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AS
CRIATURAS DE DEL TORO
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Alexandre
Mesquita
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Hellboy é um demônio, que veio ao nosso mundo ainda
filhote, evocado pelos nazistas num ritual de magia negra
psicodélico na Segunda Guerra Mundial. O ritual foi interrompido
pelos aliados e a criança-diabo permaneceu sob guarda
dos americanos. Foi educada no american way até a idade
adulta, para então ser uma espécie de pau para toda obra
nas guerras parapsicológicas que o FBI, através do seu
Bureau de Pesquisa e Defesas do Paranormal trava com o
submundo. Hellboy gosta de charutos, tem humor instável,
adora aparecer na mídia, raspa os chifres para ficar com
um certo ar humano, cria gatos, namora uma colega do Bureau,
Liz (que pega fogo quando está irritada), tem no amigo
homem-peixe sensitivo, Abe Sapien, seu porto seguro quando
está deprimido, e apesar de alguns rompantes destrutivos
é um cara muito legal. Ou seja, não fosse o rabo, os chifres,
a cor vermelha e uma enorme mão de pedra, ele dificilmente
chamaria a atenção na rua, aliás, poderia estar roubando
a sua cerveja agora.
O interessante personagem foi fruto de uma feliz inconsequência
criativa do cidadão Mike Mignola. Nos quadrinhos, Hellboy
teve começo de vida difícil, primeiros anos da década
de noventa, por ter sido lançado pela Dark Horse, um selo,
na época, de pouca expressão; e também por causar certa
perplexidade em sua temática de horror com deboche meio
fora dos padrões. O herói do inferno não é um humano boa-pinta
que foi parar lá porque não se comportou direito em vida
(como Spawn), ele é do inferno porque é demônio mesmo.
Para completar, Mignola era (continua sendo) bastante
lento na produção de novas histórias. Mas atualmente,
senão sucesso estrondoso, pelo menos anda em vida tranquila
no mercado editorial. Sua primeira passagem no cinema
satisfez o suficiente para que a continuação mantivesse
o mesmo diretor, o respeitado homem que cria faunos em
labirinto com autorização do Ibama, e atualmente considerado
de luxo, Guillermo Del Toro.
Um certo rei elfo de um reino encantado invisível, que
existe sob os esgotos de Nova York, recebeu de presente
um exército mecânico invencível, o Exército de Ouro. Porém,
o rei viu o que estes soldados podiam fazer qualquer coisa,
pois eram indestrutíveis. Seu filho, o príncipe Nuada
(Luke Goss), aproveitou a deixa para tentar concretizar
seu velho sonho de ter o que fazer num domingo de manhã,
e propôs usá-los para destruir os humanos. Pacífico, o
rei trancafiou o exército em uma sala encantada, em localização
mais tradicional, nos esgotos da Irlanda. Só pode ser
liberto se três peças metálicas forem unidas para formar
uma coroa-chave. O príncipe, emburrado, se exilou por
cinco séculos, o tempo necessário para aprender kung fu
o suficiente para eliminar qualquer um no seu caminho.
Volta para sobrepujar o pai e pôr em prática seu desejo
de vingança. Precisa montar a chave. Talvez o único que
possa ameaçá-lo atenda pelo apelido de Hellboy (Ron Perlman,
o inesquecível repugnante Salvatore, de O Nome da Rosa),
se este resolver seus problemas com a namorada Liz (Selma
Blair, bonitinha de olhar sério) e com seu novo chefe,
o protoplamático Johann Krauss (voz de Seth MacFarlane),
ou não tiver de alimentar os gatos.
Engraçado, quando eu estava vendo este Hellboy II -
O Exército Dourado (Hellboy II - The Golden Army,
EUA, 2008) era em Jim Carrey que eu pensava.
Hein?
Jim Carrey apareceu para o sucesso em O Máscara.
No começo do filme, porém, passou a impressão de ser meramente
um careteiro imitador de Jerry Lewis. Contudo, Carrey
provou que apenas tomou o estilo de Lewis como ponto de
partida, e, dono de um rosto maleável e corpo comprido,
magro, dobrável para viagem, tratou de turbiná-lo. O filme
foi muito divertido graças a ele. O ator fez lotes de
comédias em sequência que exploravam essa capacidade.
Somente essa capacidade.
Curiosamente Guillermo Del Toro, nesta nova obra, está
revelando tendência parecida... não igual, mas parecida.
