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DÚVIDAS
CERTAS (OU CERTEZAS DUVIDOSAS)
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Ricardo
Rangel
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O que é a dúvida, e por que duvidamos? Este questionamento
do senso comum, antes de mais nada, é uma indagação especulativa
das mais antigas, tendo relação direta com o surgimento
do ceticismo na história da filosofia ocidental, especialmente
com Pirro e Sexto Empírico, no medievo. A dúvida, sob
uma perspectiva epistemológica, pode ser definida como
a suspensão do juízo de uma proposição, esta entendida
aqui como um estado mental com conteúdo semântico, passível
de significação. Essa suspensão de juízo vem com uma atitude
proposicional de crença, que é tomar este conteúdo como
verdadeiro ou falso: no primeiro caso, se creio verazmente,
assevero semanticamente com a correspondência com a verdade
do conteúdo da proposição com a crença em questão, e se
creio falsamente (o que é equivalente a acreditar verazmente
na negação da proposição) resulta o contrário.
A dúvida de algo, tecnicamente, é uma atitude proposicional
de nem crer nem não crer nesse algo, supondo que o mesmo
tenha, evidentemente, conteúdo semântico-proposicional;
no entanto, devo pressupor esse conteúdo para duvidar
do mesmo. Raciocínios falaciosos à parte, o mesmo se poderia
dizer acerca de quem nega a existência de Deus, por exemplo:
o ateu, antes de negar tal conteúdo semântico, a saber,
a existência divina, deve pressupor de alguma forma tal
atributo, uma vez que não poderia negá-lo se ele, pelo
menos, não for asserido cognitivamente de alguma forma.
Essa posição "em cima do muro" é a suspensão do juízo,
o artifício lógico-epistêmico do cético, uma espécie
de "malandro filosófico" que prefere se abster, dizendo
simplesmente "não sei", e com isso procura eliminar totalmente
a possibilidade do conhecimento. É tachado muitas vezes
de o "inimigo do saber", mas a teoria do conhecimento,
e as reflexões que a mesma suscita, seriam impossíveis
sem a presença do cético e a sua "bendita" nem crença
nem descrença, ou seja, a sua eterna, recorrente e penosa
instigação. O trocadilho do título deste artigo instiga
e provoca a certeza que temos de ter em nossas dúvidas,
sejam elas cotidianas, do senso comum, ou filosóficas
que atinjam a própria natureza do processo de conhecer.
As dúvidas fazem parte de nossas existências, sejamos
filósofos céticos, meros seres humanos que sequer se debruçaram
alguma vez sobre estas questões, e mesmo padres e freiras
de uma escola religiosa de ensino rígido em pleno bairro
do Bronx na década de 1960.
Elaborei este pequeno preâmbulo talvez deveras acadêmico
(não teria como fugir do tema, uma vez que pesquiso também
sobre o ceticismo em meu trabalho de pesquisa no mestrado
em filosofia) e por vezes árido para o leitor não especializado,
uma vez que o tema é complexo, passível de muita discussão
e discórdia pelos epistemólogos especialistas na questão.
Vejam bem, só assim é possível fazer e levar adiante séria
e boa filosofia, do contrário, seria mera discussão de
mesa de bar sem embasamento técnico algum... Enfim, muito
mais se poderia dizer sobre isto, mas sem dúvida alguma
(com o perdão de novo trocadilho, pois o objetivo aqui
não é este...) fiz disto o mote para falar um pouco acerca
do filme "Dúvida" ("Doubt"), de John Patrick
Shanley, baseado numa peça homônima sua que ganhou o prêmio
Pulitzer - ou seja, não é pouca coisa -, estrelado por
Meryl Streep e Philip Seymour Hoffman simplesmente em
atuações sensacionais, elevando toda a carga emocional
que os personagens que interpretam merecem carregar. A
novata, mas já reverenciada, Amy Adams, que interpreta
uma jovem freira, também está magnífica em sua representação
neste brilhante filme, uma pequena obra-prima que chegou
de soslaio recentemente nas salas de cinema gaúchas, após
jornada pelo centro e nordeste do país.
Tentando resumir brevemente uma história bastante complexa
e difícil, "Dúvida" tem seu argumento principal
baseado na seguinte situação. Na tal escola já referida,
o padre Flynn (Seymour Hoffman) é um sacerdote com métodos
e mentalidade considerados avançados e revolucionários
para a época: trata seus coroinhas com gentileza e educação,
preocupa-se com os mesmos tanto do ponto de vista familiar
quanto pedagógico, e os faz olhar para seu lado humano
e sensível. Já a irmã Aloysius Beauvier (Meryl Streep,
que chancela sua condição de atriz acima da média) é a
antítese de Flynn: severa, rígida, amarga e vista pelo
alunado como uma megera monstruosa que pune o menor delito
que seja dentro dos seus códigos de conduta e com disciplina
excessiva e doentia. Ambos tem de conviver no ambiente
escolar, num sistema hierárquico; entre eles está a irmã
James (Amy Adams, em comovente atuação), uma freira inocente,
de bom coração e cheia de esperanças para com seus alunos.
