ENTRE OS MUROS DA ESCOLA: A FICÇÃO QUE DOCUMENTA
Pedro Garcia
 
 
Nos primeiros meses de um ano escolhido para uma extensa programação de eventos que prometem aproximar a cultura francesa do público brasileiro, uma grandiosa obra cinematográfica original daquele país passou quase despercebida por nossas salas. Os 90 mil ingressos vendidos para sessões de Entre os Muros da Escola (2008), e a visita do diretor Laurent Cantet a São Paulo, não foram suficientes para difundir as diversas e importantes discussões que o filme laureado em Cannes propõe com excelência.

O cenário aqui não ultrapassa em momento algum - como bem diz o título - os ambientes internos de uma escola pública da periferia de Paris. Um olhar inicial é até capaz de nos causar certo estranhamento, especialmente no que toca a estrutura física da instituição (que se equipara à de qualquer particular brasileira), o aparente nível de formação dos professores (claramente superior) e mesmo o número expressivo de homens entre os docentes (bem maior do que costumamos ver).

Esse impacto mínimo desaparece logo que o filme revela sua missão: acompanhar um período letivo da escola em questão, mais atentamente as aulas de francês em uma turma do 8º ano - que, se considerarmos a idade média de 14 anos, pode bem equivaler à 8ª série de nosso sistema educacional. Quem mantém algum contato com classes de nível médio, facilmente reconhece a qualidade dessa reprodução - tão bem feita que por vezes acreditamos estar diante de um vídeo documental de cunho antropológico descritivo.

Uma câmera de mão fria nos apresenta a um conjunto de realidades indiciadas, reunidas em uma mesma sala de aula. O mosaico cultural no qual se transformou o território francês se transfere para a turma: jovens nativos dividem o espaço com africanos e orientais, mistura essa responsável por circunstâncias conturbadas. Entretanto, é a postura dos estudantes diante do mestre que causa os momentos de maior tensão. A descrença no ensino e o desinteresse em relação ao conteúdo somam-se à inexistente noção de respeito e uma inexplicável necessidade de imposição, consumindo aos poucos o espírito e a paciência do professor - e, inevitavelmente, do espectador.

Mas ao contrário do que possa parecer, tal retrato não reduz os docentes à condição de vítimas. Entre as situações de aula, passamos também por reuniões, conselhos de classe e conversas informais durante os intervalos. E aí percebemos um grupo de profissionais bem intencionados, mas notadamente confusos diante do conjunto de regras que rege a instituição, incapaz de dar conta da complexidade dos episódios enfrentados diariamente. Atente para a cena em que a equipe discute um novo sistema de punições para o comportamento dos alunos. Com dificuldades de chegar a uma conclusão, abandonam o debate, passam a falar sobre o alta no preço do cafezinho e o problema inicial permanece.

O caos é gradativo na medida em que avançam os meses, e só termina quando o ano chega ao fim. E se é impossível não perguntar onde fica o aprendizado em meio a tudo isso, a resposta surge na sequência final. Tão frias quanto todas as anteriores, as tomadas nos mostram o vazio da sala de aula abandonada. O vazio de um sistema inadequado, de um ciclo triste e aparentemente sem fim. É por isso que, mais do que um fabuloso entretenimento, Entre os Muros da Escola é um título absolutamente imprescindível, e também a prova do poder de registro da narrativa de ficção.



ENTRE OS MUROS DA ESCOLA (Entre Les Murs, França, 2008)

Direção: Laurent Cantet.

Elenco: François Bégaudeau, Nassim Amrabt, Laura Baquela, Juliette Demaille, Damien Gomes, Arthur Fogel.

Cotação: *****