- O LUTADOR

- FOI APENAS UM SONHO

- O LEITOR

Chico Izidro
 
 

O LUTADOR

Para quem se recorda de Mickey Rourke galã nos anos 80 do século passado, vê-lo em O Lutador (The Wrestler), de Darren Aronofsky, pode ser um choque.

O ator está completamente deformado por ter, nos anos 1990, abandonado os sets de filmagens pelos ringues de boxe. Ele já havia aparecido com o novo visual em Era Uma Vez No México, de Robert Rodriguez. Agora, em O Lutador, meio que revive sua vida frustrada. Ele é Randy, The Ram ("O Carneiro"), astro da luta livre em decadência. Seu auge foi nos anos 80, assim como na vida do ator, e no novo milênio ele tenta retomar a fama, mesmo que a grana não jorre como antigamente e o público seja diminuto.

Para completar a renda, Randy trabalha num supermercado e, às vezes. vende drogas para outros lutadores. Sua vida amorosa também não é das mais empolgantes. A filha (Evan Rachel Wood, de Aos Treze) o odeia e ele tem uma atração pela stripper Cassidy (Marisa Tomei), que perto dos quarenta anos e com um filho de nove anos, luta para se manter sexy.

Aronovsky conseguiu filmar uma cena que se tornará antológica: é quando Randy se arruma para trabalhar no supermercado num sábado à tarde. Ele vai caminhando em direção ao setor de frios como se estivesse entrando num ringue. Simplesmente genial. O filme é tão oitentista, que até a trilha sonora remete aquele período, com clássicos do Accept, Ratt e Quiet Riot.


O LUTADOR (The Wrestler, 2008)

Direção: Darren Aronofsky.

Elenco: Mickey Rourke, Marisa Tomei, Evan Rachel Wood, Mark Margolis.



FOI APENAS UM SONHO

O diretor Sam Mendes volta ao universo suburbano norte-americano depois do ótimo Beleza Americana. Agora o nome da obra é Foi Apenas um Sonho, cujo de título original é Revolutionary Road, baseado em romance de Richard Yates, do começo da década de 1960, a qual é o nome da rua para onde se muda o jovem casal Wheeler, formado por Leonardo Di Caprio e Kate Winslet, a mesma dupla do bilionário Titanic - e ela esposa do diretor Mendes.

O filme mostra a desesperança da geração da década de 1950. April (Winslet) sonhava em ser atriz, mas se descobre medíocre. Frank (Di Caprio) se satisfaz trabalhando em um escritório esfumaçado e traçando uma das secretárias. Perante tanta inércia, April sugere que eles e os filhos se mudem para Paris. Lá ela pretende trabalhar e sustentar Frank, que tentará descobrir sua verdadeira vocação. A questão é se ele realmente quer ir. Será que sua vocação não é mesmo trabalhar num escritório?

Como disse uma colega, Foi Apenas um Sonho é de cortar os pulsos. Não por que seja ruim. Pelo contrário, o filme é ótimo, mas desolador.


FOI APENAS UM SONHO (Revolutionary Road, 2008)

Direção: Sam Mendes.

Elenco: Kate Winslet, Leonardo DiCaprio, Kathy Bates, Maichael Shannon.



O LEITOR

Inspirado no ótimo romance O Leitor, do escritor alemão Bernhard Schilink, o filme homônimo dirigido por Stephen Daldry, de As Horas, discute até onde vai a culpa dos germânicos pelos crimes cometidos pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial. A história é contada por Michael Berg (Ralph Fiennes, de A Lista de Schindler), que adulto relembra sua iniciação sexual com uma mulher com o dobro de sua idade, Hanna Schmitz (excelente e justa premiação com o Oscar para Kate Winslet, que já havia arrasado em Foi Apenas um Sonho).

Aos 15 anos, Michael (nessa fase da vida interpretado por David Kross) mantém um ritual para com Hannah. Ele lê para ela todos os tipos de livro, desde os clássicos como a Odisséia, de Homero, até os quadrinhos de Tin-Tin. Depois, fazem amor e ele vai embora. A relação dura um ano, até que um dia ela vai, misteriosamente, embora.

Anos depois, já estudante de direito, Michael vai reencontrar Hannah num tribunal de crimes de guerra. Ela e outras mulheres que serviram nas tropas das SS nos campos de concentração são acusadas da morte de 300 prisioneiras numa igreja durante as famosas "caminhadas da morte" - os nazistas, quase ao final da guerra, vendo que esta estava perdida, começaram a evacuar os campos e sem muito nexo faziam com que os prisioneiros caminhassem quilômetros Alemanha adentro. Nesse processo, os fracos iam morrendo pelo caminho, fosse de cansaço, de fome ou assassinados pelos seus guardiões, vindos das tropas das SS.

Hannah deixa o julgamento correr contra ela, pois guarda um segredo que prefere manter soterrado e que considera mais vergonhoso do que ser acusada do assassinato de centenas de pessoas.

Por vezes, o filme faz o espectador sentir pena daquela mulher orgulhosa (e aí está mais um mérito de Winslet), que no tribunal faz com que todos pensem: "Eu apenas cumpria ordens, não fiz mais do que minha obrigação". E sabemos que muitos nazistas, a maioria se escondia por trás desta desculpa esfarrapada para justificar sua participação no Holocausto.


O LEITOR (The Reader, 2008)

Direção: Stephen Daldry.

Elenco: Kate Winslet, Ralph Fiennes, David Kross, Bruno Ganz.