as virtudes, ele não se mostrou concretamente como o verdadeiro filme Batman, O Esperado. Um epílogo mais para os filmes da franquia anterior, e vilões, que embora bem desempenhados, como o mestre Henry Ducard/Ra's Al Ghul de Liam Neeson, ainda não se enquadraram como os artífices do batismo de fogo no cinema de um personagem que mereça ser chamado de a extensão do martelo dos fãs Miller-Moore. Mas, no próximo filme cogitava-se morte, destruição e caos. Cogitava-se o Coringa.

Expectativa e otimismo no ar.

Depois de três anos, Batman - O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, EUA, 2008). Embora já evidente, enfatizo para esvair qualquer confusão que o original de Frank Miller se chama The Dark Knight Returns (tradução: O Retorno do Cavaleiro das Trevas). O título da sua tradução brasileira que é homônimo ao deste filme.

Uma cena no começo marcou a comemoração de encerramento de uma era e o começo de outra, tendo os olhos desordenados do Coringa como mestres de cerimônia. Este Coringa surge no meio de um bando de ladrões e para ganhar o respeito deles anuncia que fará a mágica de sumir uma caneta com a ajuda do cara que naquele momento estava começando a atacá-lo. O fez. Digamos que o cara se arrependeu amargamente antes de morrer. Naquele sumiço de caneta foi finalmente perdida a inocência do emulado universo "super" no cinema.

Em Gotham City, o milionário Bruce Wayne (Christian Bale), morando de improviso num container high tech feito pelo cientista Lucius Fox (Morgan Freeman) enquanto reconstroem sua mansão, está impressionado com a determinação do promotor público Harvey Dent (Aaron Eckhart), tido como um herói da população, pois vem combatendo os criminosos e os corruptos com mão pesada, acumulando muito inimigos. Um deles, secretamente pode ser o próprio Batman, já que sua noiva é a promotora pública Rachel Dawes (Maggie Gyllenhaal), ela mesmo, a que mais se aproximou de ser namorada do Morcego no filme anterior. O comissário Gordon (Gary Oldman), como sempre, anda dividido entre a luta contra bandidos e contra os corruptos da polícia, inclusive seus superiores. Surge um vilão de não deixar dúvidas, o Coringa (Heath Ledger), sujeito de olhar maligno, cara maquiada de branco, sorriso eterno garantido por cortes que rasgaram sua boca de canto a canto. Insano, genial, não mede conseqüências, e adora disseminar o caos. E toda vez que explode ou mata, é para tentar mostrar ao Batman que a única coisa que os difere é a discordância frente ao caos... o resto, igualzinho. O vilão leva sua razão de ser à plenitude quando se coloca na frente do Homem-Morcego, que vem a toda na sua direção com uma possante moto, dizendo "Me atropele, me atropele". Se Batman matá-lo desse jeito, prova o vilão que estava certo. Todos os personagens citados, e muitos outros, acabam vítimas das tramas do Coringa. As escolhas de vida e morte são constantes e muitas vezes com consequências dramáticas. Como o nascimento de outro marginal, o Duas Caras, a partir de uma tragédia com Harvey Dent e sua noiva, que colocou Batman em conflito consigo mesmo.

Se for para citar a fonte da trinca sagrada a qual o filme mais bebeu, essa é, sem dúvida, A Piada Mortal. Confirma-se a relação por um ponto aparentemente destoante entre ambos. Ao contrário da história de Alan Moore, a origem do Coringa no filme é vaga, o personagem só revela fragmentos. Este artifício foi declarado como intencional pelo diretor Christopher Nolan, para que o personagem pareça uma entidade absoluta, que não precise de passado para ser o que é. Mas na própria revista há um momento que demonstra exatamente o mesmo comportamento. Próximo do fim, na discussão sobre origens, o Coringa também diz. "Foi assim que aconteceu comigo, sabe...bem, eu não tenho certeza absoluta...algumas vezes me lembro de um jeito. Outras vezes de outro...Se eu vou ter um passado, prefiro que seja de múltipla escolha! Ah, ah, ah!" Outros paralelos. A situação-limite na excelente cena dos dois barcos, onde o vilão quer provar sua tese sobre o ser humano, remete à tortura do comissário Gordon. Feitas as devidas adaptações, pode-se afirmar que o desfecho também é equivalente. A posição em que o Coringa fica sentado na cela, com o jogo das sombras em volta, é a mesma posição em que seu sósia está no começo da revista. E para finalizar, a própria participação do Coringa é encerrada pela metáfora explícita do espelho, imagens inversas da mesma coisa.

Mesmo que apresente alguns problemas de continuidade, o trabalho do roteiro dos irmãos Christopher e Jonathan Nolan, com David S. Goyer, é formidável, pelo simples fato de conter uma história complexa onde vários personagens são amarrados, e bem. Devem ter perdido os autores, noites e noites de sono, buscando soluções verossímeis para juntar os conflitos, reviravoltas e cenas de ação a vínculos importantes como o triângulo amoroso, os conflitos morais de cada personagem e as tramas de Coringa, que deveriam ser sempre geniais e dementes.

