TIE-BREAK
Alexandre Mesquita
 
 
Situação típica de um esporte que gosto muito, o tênis. Numa partida muito equilibrada, se nenhum dos dois jogadores consegue vantagem sobre o outro em games, vai-se para o tie-break. É como uma decisão por pênaltis. Acertou ganha o ponto, errou perde. Vence o tie-break quem fizer sete pontos primeiro e abrir uma vantagem de dois pontos, tipo 7x5, 8x6, 9x7. Pois imagine o cara que sai tomando seis a zero. Basta um erro e tchau. Quando se espera morte rápida ele faz o inacreditável, empata em seis a seis. Seis a seis, cara... milagre! E quando tudo está psicologicamente a favor, ele faz duas rápidas bobagens e perde por oito a seis. Até daria um filme.

Ou, sob certo ponto de vista, já deu.

As Crônicas de Nárnia - Príncipe Caspian (The Chronicles of Narnia: Prince Caspian, EUA, 2008). Os irmãos Pedro (William Moseley), Lucia (Georgie Henley), Susana (Anna Popplewell) e Edmundo (Skandar Keynes) Pevensie, que em As Crônicas de Nárnia - O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupas, encontraram num guarda-roupas uma entrada para um reino encantado (tem gente de sorte mesmo, eu perdi minhas meias em um fazem dez anos) chamado Nárnia, vivem agora em Londres como típicas criança e adolescentes, lembrando que eles envelheceram enquanto estavam em Nárnia na primeira vez e ao voltar ao nosso mundo retomaram as respectivas idades. Pela experiência que tiveram, dá para dizer que levam uma vida chata e sonham com o ressurgimento de um portal mágico para levá-los a uma nova visita ao lugar onde fizeram história. E o portal surge numa estação de metrô. E como realmente o tempo não é uma das coisas mais respeitadas por lá, os irmãos encontram seu amado lugar 1300 anos depois de tê-lo deixado. Só que muito diferente, em ruínas, sombrio. Nárnia está sob o domínio dos cruéis Telmarines, entenda-se: humanos. O príncipe Caspian (Ben Barnes), sobrinho do Rei Miraz (o ótimo ator italiano Sergio Castellitto) e herdeiro direto ao trono, parece uma exceção de bondade. Muitos apostam que ele trará paz ao reino quando assumir o poder. Mas, com o nascimento do seu primo, percebe que seu futuro mudou, pois o tio vai querer vê-lo morto para que o filho seja o futuro príncipe. Foge e busca ajuda com antigos e fantásticos narnienses, que se mantém refugiados nas florestas. Caspian consegue aglutinar anões, centauros, minotauros, e os temíveis assassinos porquinhos-da-índia, pardais e coelhos. Personagens que estavam em lados opostos no primeiro filme se unem contra o inimigo Telmarine, muito mais numeroso. Chocados com o que encontraram pelo caminho, os irmãos também se aliam a Caspian. Porém, as boas intenções dessa trupe parecem não ter muita chance, a não ser que volte uma certa entidade que sumiu misteriosamente no mesmo tempo que as crianças.

J. R. R. Tolkien e C. S. Lewis foram contemporâneos. O primeiro escreveu O Senhor dos Anéis, e o segundo, os sete volumes das Crônicas de Nárnia. A trilogia do anel veio antes para o cinema e fez sucesso, balizou-se como referencial de comparação para qualquer filme que flerte com mundos mágicos. Pois então As Crônicas de Nárnia entraram na briga em desvantagem por virem depois, e por seus realizadores, encabeçados pelo diretor Andrew Adamson, não estarem nenhum um pouco preocupados com isso.

Zero a zero.

Na primeira metade o filme vai se desenrolando superficialmente, óbvio e rápido demais, típico de filme caça-níquel; não dá nenhuma esperança de que isso vá mudar e respeitar sua obra literária homônima. Seis a zero contra. Até que uma batalha tida como vitória certa para os mocinhos é perdida. Personagens bacanas são sacrificados e ficamos estarrecidos diante do real poder do inimigo. Uma grande e derradeira batalha entre poucos heróis e muitos vilões se desenha e só a interferência do lendário e sumido Leão Aslam (voz de Liam Neeson) daria alguma esperança. Boa tensão, incrível mesmo como as coisas mudaram. Seis a seis. Então vem a batalha. Derrota por oito a seis, fim. As Crônicas de Nárnia - O Príncipe Caspian desaparece da tela recebendo vaias e provocativos gritos de filial do anel.

Mas, ressalva, o filme também não se trata do diabo em pessoa. O ator que faz Caspian não é dos melhores, mas convence. Os meninos são os mesmos, só estão um pouco mais velhos. Algumas situações mais humanas, passíveis de identificação, como a briga de vaidades entre Caspian e Peter, fazem bem. O vilão Rei Miraz, de Castellito, embora não trilhe nenhum caminho inexplorado na arte de ser vilão, desperta na gente o saudável desejo de vê-lo morto.

O problema é mesmo a comparação. O resultado soa como um derivado, e barato (embora o orçamento de duzentos milhões de dólares), da grife de Tolkien. Copiando mal as virtudes e muito bem os defeitos. O anticlímax da batalha final é muito parecido com o anticlímax de O Retorno do Rei, quando uma grande batalha foi resolvida num piscar de olhos por um exército fantasma que era para ser assustador, só era. Aqui, trocam-se fantasmas por raízes de árvores. Além disso, ao longo do filme muitas outras situações-espelhos, como a ajuda do rio para vencer a cavalaria inimiga, realçam a sensação de derrota na comparação.

Acho que essa história merece uma nova. Acho que esse filme merece um novo. Acho que esse duelo merece mais. Ou no próximo não haverá nem tie-break.



AS CRÔNICAS DE NÁRNIA: PRÍNCIPE CASPIAN (The Chronicles of Narnia: Prince Caspian, EUA, 2008)

Direção: Andrew Adamson.

Elenco: Ben Barnes, William Moseley, Georgie Henley, Anna Popplewell, Skandar Keynes, Sergio Castellito.

Cotação: **