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De Niro e Al Pacino. Al Pacino e De Niro. Duas estrelas
do cinema em um mesmo filme, mesmo que não estejam em
grande fase, catalisam multidões a ir às salas de exibição.
O que, por si só, não significa garantia de um bom programa.
Essa parceria simbolizou muito mais no passado. No zênite
de suas carreiras, os astros dividiram créditos no elenco
de duas obras bastante representativas. No espetacular
"O Poderoso Chefão II", foram pai e filho, porém
separados temporalmente na trama, não repartiam passagens
cênicas em comum. Já em "Fogo Contra Fogo", no
enredo eram antípodas - um policial em crise familiar
(Pacino) versus um criminoso de alto gabarito (De Niro)
- o que resultou não apenas em um embate memorável,
ainda que regado a raras cenas entre si, mas também
consolidou o filme, pela força de suas atuações, ao
status de uma obra referencial do gênero policial
nos últimos tempos.
Hoje, o panorama é outro. Sem apresentar brilhantes
atuações há longa data, essas estrelas vivem do nome,
da marca, do passado glorioso, das legiões de admiradores
garimpadas ao longo das décadas. Se Al Pacino ao menos
envelheceu com certa respeitabilidade e se mantém baseado
num estilo próprio (que fascina uns e desagrada outros),
De Niro há muito patina, fazendo caricaturas de si mesmo
ou com uma nuvem de aborrecimento sobre a cabeça. Não
parece boa hora de se fazer "As Duas Faces da Lei"
("Righteous Kill", 2008), pois um reencontro
assim, feito em tempos menos iluminados a ambos, poderia
ser temerário. Coloque-se nesse caldeirão um ingrediente
duvidoso - a direção de Jon Avnet ao longo dos anos
representa uma montanha-russa de picos ("Tomates
Verdes Fritos") e vales ("88 Minutos") -
e outro indigesto (o roteiro pseudo-esperto de Russell
Gerwitz, que repete os recursos do seu supervalorizado
"O Plano Perfeito": narração em off e
final "ladino", artimanhas para suprir a falta
do "ter algo mais a dizer"), o que se tem na mesa é
um resultado pouco palatável.
O diretor impõe uma cara de filme "made for TV"
a uma película dispendiosa, cujo roteiro dá sono ao
preferir enrolar o espectador com o malefício da dúvida.
Aliás, o desenlace de "As Duas Faces da Lei"
causa dois resultados distintos: útil para psicólogos
trabalharem sobre ele (pois somente isso poderia dar
justificativa ao que é apresentado, em termos de análise
do comportamento humano), decepção e déjà vu para
a platéia em geral. O diálogo final entre os protagonistas
é a cereja estragada do bolo azedo servido por maus
confeiteiros.
Indeciso entre empregar o velho estilo dos filmes do
Rat Pack - a figuração vem em primeiro lugar,
a atuação importa menos -, o que permitiria satisfazer
aos fãs ansiosos por reverem os trejeitos de seus ídolos,
e empreender uma contenção de maneirismos no modo de
dirigir seus atores, o efeito intermediário obtido por
Avnet desagrada gregos e baianos. De Niro segura suas
caretas em grande parte do tempo, mas liga um piloto
automático irritante; Pacino se solta um pouco mais,
porém não o suficiente: moderado em seu jeito usualmente
extravagante e cheio de arroubos, ele se torna frustrante
aos olhos do seu público.
Do mesmo modo capenga com que lida com os principais,
a direção demonstra falta de interesse
com os atores secundários, culpa também do roteirista
Gerwitz. O veterano Brian Dennehy, interpretando pela
enésima vez o papel para que nasceu, fica desperdiçado
no meio do caminho. Para John Leguizamo sobra um arquétipo
de latino que Hollywood tristemente impõe e para o qual
há quem obedeça; igualmente ele é esquecido.
A fatia do bolo que coube a Carla Gugino se trata de
outro padrão reproduzido, o da amante gostosa (menos
mal, lhe confiaram alguma relevância na resolução
da trama).
E aí segue o barco - entre bocejos e embromações - até
um desfecho cheio de desilusão que se aproveita de um
mimetismo oportunista para emular o de "Fogo Contra
Fogo", estrelado pelos mesmos De Niro e Pacino.
Só que a distância entre as conclusões é abissal; fazem
muita falta a sutileza de Michael Mann, a fotografia
do grande Dante Spinotti e a não menos que celestial
música de Moby intitulada "God Moving Over The Face
Of The Waters" presentes naquele célebre epílogo.
"As Duas Faces da Lei" só não afunda por completo
porque o magnetismo de seus protagonistas tem lá seus
momentos (principalmente juntos em cena), e nós todos,
nostálgicos, somos reféns do passado - inclusive do
passado dos outros.
AS DUAS FACES DA LEI (Righteous Kill,
EUA, 2008)
Direção: Jon Avnet.
Elenco: Robert De Niro, Al Pacino, Carla Gugino,
50 Cent, Brian Dennehy, John Leguizamo, Donnie Wahlberg,
Trilby Glover.
Cotação: **
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