Os quase cento e cinquenta minutos de duração parecem dez.

Vilões para sacramentar o batismo de fogo. Uma grande expectativa girou sob Heath Ledger, primeiro porque ele parecia não ter nada a ver fisicamente com o pior dos inimigos do Homem-Morcego, e, voluntário ou não, disputaria o ingrato concurso de melhor Coringa com Jack Nicholson. Sim, são contextos diferentes, mas o histriônico filhote de Nicholson parecia uma barbada, por ser interpretado por alguém tido como o Coringa que desistiu da carreira no crime para ser ator. Contudo, embora, aclamado na época pela batmania, o ator de O Iluminado sofreu desconforto por algumas vozes na multidão o acusarem de super-interpretação, que significava um trabalho sem muito esforço, mais para o exibicionismo. E o segundo, e trágico, motivo. Ledger morreu por excessiva ingestão de comprimidos no inicio de 2008. Este foi seu derradeiro trabalho. Como emitir um comentário de desempenho não influenciado pelo pesar do falecimento de um ator que vinha mostrando uma carreira consistente? Ovação antes mesmo do filme estrear era uma possibilidade muito forte, e deveria ser evitada. Pois Ledger, distanciados os efeitos de sua morte, definitivamente coloca o Coringa de Jack Nicholson para trás. A prova claríssima está no que se vê em tela e no conhecimento de como ele chegou a tal. Isolamento exemplar de um mês em um quarto de hotel para desenvolver o personagem, evolução registrada passo a passo em diário, e sempre pautada na busca criativa pela mistura, segundo ele mesmo. Inspirou-se em Alex de Laranja Mecânica, agregando muitos trejeitos que podem ter sido tirados de Jack Sparrow, mais movimentos de língua e olhos e alguns sons guturais para marcação de demência. Ledger merece todos os elogios e prêmios em sua obra terminal.

Mas ele no filme soma, e não o carrega nas costas. Ali se encontra também um competentíssimo Aaron Eckhart, como o promotor Harvey Dent. Os sempre muito bem Michael Caine, como o mordomo Alfred, e Morgan Freeman como Lucius Fox. Maggie Gyllenhaal, não tão bonita quanto a insossa Kate Holmes, está muito mais competente e por isso mais bonita. O antes camaleão Gary Oldman continua com o seu comissário Gordon, sóbrio e íntegro como nos quadrinhos, mas com ar de fragilidade, toque pessoal do ator. E Christian Bale afirma-se no caminho de ser aclamado com o melhor dos Batmans, pois além de atlético, garantindo o lado heroico, consegue expressar todos os dramas dos personagem. Vamos ver se ele mantém o pique até, digamos, os cinquenta e cinco anos, aí quem sabe, terá seu próprio batismo de fogo. Como assim?

Do trabalho de Christopher Nolan pode-se dizer o seguinte. A série continuará. Pode ser que venham filmes inferiores. Se sucesso comercial é sequência, sequência é mais para enfraquecer do que fortalecer. Mas, lá no fim quando quiserem finalmente desistir, e fazer um filme derradeiro, com Christian Bale aos cinqüenta e cinco anos, Nolan está definitivamente credenciado para nos dar a grande transposição para o cinema de The Dark Knight Return.

Por ter sobrenome Blockbuster, talvez não coloque pimenta nos ânimos dos intelectuais, mas, a meu ver, é um dos grandes filmes em todos os gêneros da temporada. O mundo de Batman, negro, sombrio, demente, um prato cheio de metáforas da psicologia humana. A poesia das entranhas da alma alistada no combate ao crime.

Por fim, o esclarecimento que se faz necessário. Em nenhum momento eu quis fazer apologia à violência ou ao descumprimento da lei. Apenas defendi fidelidade a um cenário bruto onde um personagem de ficção renasceu exercendo a vocação para a qual foi criado. Alguém que se veste da noite e se espelha em morcegos, não pode ter a ver com escoteiro, pode até salvá-los, mas só. Alguém que não deve ser divertido, mas sim cultuado pelo rastro de sombras que deixa na sua eterna tentativa de se curar. Que combate criminosos sendo humano, mas que pratica sua justiça sendo vilão também. Que embora seja o mais aclamado de todos os super-heróis, está longe de ser um. Chamam-no de "O Cavaleiro das Trevas".

Perfeito.



BATMAN - O CAVALEIRO DAS TREVAS (The Dark Knight, 2008)

Direção: Christopher Nolan.

Elenco: Christian Bale, Heath Ledger, Aaron Eckhart, Michael Caine, Gary Oldman, Maggie Gyllenhaal, Morgan Freeman, Eric Roberts, Monique Curnen, Chin Han.

COTAÇÃO: *****