A tal situação embaraçosa para o padre, a da tal dúvida
do título, é lançada pela irmã James, que tem uma suspeita
apenas, e nada mais do que isto: ela conta para a irmã
Aloysius que acha estranha a atenção que o padre oferece
a um aluno negro da escola, Donald Miller, o qual sofre
preconceito racial na escola pela sua cor. James narra
a Aloysius que viu o sacerdote levar Donald a um recinto
discreto, insinuando que poderia ter havido lá alguma
espécie de abuso de Flynn para com o jovem Donald de apenas
12 anos. Em linguagem velada, levanta uma suspeita de
pedofilia por parte do revolucionário sacerdote, que bebe
vinho, fuma e delicia-se com histórias mundanas com seus
colegas de batina num clima de total descontração, enquanto
as irmãs bebem leite, ficam tensas e morrem de medo de
Aloysius nas refeições - num escandaloso contraste dos
batinados no interior da instituição. Aloysius, então,
com sua mente desconfiada, talvez motivada por questões
pessoais com Flynn, de quem nunca aprovou as atitudes
modernas, pois vinham de encontro aos seus valores rígidos,
inicia uma cruzada contra o padre, o acusando de pedofilia,
e o mais escandaloso de tudo, sem qualquer evidência ou
prova aparente. Não usarei o termo "concreta" aqui, pois
ela não tinha nenhuma evidência para fazer tal julgamento
a não ser a sua certeza moral.
Retornando um pouco à teoria do conhecimento, este conceito
de fato existe na assim chamada epistemologia moral e
das virtudes éticas. Entanto, não pretendo discuti-lo
nem mesmo rasamente aqui; infelizmente, pois renderia
boa conversa para as questões do filme. Apenas quero salientar
que é controverso neste âmbito e matéria de muita discussão
que haja algum componente proposicional neste conceito
de certeza, o que já daria margem para reflexão acerca
de uma suposta dúvida moral envolvida aqui... Enfim, o
tema se mostra muito rico e passível de análise, muito
mais do que este pouco espaço exige.
O que move Aloysius a partir desse episódio da história
é o seu desejo, irracional até, de desmoralizar Flynn.
O núcleo é este, e muita, mas muita coisa pode ser dita
sobre, incluindo reflexões, divagações e digressões necessárias,
porém o que pretendo é apenas sinalizar para a maestria
com que o filme todo é conduzido, pois além das excelentes
atuações do trio protagonista, como já foi colocado, o
roteiro desenvolve-se com muita sutileza e inteligência,
criando situações de embaraço e constrangimento tanto
para Flynn (principalmente), como para Aloysius e James,
mantendo o fundamental para o êxito esplêndido de todo
o resultado final - a dúvida, esta maldita e bendita dúvida
cruel que persiste em todos os momentos. Por mais que
parte da plateia se sensibilize com o pároco, por estar
sofrendo uma grande injustiça pelas mãos de Aloysius,
e queira odiar as atitudes imorais e precipitadas desta,
ainda fica a questão principal, que não acha resposta
no filme: afinal, houve abuso ou não? Flynn é um tarado
mal intencionado, que se aproveita de seus coroinhas -
e Aloysius está certa no seu julgamento -, apesar de não
ter "certeza" ("intuição feminina" de freira muito devota...isto
gera conhecimento, crença verdadeira justificada? Convoquemos
os epistemólogos e filósofos morais de plantão para este
grande debate...), ou Flynn é bem intencionado e bom sujeito,
sensível e amável, e Aloysius é que desconfiada demais,
talvez motivada por alguma mágoa não explicitada pelo
padre?
Dúvidas, oh dúvidas... no meio de tudo, a irmã James,
que certamente (ou não... dúvida de novo!) é a que mais
tem dúvida, pois agiu por sentimento de culpa, e ao mesmo
tempo crê na "inocência" do acusado e dá alguma razão
para Aloysius, é movida por essa culpa de ter começado
a confusão toda, querendo uma espécie de perdão introspectivo,
então... mais dúvidas. Sem querer fazer algum juízo de
valor, mas já fazendo um pouco, uma vez que meu modesto
objetivo aqui não é julgar levianamente nenhum dos personagens,
e muito menos sem provas, creio que a grande, ou uma das
pertinentes questões de "Dúvida" é saber da capacidade
de se colocar no lugar do outro e julgar por eles e por
si mesmo, no fim das contas: talvez todos tenham razão,
ou ninguém, ou um pouco de cada, depende do ponto de vista...
aqui não há absoluto, e se a verdade é absoluta de uma
perspectiva epistemológica, talvez moralmente não o seja
tanto. De novo aparece aqui a já referida certeza moral...
que pode ser uma das chaves de interpretação, e renderia
por si muita conversa boa. Certo é que a dúvida persiste,
assim ela é, não apenas no filme, que nos coloca este
dilema cético-moral, mas em toda a nossa vida, seja cotidiana,
seja intelectual. Sem ela, não haveria debate sobre a
natureza do conhecer, não haveria o ceticismo, o qual
jogamos pedra mas o reconhecemos como um mal necessário
para a reflexão epistemológica, não haveriam dilemas morais
e de outras naturezas.
Assista "Dúvida", com certeza: vale muito a pena.
E saia da sessão certamente recheado das mesmas... ou
não, pois como depende do ponto de vista, é algo relativo.
Mas e o absoluto? Oh, dúvida... como sair dessa agora?
Chamem o cético para dizimá-la e trazer a certeza
de uma vez por todas, ora pois!
DÚVIDA (Doubt, 2008)
Direção: John Patrick Shanley.
Elenco: Meryl Streep, Philip Seymour Hoffman, Viola
Davis, Amy Adams.
Cotação: ***** |
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