|
|
|
|
| |
| |
| |
|
A
IDEAL E A REAL
|
|
Ricardo
Rangel
|
| |
 |
| |
"A Garota Ideal", de Craig Gillespie, é uma
fábula contemporânea, e deve ser interpretado dessa forma:
se não for assim, corre o risco de ser defenestrado por
algum espectador desavisado que fosse conferir tal produção
esperando mais uma comédia americana convencional. Quem
quiser desta, terá de procurar outro título, pois esse
filme não se trata decididamente de uma comédia, e muito
menos besteirol: é um drama, com determinadas sutilezas.
Possui um ritmo modorrento - deveras aborrecido por vezes
-, mas que não diminui seu mérito de conseguir transportar
o espectador atento e sensível pelo universo sorumbático
do personagem principal e seus delírios fantasiosos.
Lars (Ryan Gosling, convincente na sua atuação, no que
o personagem exige de "estranheza") é um sujeito deveras
introspectivo e de comportamento exótico: "travado" no
convívio social, evita contato com as pessoas, incluindo
seu irmão Gus e sua cunhada Karin (Emily Mortimer), bem
como seus colegas de trabalho, vivendo solitariamente
na garagem de seu irmão, alheio aos sentimentos dos outros.
Fala pouco, toca minimamente e apenas o necessário nas
pessoas, nunca teve uma namorada. Sente que os outros
o julgam e o condenam por estas questões. Incomoda-se
internamente com isso, até que um dia resolve mudar e
"entrar" no jogo social convencional: arruma uma namorada.
Com um detalhe: Bianca, sua parceira, é uma boneca encomendada
pela internet, e ele a apresenta para todos como se fosse
uma pessoa real. Leva a "parceira" para sair, troca confidências
com a mesma, faz todos de seu convívio mais íntimo a tratarem
como uma pessoa de verdade.
A temática não é original no cinema, especialmente com
o recente "A Mulher Invisível", e também com "Simone",
de Andrew Niccol e estrelado por Al Pacino, em que este
interpreta um diretor que, necessitando de uma atriz urgentemente,
acaba por criar uma por via virtual, envolvendo-se emocionalmente
com a mesma (o título é uma brincadeira com a sigla "SIMulation
ONE", que seria a alcunha da tal atriz de mentirinha...).
A diferença em "A Garota Ideal" é que Lars, no
seu devaneio ilusório permanente, de fato acredita que
Bianca é de carne e osso, levando isso às últimas consequências.
Diferentemente do que ocorre ao personagem de Selton Mello
com o de Luana Piovani em "A Mulher Invisível",
Bianca está ali para todos verem: impassível, imóvel,
imota, catatônica... é apenas uma boneca de plástico!
Não para Lars, que consegue fazer (junto de um aconselhamento
médico) com que todos a enxerguem e a tratem como a sua
namorada de fato. Se isso resulta em um jogo de encenação
que se pode parecer patético e por vezes até irritante,
em outros comove pela ingenuidade e surrealismo das situações
criadas.
A ideia do filme de Gillespie é muito boa, mas nem sempre
surte o efeito esperado, pois para que isso ocorra de
modo pleno, o espectador deve colocar-se inteiramente
na pele e na alma confusa e atormentada de Lars (incumbência
a que nem todos estão dispostos), o qual não precisa mais
do que despertar para este mundo que ele em parte abandonou
há tempos. Não é tarefa das mais triviais esta - o diretor
conta muito com a boa vontade de seu público e da disposição
deste em entrar nesse jogo de "faz de conta" que ele cria
e pretende desenvolver em pouco menos de duas horas. Se
você estiver disposto a compartilhar este jogo, a encenação
consentida do "faz de conta" gillespiano, a entrar nesse
mundo "ideal" e evidentemente surreal de Lars, a surpresa
pode ser boa e curiosa, descontando, como dissemos antes,
a narrativa arrastada (há que se ter alguma dose de paciência,
pois...). Caso contrário, melhor não compartilhar esta
experiência, é bom deixar claro isso.
"A Garota Ideal" é um filme de identificação, seu
mote central, a solidão: quem é/foi solitário, em alguma
medida e seja por que razões - não é o objetivo de modo
algum discutir a solidão aqui -, poderá, em contato com
o universo de Lars, achar alguma identificação com tudo
que lá está- metaforicamente, é claro. Uma frase de Lars,
lá pelas tantas, é emblemática, onde ele diz mais ou menos
o seguinte: "O que não é verdade, dura para sempre". Há
algo de mítico e de aspirações humanas aqui. É apenas
uma questão suscitada por este singelo filme para reflexão.
Surgem outras também, que cada um, nas suas individualidades
e idiossincrasias, pode descobrir. Em contraposição, o
ideal pode ser mais "real" do que se imagina, pode estar
logo ali do lado, como no caso da Mulher Invisível
"visível"... ou não. Cada um no seu mundo, mas compartilhando
os seus também, afinal de contas, dividir a autoridade
da primeira pessoa com o mundo exterior é um grande desafio
para o entendimento pleno e vívido de nossas vidas mentais,
às vezes habitada por garotas "ideais", "reais",
e tantas outras coisas, existentes ou não, e a que aspiramos.
"A Garota Ideal" é sobre o que somos e no que acreditamos.
A GAROTA IDEAL (Lars and the Real Girl,
EUA, 2007)
Direção: Craig Gillespie.
Elenco: Ryan Gosling, Emily Mortimer, Patricia
Clarkson.
Cotação: *** |
| |
|
|
|