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PRECONCEITO
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Alexandre
Mesquita
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Um filme ruim com pretensão de sério é lamentável, um
filme muito ruim com pretensão de sério o Ministério da
Saúde adverte, porém, um filme absurdamente ruim, ruim
mesmo, com pretensão de sério, eu não troco por nada.
Quer dizer, só se me oferecerem algo pior.
O diretor Tim Burton ao cometer Ed Wood realizou
talvez seu melhor filme, justamente por contar a vida
de quem fazia os piores filmes: o diretor, roteirista,
produtor, ator, e outros sacrilégios, Edward Wood Jr..
Observação justiceira: Wood na verdade realizou tantos
atentados à sétima arte quanto vários outros cineastas
que circularam como moscas à margem de Hollywood. Na minha
opinião, ele não era nem melhor, nem pior, do que Arthur
Hilton, David McDonald, Nathan Hertz, Edward Brands, entre
outros, mas sabe-se lá por que, dois críticos de cinema,
Harry e Michael Medved, no livro The Golden Turkey
Award - 1980, o tiraram para Cristo e outorgaram-lhe
o título de "o pior diretor de todos os tempos".
Isso é o que eu chamo de sorte.
Sua "obra-prima", Plane 9 from Outer Space, é tão
ruim, tão mal dirigido, tão mal interpretado, tão cara-de-pau,
que seu DVD está sendo vendido numa locadora aqui perto
de casa por uma fábula de dinheiro e somente com lista
de espera.
Aliás, fábula de dinheiro Ed nunca teve. Mas o fantástico,
ou o macabro, é que ausência de grana nunca lhe significou
impossível. Com um rolo de cinco minutos de filme virgem,
mais retalhos de documentários, de filmagens de aniversário,
de casamentos, de festa da escola, e até de outros filmes,
ele, começando à uma hora da madrugada, com emendas e
nenhum respeito à lógica e bom senso, podia apresentar
no dia seguinte coisas como A Noite das Assombrações
Atômicas*, Vampiros Atacam num Formigueiro em Júpiter*,
O Monstro do Buraco do Apontador Contra o Traiçoeiro Lápis
de Ponta*, etc.
No filme Ed Wood o processo de criação do diretor é mostrado
- ou corneteado -, em detalhes. Nenhum cuidado
com as interpretações dos atores, com verossimilhança
de história, com tomadas de câmera, com produção. O termo
pós-produção, então, para Wood devia ser alguma lenda
antiga sobre ogros e dragões, que ele gostaria de ter
filmado e não conseguiu (segundo fofoca de bastidores
faltaram batizados).
Mas, a película de Tim Burton desnuda e defende seu herói.
Mostra a famosa ausência de "simancol" como fruto
de paixão desmesurada por fazer filmes, ele quase chora
de orgulho aos ouvir da boca dos atores os diálogos que
criou em colaboração com seu abajur (as partes mais inteligentes).
A película revela também a dedicação comovente do "pior
de todos os tempos" no zelo ao amigo e ídolo Bela Lugosi
- falido, esquecido e viciado em heroína. Por fim, a obra
de Burton nos entrega que a própria palavra desnudar torna-se
um trocadilho em potencial aplicada a Edward Wood Jr.
e sua necessidade de vestir roupas do sexo oposto, mesmo
que se julgasse assumidamente heterossexual.
Seu primeiro filme foi chamado de muitos nomes, na sua
grande maioria impróprios e acompanhados de legumes vermelhos
em alta velocidade, mas fixou-se para a posteridade como
Glen ou Glenda? (Glen or Glenda, EUA, 1953).
Nele, o lamentável diretor já mostra "qualidades". Entanto,
diferentemente dos filmes que viriam depois, este causa
sacrílega impressão.
Tentando sinopse. Travesti masculino se suicida e deixa
uma carta reclamando do mundo preconceituoso. Um policial
e um psicanalista debatem o que leva um homem a agir dessa
forma (o tema aproveita a polêmica nos EUA da mudança
de sexo da transsexual Christine Jorgensen em 1952), enquanto
em algum lugar no além, um sentado Deus-Cientista (Bela
Lugosi), com cara de taxista sem cliente, filosofa a respeito.
