O LONGO CAMINHO DE VOLTA
Adriano de Oliveira
 
 
O olhar perdido de Juliette Fontaine (Kristin Scott Thomas) no saguão de um aeroporto francês no início de "Há Tanto Tempo que te Amo" ("Il y a Longtemps que je T'Aime", França/Alemanha, 2008) ao mesmo tempo diz muito e diz pouco sobre a personagem. Ao longo das quase duas horas restantes de filme, tomando contato com a história da protagonista é que constataremos o quanto esse olhar faz sentido e que ele constitui apenas a ponta de um gigantesco iceberg que será descortinado.

Juliette está vindo de longo período de reclusão penitenciária e saberemos adiante que o crime por ela cometido foi terrível. Quem imediatamente a ajuda nessa tentativa de reconstrução pessoal é sua irmã Lea (Elsa Zylberstein, de "Modigliani"), jovem professora que a acolhe em seu lar, onde mora com o marido lexicógrafo, duas filhas asiáticas adotadas e o sogro emudecido depois de um acidente vascular cerebral. Aos poucos, Fontaine tenta se reinserir na sociedade, procurando um emprego. Ela também deseja encontrar seu lugar no mundo e buscar sua paz pessoal, tarefas que não serão nada tranquilas, com um pretérito e uma culpa a lhe assombrarem diuturnamente e em qualquer situação - até em um jantar entre amigos. Essa cena, em particular, carrega duas ironias consigo; a primeira é de que o sujeito mais chato do filme se declara fã do cinema de Rohmer, o que poderia parecer uma metáfora, tendo em vista as aborrecidas fitas do realizador francês. A segunda: após ser longamente acossada pelo interlocutor mala acima citado sobre revelar o mistério de sua vinda à uma cidade que ainda lhe é estranha, Juliette diz ter ficado presa por quinze anos (expressão da verdade) e, à exceção de um sensível homem, todos os convivas à mesa - os quais não conhecem a história dela - riem da "piada".

Por opção de um diretor - também roteirista - preocupado em não dar respostas fáceis, bem como devotado a esmiuçar aspectos humanos dos personagens apresentados (com raro carinho aos coadjuvantes), sem pressa tomamos consciência do passado de Juliette pelos fatos do presente, o que desemboca na divulgação de um triste segredo. A forma como é dada essa revelação rompe com o modo semi-desdramatizado - genuíno do cinema europeu - como era conduzida a narrativa até então para assumir um caráter dramático mais próximo do hollywoodiano nos seus minutos finais. Mesmo assim, a conclusão de "Há Tanto Tempo..." é digna de méritos, pois, ao tocar em um tema extremamente delicado ali emergente, ainda o faz de modo bem mais sutil do que premiados dramalhões recentes os quais abordaram a mesma temática.

Cabe destacar a ótima atuação de Kristin Scott Thomas, não apenas por ser uma atriz inglesa que aqui fala em francês com quase nenhum sotaque, mas principalmente pela capacidade de traduzir estados de espírito em falas, gestos, olhares, e sobretudo, silêncios. É dela a frase final da película, que resume com propriedade o retorno de sua personagem à humanidade, após vasto período de sombra.



HÁ TANTO TEMPO QUE TE AMO ("Il y a Longtemps que je T'Aime", França/Alemanha, 2008)

Direção: Philippe Claudel.

Elenco: Kristin Scott Thomas, Elsa Zylberstein, Serge Haznavicius, Fréderic Pierrot.

Cotação: ****