A MESMA FACE DE DUAS MOEDAS
Adriano de Oliveira
 
 

De Niro e Al Pacino. Al Pacino e De Niro. Duas estrelas do cinema em um mesmo filme, mesmo que não estejam em grande fase, catalisam multidões a ir às salas de exibição.

O que, por si só, não significa garantia de um bom programa.

Essa parceria simbolizou muito mais no passado. No zênite de suas carreiras, os astros dividiram créditos no elenco de duas obras bastante representativas. No espetacular "O Poderoso Chefão II", foram pai e filho, porém separados temporalmente na trama, não repartiam passagens cênicas em comum. Já em "Fogo Contra Fogo", no enredo eram antípodas - um policial em crise familiar (Pacino) versus um criminoso de alto gabarito (De Niro) - o que resultou não apenas em um embate memorável, ainda que regado a raras cenas entre si, mas também consolidou o filme, pela força de suas atuações, ao status de uma obra referencial do gênero policial nos últimos tempos.

Hoje, o panorama é outro. Sem apresentar brilhantes atuações há longa data, essas estrelas vivem do nome, da marca, do passado glorioso, das legiões de admiradores garimpadas ao longo das décadas. Se Al Pacino ao menos envelheceu com certa respeitabilidade e se mantém baseado num estilo próprio (que fascina uns e desagrada outros), De Niro há muito patina, fazendo caricaturas de si mesmo ou com uma nuvem de aborrecimento sobre a cabeça. Não parece boa hora de se fazer "As Duas Faces da Lei" ("Righteous Kill", 2008), pois um reencontro assim, feito em tempos menos iluminados a ambos, poderia ser temerário. Coloque-se nesse caldeirão um ingrediente duvidoso - a direção de Jon Avnet ao longo dos anos representa uma montanha-russa de picos ("Tomates Verdes Fritos") e vales ("88 Minutos") - e outro indigesto (o roteiro pseudo-esperto de Russell Gerwitz, que repete os recursos do seu supervalorizado "O Plano Perfeito": narração em off e final "ladino", artimanhas para suprir a falta do "ter algo mais a dizer"), o que se tem na mesa é um resultado pouco palatável.

O diretor impõe uma cara de filme "made for TV" a uma película dispendiosa, cujo roteiro dá sono ao preferir enrolar o espectador com o malefício da dúvida. Aliás, o desenlace de "As Duas Faces da Lei" causa dois resultados distintos: útil para psicólogos trabalharem sobre ele (pois somente isso poderia dar justificativa ao que é apresentado, em termos de análise do comportamento humano), decepção e déjà vu para a platéia em geral. O diálogo final entre os protagonistas é a cereja estragada do bolo azedo servido por maus confeiteiros.

Indeciso entre empregar o velho estilo dos filmes do Rat Pack - a figuração vem em primeiro lugar, a atuação importa menos -, o que permitiria satisfazer aos fãs ansiosos por reverem os trejeitos de seus ídolos, e empreender uma contenção de maneirismos no modo de dirigir seus atores, o efeito intermediário obtido por Avnet desagrada gregos e baianos. De Niro segura suas caretas em grande parte do tempo, mas liga um piloto automático irritante; Pacino se solta um pouco mais, porém não o suficiente: moderado em seu jeito usualmente extravagante e cheio de arroubos, ele se torna frustrante aos olhos do seu público.

Do mesmo modo capenga com que lida com os principais, a direção demonstra falta de interesse com os atores secundários, culpa também do roteirista Gerwitz. O veterano Brian Dennehy, interpretando pela enésima vez o papel para que nasceu, fica desperdiçado no meio do caminho. Para John Leguizamo sobra um arquétipo de latino que Hollywood tristemente impõe e para o qual há quem obedeça; igualmente ele é esquecido. A fatia do bolo que coube a Carla Gugino se trata de outro padrão reproduzido, o da amante gostosa (menos mal, lhe confiaram alguma relevância na resolução da trama).

E aí segue o barco - entre bocejos e embromações - até um desfecho cheio de desilusão que se aproveita de um mimetismo oportunista para emular o de "Fogo Contra Fogo", estrelado pelos mesmos De Niro e Pacino. Só que a distância entre as conclusões é abissal; fazem muita falta a sutileza de Michael Mann, a fotografia do grande Dante Spinotti e a não menos que celestial música de Moby intitulada "God Moving Over The Face Of The Waters" presentes naquele célebre epílogo.

"As Duas Faces da Lei" só não afunda por completo porque o magnetismo de seus protagonistas tem lá seus momentos (principalmente juntos em cena), e nós todos, nostálgicos, somos reféns do passado - inclusive do passado dos outros.



AS DUAS FACES DA LEI (Righteous Kill, EUA, 2008)

Direção: Jon Avnet.

Elenco: Robert De Niro, Al Pacino, Carla Gugino, 50 Cent, Brian Dennehy, John Leguizamo, Donnie Wahlberg, Trilby Glover.

Cotação: **