SEGREDOS E VERDADES
Adriano de Oliveira
 
 
Abrigando uma das mais intensas e bem-realizadas interpretações femininas da história do Cinema, "A Escolha de Sofia" (1982) verdadeiramente é mais do que isso: também constitui um retrato da tragédia humana e uma incursão aos meandros psicológicos daqueles que sobreviveram aos campos de concentração nazistas da II Guerra Mundial.

O filme de 82 figura como ápice e episódio final da grande fase do cineasta Alan J. Pakula como diretor. Ele alternou, entre o início da década de 70 e o meio da de 80, títulos ao mínimo medianos como "Encontros e Desencontros" (1979) - não confundir essa intitulação brasileira frente à homônima conduzida por Sofia Coppolla - com importantes obras tais quais "Klute - O Passado Condena" (1971), "A Trama" (1974) e "Todos os Homens do Presidente" (1976).

A partir do livro homônimo de William Styron, o roteiro adaptado pelo próprio Pakula guarda o mérito de desenvolver o trio central da trama com cuidado e com capacidade de surpresa ao espectador. Em resumo, "A Escolha..." é um filme de revelações, e o descortinamento dos segredos mais profundos das almas de seus personagens de um modo ao mesmo tempo paulatino, franco e envolvente - num timing perfeito de enlevo e assombro - constitui, ao lado da excelente performance de Meryl Streep no papel-título, no grande trunfo da fita.

A história narrada acontece em 1947, no Brooklyn. Um jovem escritor sulista, Stingo (Peter MacNicol, uma promessa cinematográfica despontada em tal obra, mas que nunca se confirmou), chega a uma pensão e toma contato com um problemático casal ali residente, que se torna amigo dele. São eles o biólogo judeu Nathan Landau (Kevin Kline em seu primeiro filme, vindo dos palcos - uma muito boa estréia) e sua esposa, Sophie Zawistowska (Streep), uma imigrante polonesa que sobreviveu ao campo de Auschwitz. O casamento de Nathan e Sophie alterna idílio e inferno na mesma facilidade impressionante com que cambia o temperamento do marido. Stingo aos poucos descobrirá as raízes de tal instabilidade, mas tal achado não virá desprovido de fortes e nem sempre agradáveis emoções.

Meryl toma conta do filme com sua atuação brilhante. Não bastasse o forte acento polonês que caracteriza a sua Sophie, ela magnetiza com uma representação minimalista, cujos gestos, maneiras, e sobretudo, olhares, traduzem a essência da personagem. Entra em campo, então, a maneira acertada do diretor em conduzir as atuações: ele solicitou que Kline, Streep e MacNicol atuassem à própria maneira particular de cada um, ou seja, sentindo o papel e não sendo orientado a senti-lo.

Pakula também se sobressai pela primorosa elegância com que filmou a película. Utilizando a câmera e seus movimentos com polidez e medida certa, o cineasta mostra um refinamento ímpar, que poderia ser simplesmente traduzido na limpidez com que ela é conduzida e num uso singelo da fotografia. Com um rebuscamento comedido, em um estilo clássico, o diretor procura evitar malabarismos do seu instrumento de registro, bem como se concentra na simples busca por belas imagens (vide as cenas da ponte e a do piquenique). Emprega ele, quando escapa do plano fixo, brandos deslocamentos à câmera, como que respeitando a dor dos dramas enfocados e a timidez com que segredos e sentimentos são revelados.

Antes de encerrar este texto, duas coisas a serem ditas - talvez não muito importantes diante do filme em si só. Uma delas é que a obra foi indicada a cinco prêmios Oscar, tendo sido contemplada na categoria de Melhor Atriz. E a outra é de que a tal "escolha de Sofia" que fornece o título, é um de vários momentos dramáticos de peso no enredo - embora o mais doloroso deles, e fundamental para que compreendamos melhor não apenas a personagem central da história, mas também o rastro de amargura que é gerado pelo homem quando este mostra seu lado mais sombrio e cruel (como o é na guerra), fazendo inocentes vítimas ao longo da história da humanidade.

A ESCOLHA DE SOFIA (Sophie's Choice, 1982)

Direção: Alan J. Pakula.

Elenco: Meryl Streep, Kevin Kline, PeterMacNicol, Rita Karin.

COTAÇÃO: *****