O Labirinto do Fauno mostrou a capacidade do diretor
para criar seres estranhos e interessantes. Agora, com
bastante credibilidade e dinheiro, mais do que o primeiro
Hellboy, ou Blade 2, o simpático mexicano
aproveita a liberdade para comprovar que imaginação na
hora de inventar criaturas é mesmo com ele e com sua equipe
de direção de arte. Contudo, nos minutos iniciais de O
Exército Dourado, a sensação de estarmos diante de
uma mera imitação de Guerra nas Estrelas e Homens
de Preto incomoda um pouco. Mas, Del Toro, com o transcorrer
das ações prova, mesmo que algumas de suas criaturas sugiram
irmãos mais velhos em outros filmes, que a intensa experimentação
em colagem de detalhes inusitados fazem sua marca registrada.
Qualquer coisa, um inseto, uma máquina de escrever e até
a Igreja de Notre Dame, podem se fundir numa anatomia
única para formar um by Del Toro. Uma sugestão
é observar a infinidade de bichos esquisitos no Mercado
Troll, sob uma ponte de Nova York. Cada um deles é como
uma sopa de letrinhas de um alfabeto bizarro.
Outro ponto forte desta continuação é a presença de Mike
Mignola no roteiro junto com Del Toro. O escritor, creio
eu, ajudou a dar uma aliviada em um problema, segundo
os fãs, que fez o primeiro filme soar artificial. A falta
de equilíbrio entre o humor cáustico do diabão (ótimo
em Hellboy 1) e a atmosfera de terror das histórias
(essa falhou), que nos quadrinhos funciona muito bem.
Aqui faço um aparte, para quem não conhecia as histórias
de Hellboy na revista, e portanto livre de comparações,
o primeiro filme pode muito bem ser tomado como uma bela
fábula sobre origens e escolhas. Em Hellboy 2,
a dupla parece ter concordado que um transplante de atmosfera
dos gibis para o tela não seria tão bom quanto investir
em uma das duas qualidades, e optaram em se concentrar
mais no humor. Exatamente porque a grande sacada do universo
Mignola é explorar com ironia o lado humano de personagens
inumanos, causando contrastes muito divertidos.
Além de "Vermelho", apelido do herói, ter ganho muito
mais tiradas espirituosas e debochadas, a ponto de estar
a alguns passos de se transformar no Grouxo Marx do inferno,
temos cenas como a de Hellboy e Abe Sapien (Doug Jones)
bêbados, moídos pela dor-de-cotovelo: o primeiro, para
variar, brigou com Liz e o segundo se apaixonou pela princesa
elfo Nuala (Anna Walton, que até aparecerem os créditos
eu jurava que era a Calista Flockhart), ao som de "I Can't
Smile Without You", de Barry Manilow . Além de risadas,
dá status cult. Também ótima é a briga do herói
com o pseudo robô-ectoplasma-alemão Dr. Krauss, usando
as portas de um armário para compor uma coreografia mortal
e terminando com o ectoplasma cheio da razão. Foi a que
eu mais gostei. Idem vale parar para prestar atenção nas
intervenções do confuso e inseguro (e bem construído do
ponto de vista de personagem) diretor do Bureau, Tom Manning
(Jeffrey Tambor), representando um ótimo investimento
a curto prazo.
Porém esse enfoque prejudicou a história. Ficou uma trama
criada para quatro ou cinco cenas espetaculares. E isso
gerou falhas de continuidade. Numa cena Hellboy está fumando
um charuto (de perfil, lembrando Fidel Castro) e na cena
seguinte sem muitas explicações, ou pelo menos cheio de
explicações que não convencem - o que dá na mesma -, aparece
pulando sobre os carros com um neném na mão de pedra e
uma arma enorme na outra, fugindo de um monstro verde
de dez andares que é quase uma pintura de tão bonito.
Há os que se contentam com isso, mas há os que querem
uma boa história. Estes últimos em Hellboy 2 terão
de aceitar que a vida nem sempre é fácil.
Pois o trabalho criativo de parir seres mirabolantes e
a comicidade de lotar esses seres com as paranoias do
nosso cotidiano bastam para congratular Guillermo Del
Toro pelo ótimo filme. Mas acho bom um certo cuidado daqui
para frente. O estilo de Jim Carrey saturou alguns filmes
depois de O Máscara, e hoje ele busca reconhecimento
como ator para sustentar sua carreira. Espero que Del
Toro aprenda a lição e continue nos brindando com criaturas
originais, mas que suas histórias voltem a ter início,
meio e fim.
HELLBOY II - O EXÉRCITO DOURADO (Hellboy II
- The Golden Army, EUA, 2008)
Direção: Guillermo Del Toro.
Elenco: Ron Perlman, Selma Blair, Doug Jones, Jeffrey
Tambor.
Cotação: **** |
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