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O formato adotado por Michael Haneke em seu Código
Desconhecido (2000) remete, em alguns momentos,
ao surrealismo. Isso porque o revolucionário cineasta
austríaco optou pela ausência total de lógica ao trabalhar
as várias histórias que sustentam o filme: as seqüências
foram fragmentadas e misturadas. Cabe ao espectador
organizá-las e compreender a cronologia dos fatos. Daí
surge o subtítulo Relato Inacabado de Várias Jornadas.
Em uma das primeiras cenas, que se passa em uma movimentada
rua de Paris, as histórias dos personagens se cruzam.
Anne (Juliette Binoche), uma atriz talentosa, encontra
o seu cunhado Jean (Alexandre Hamidi), um adolescente
egoísta e agressivo que não se dá bem com o pai fazendeiro,
com quem vive. Após contar a ela os seus planos de abandoná-lo,
Jean ofende a mendiga Maria (Luminita Gheorghiu), que
na verdade é uma imigrante ilegal deportada da Romênia.
Indignado com a atitude, entra em ação um jovem negro,
professor de música para crianças surdas, que lida a
todo tempo com o preconceito. Ele exige que Jean peça
desculpas à Maria, mas acaba sendo levado pelos policiais.
A crítica à violência, ao racismo e à xenofobia é aqui
muito mais evidente do que em outros títulos de Haneke
que tratam dos temas, como Caché (2005) e O
Tempo dos Lobos (2003), nos quais isto aparece nas
entrelinhas. A ironia, no entanto, surge ainda de leve
em um determinado momento nas palavras de Georges (Thierry
Neuvic), namorado de Anne e irmão de Jean. Em um restaurante,
o fotógrafo de guerra revela a casais amigos que prefere
estar no meio das batalhas do que na rotina da capital.
Durante todo o filme, o diretor fez uso de várias técnicas
interessantes que também aparecem em outros de seus
trabalhos. Uma delas é a do "filme dentro do filme"
nas cenas em que Anne está atuando - mais tarde, se
debruçaria sobre ela em Caché. Há ainda longos
e bem-feitos planos-seqüência (como nesta cena da rua)
e até seqüências de fotografias apresentadas como slides.
Nessas circunstâncias, nota-se que a subversão, característica
tão marcante nos filmes de Haneke, aparece aqui apenas
na forma e não no conteúdo, diferentemente de outras
obras. E mesmo no que toca o formato, é preciso reconhecer
que a fragmentação e mistura das histórias tornam o
filme exageradamente abstrato em alguns momentos, dificultando
o entendimento.
Ainda assim, trata-se de um filme forte, com importantes
discussões e marcado por boas interpretações, especialmente
da bela Juliette Binoche, que apresenta uma de suas
melhores performances.
CÓDIGO DESCONHECIDO: RELATO INCOMPLETO DE VÁRIAS
JORNADAS (Code Inconnu: Récit Incomplet de Divers
Voyages, França, 2000)
Direção: Michael Haneke.
Elenco: Juliette Binoche, Thierry Neuvic, Alexandre
Hamidi, Luminita Gheorghiu.
Cotação: ****
Este artigo é parte integrante da série
de textos "Sextas-Feiras
com Haneke". Confira, pois a cada sexta há
a publicação de um artigo inédito.
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