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Não é mais novidade para ninguém: o cinemão de hoje
em dia está carente de ideias. Se já as poucas inéditas
que aparecem nem sempre satisfazem ao público e à crítica,
o que dizer quando a palavra de ordem em Hollywood é
reciclar? Com uma variante sua, adaptar.
Ou temos uma onda de remakes de títulos ou temos
uma enxurrada de adaptações de HQ's, livros, seriados
de TV das antigas e games.
Nesta maré chega a nova versão de "O Dia em que a
Terra Parou" ("The Day the Earth Stood Still",
EUA, 2008), que de novo traz muito pouco. É um projeto
pessoal e antigo do diretor Scott Derrickson. Considerando-se
isto e o fato de que o realizador surpreendeu positivamente
com "O Exorcismo de Emily Rose" (2005) - a cena
do esconjuro no estábulo se tornou antológica por sua
força de impacto audiovisual -, poderia se esperar muito
de sua obra mais atual. Mas à medida em que o filme
avança, a decepção só aumenta, principalmente quando
comparado com o original homônimo de 1951.
As mudanças que a recente versão adota em relação à
sua antecessora trazem pouco de contribuição e alimentam
uma sensação de que a refilmagem foi desnecessária.
Logicamente que, separados por 57 anos, os efeitos visuais
da mais jovem são superiores, porém soam muitas vezes
artificiais, como o digitalmente gerado robô Gort e
as paisagens que cercam as esferas alienígenas menores.
O filme original se achava bom nos aspectos visual e
de realização para a sua época, comparativamente falando,
embora cometesse muitos erros de gravação, o mais evidente
deles quando Gort carrega Helen Benson (Patricia Neal)
em seus braços e nota-se um feixe de grossos fios segurando
a atriz.
A mensagem de ambos é a mesma: se a raça humana não
parar de destruir o planeta em que vive, uma associação
de alienígenas dizimará a humanidade para que a Terra
sobreviva. Vejamos então que o ideário do filme de 51
não foi compreendido, pois nos dias atuais, nunca o
homem foi tão predador de seu habitat.
Na obra cinquentista, havia mais sutileza e humanismo
na abordagem do tema. A releitura moderna se permite
a poucos momentos de lucidez e sentimentalismo, preferindo
optar por uma ação muitas vezes vazia. Sob a batuta
do gênio hoje esquecido Robert Wise (1914-2005), diretor
que caminhou com brilho por diversos gêneros, a mensagem
da película primordial guarda uma maior concisão e uma
ingênua leveza que não concordam com o clamor apocalíptico
mal-conduzido por Derrickson. Tanto o roteiro de David
Scarpa como as soluções visuais adotadas pelo diretor
não surpreendem, adquirindo por vezes efeito de déjà-vu,
como na sequência da reunião que secretamente aborda
a iminente colisão de um objeto celeste com a Terra:
"Armageddon" (1998) fez escola. Há de se valorizar,
contudo, a excelente edição de som do filme em questão.
A imutabilidade expressiva de Keanu Reeves até ajuda
na composição de seu personagem, o visitante extraterrestre
Klaatu. No primeiro, Michael Rennie no mesmo papel parecia
humanizado demais (Rennie foi um ator britânico que
começou no cinema, já um pouco tarde, e acabou na televisão;
com uma altura de 1,93m, era impossível passar despercebido
onde figurasse). Kathy Bates, como a secretária de Defesa
dos EUA, representa com propriedade a arrogância da
superpotência que se considera dona do mundo. O problema
é aguentar a chatice do garoto interpretado por Jaden
Smith. E Jennifer Connelly...está bonita e se revela
boa profissional como atriz - é o que lhe sobrou nesse
bolo.
Quando as luzes da sala se acendem ao final da projeção,
até o discurso pseudo-ultrapassado e moralizante do
desfecho do filme de Wise faz falta. Esse é o tamanho
de mais um "semi-desastre", algo que já se tornou "natural"
no cinema hollywoodiano de hoje.
O DIA EM QUE A TERRA PAROU (The Day the Earth
Stood Still, EUA, 2008)
Direção: Scott Derrickson.
Elenco: Keanu Reeves, Jennifer Connelly, Jaden
Smith, Kathy Bates, Jon Hamm, James Hong, John Cleese,
Robert Knepper.
Cotação: **
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