O DIA EM QUE A CRIATIVIDADE PAROU
Adriano de Oliveira
 
 

Não é mais novidade para ninguém: o cinemão de hoje em dia está carente de ideias. Se já as poucas inéditas que aparecem nem sempre satisfazem ao público e à crítica, o que dizer quando a palavra de ordem em Hollywood é reciclar? Com uma variante sua, adaptar. Ou temos uma onda de remakes de títulos ou temos uma enxurrada de adaptações de HQ's, livros, seriados de TV das antigas e games.

Nesta maré chega a nova versão de "O Dia em que a Terra Parou" ("The Day the Earth Stood Still", EUA, 2008), que de novo traz muito pouco. É um projeto pessoal e antigo do diretor Scott Derrickson. Considerando-se isto e o fato de que o realizador surpreendeu positivamente com "O Exorcismo de Emily Rose" (2005) - a cena do esconjuro no estábulo se tornou antológica por sua força de impacto audiovisual -, poderia se esperar muito de sua obra mais atual. Mas à medida em que o filme avança, a decepção só aumenta, principalmente quando comparado com o original homônimo de 1951.

As mudanças que a recente versão adota em relação à sua antecessora trazem pouco de contribuição e alimentam uma sensação de que a refilmagem foi desnecessária. Logicamente que, separados por 57 anos, os efeitos visuais da mais jovem são superiores, porém soam muitas vezes artificiais, como o digitalmente gerado robô Gort e as paisagens que cercam as esferas alienígenas menores. O filme original se achava bom nos aspectos visual e de realização para a sua época, comparativamente falando, embora cometesse muitos erros de gravação, o mais evidente deles quando Gort carrega Helen Benson (Patricia Neal) em seus braços e nota-se um feixe de grossos fios segurando a atriz.

A mensagem de ambos é a mesma: se a raça humana não parar de destruir o planeta em que vive, uma associação de alienígenas dizimará a humanidade para que a Terra sobreviva. Vejamos então que o ideário do filme de 51 não foi compreendido, pois nos dias atuais, nunca o homem foi tão predador de seu habitat.

Na obra cinquentista, havia mais sutileza e humanismo na abordagem do tema. A releitura moderna se permite a poucos momentos de lucidez e sentimentalismo, preferindo optar por uma ação muitas vezes vazia. Sob a batuta do gênio hoje esquecido Robert Wise (1914-2005), diretor que caminhou com brilho por diversos gêneros, a mensagem da película primordial guarda uma maior concisão e uma ingênua leveza que não concordam com o clamor apocalíptico mal-conduzido por Derrickson. Tanto o roteiro de David Scarpa como as soluções visuais adotadas pelo diretor não surpreendem, adquirindo por vezes efeito de déjà-vu, como na sequência da reunião que secretamente aborda a iminente colisão de um objeto celeste com a Terra: "Armageddon" (1998) fez escola. Há de se valorizar, contudo, a excelente edição de som do filme em questão.

A imutabilidade expressiva de Keanu Reeves até ajuda na composição de seu personagem, o visitante extraterrestre Klaatu. No primeiro, Michael Rennie no mesmo papel parecia humanizado demais (Rennie foi um ator britânico que começou no cinema, já um pouco tarde, e acabou na televisão; com uma altura de 1,93m, era impossível passar despercebido onde figurasse). Kathy Bates, como a secretária de Defesa dos EUA, representa com propriedade a arrogância da superpotência que se considera dona do mundo. O problema é aguentar a chatice do garoto interpretado por Jaden Smith. E Jennifer Connelly...está bonita e se revela boa profissional como atriz - é o que lhe sobrou nesse bolo.

Quando as luzes da sala se acendem ao final da projeção, até o discurso pseudo-ultrapassado e moralizante do desfecho do filme de Wise faz falta. Esse é o tamanho de mais um "semi-desastre", algo que já se tornou "natural" no cinema hollywoodiano de hoje.



O DIA EM QUE A TERRA PAROU (The Day the Earth Stood Still, EUA, 2008)

Direção: Scott Derrickson.

Elenco: Keanu Reeves, Jennifer Connelly, Jaden Smith, Kathy Bates, Jon Hamm, James Hong, John Cleese, Robert Knepper.

Cotação: **