Ninguém entende nada.
Quando surgiu da boca do psicanalista o aviso (com alguma
livre adaptação minha): "Só o mais profundo da mente humana
pode contar a história que vem a seguir, e não rir com
isso", percebi que era bom demais para ser verdade. Arrastei
minha trash-poltrona para a frente da tv, e convidei as
pulgas dela para me atacarem e comprovar que eu não estava
sonhando.
Surge na tela o drama do jovem Glen (Edward Wood Jr.),
prestes a casar com Barbara (Dolores Fuller, namorada
de Wood na época, que depois deixou-o, tornando-se uma
compositora de sucesso; para Elvis Presley escreveu, entre
outras, Rock-a-Hula Baby). O dilema de Glen: se
a noiva fizer um striptease, ele não sabe quem
atacar primeiro, ela ou as roupas.
Contar a verdade? Certamente a temível sociedade conservadora
da época o atacaria como um enxame de vespas. O Deus-Cientista,
lá do seu ponto de táxi no além, observa e bota lenha:
"Aja! Puxe as cordinhas, puxe as cordinhas ("pull the
strings"), senão o dragão verde, comedor de rabos de cachorrinho
e lesmas gordinhas irá te pegar atrás da porta". Credo.
Item de colecionador.
Bem, como mencionei, há algo estranho. Das profundezas
da minha mente oca surge uma sensação profana. Pelo inusitado
e inventividade, esta história (em parte autobiográfica)
de Wood, com mais tempo, dinheiro e um realizador mais
talhado, poderia render um filme no mínimo muito interessante,
do tipo Festival de Sundance (para não deixar de citar,
na década de noventa houve uma adaptação pornográfica,
Glen & Glenda, com atores famosos do gênero, como
Peter North, mas não é bem essa a minha idéia).
Me justifico quase que me desculpando. Por trás de sua
manufatura bizarra, o filme esconde uma linha de raciocínio
bem estruturada. É difícil explicar exatamente onde ela
está, mas, por exemplo, o personagem Glen , em seu dilema,
tem visões soturnas de um sujeito que parece o diabo (bem,
se aquilo na cabeça não forem chifres, esqueçam o argumento
a seguir). Próximo ao final, após algumas explicações
psicanalíticas do seu "travestismo", surge a imagem do
pai ausente. Pai e diabo são o mesmo ator.
Outros pontos interessantes. A inserção casual de vozes
de crianças ao fundo para atazanar a consciência de Glen
consegue um tom até assustador. As "discussões filosóficas"
sobre transformismo, espalhadas por todo o filme, tem
seu grande momento quando um personagem secundário está
a defender que não se deve violar a ordem natural das
coisas (homem vestido de mulher), justificando, "se Deus
quisesse que voássemos nos teria dado asas". Wood, para
contrapor essa idéia, exibiu na sequência a imagem de
um avião voando para responder que podemos, sim, "construir
nossas asas" e sermos felizes. Porém, ele só tinha retalhos
de filmagens de guerra, colocou um avião voando, e jogando
bombas, gerando uma inteligente ironia contra si mesmo.
O destaque supremo do filme vai para Bela Lugosi defendendo
seu prato de comida. Lutou literalmente com caras e bocas
para dar dignidade às falas abobadas de Wood (conta a
lenda que o abajur proibiu na justiça qualquer menção
a seu nome nos créditos).
Como eu queria ver uma refilmagem "Sundance" de Glen
ou Glenda?... queria mesmo. Mas... acho impossível.
O principal problema nem seria aparecer o diretor louco
interessado. O problema, sempre ele, é o preconceito.
Não, nada a ver com o tema opção sexual, até porque hoje,
felizmente, os tempos são outros. Um filme de Edward Wood
Jr. bem feito, profissional, e até com pós-produção, ofenderia
mortalmente a sociedade conservadora chamada: culto
ao glorioso pior de todos os tempos.
Dessa, até as vespas de Júpiter tem medo.
GLEN OU GLENDA? (Glen or Glenda, EUA, 1953)
Direção: Edward Wood Jr.
Elenco: Edward Wood Jr., Bela Lugosi, Dolores Fuller,
Lyle Talbot.
*Títulos fictícios. |
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