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BENTON
BRINCA DE HITCHCOCK
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Adriano
de Oliveira
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Chega a ser inacreditável como certos títulos relevantes
das décadas de 70 e 80 demoram para serem lançados em
DVD, ao menos em nosso Brasil. Não faz tanto tempo assim
que finalmente dispuseram "Klute - O Passado Condena"
(1971), de Alan J. Pakula. Situação pior se acha "Uma
Estranha Passagem em Veneza" (1990), de Paul Schrader
e com a recentemente falecida em trágico acidente
Natasha Richardson, que ainda não conheceu sua versão
em um DVD nacional. O mesmo se diz de "Na Calada da
Noite" ("Still of the Night", EUA, 1982), obra
de Robert Benton a qual se sucedeu na filmografia dele
imediatamente após o êxito do premiado "Kramer vs.
Kramer" (1979). Nas raras locadoras que ainda não
varreram de suas estantes as obsoletas fitas VHS, é possível
encontrar esse título. A quem se dispuser, poderá ser
uma procura frutífera.
Benton costuma dirigir bem seus atores. Aqui, não se constitui
exceção. Os protagonistas Roy Scheider e Meryl Streep
desempenham seus papéis com satisfação. Na trama, Scheider
é o psiquiatra Sam Rice. Ele deixa de lado sua ética e
impassível distância frente aos problemas de seus pacientes
quando passa a se interessar profundamente pelo caso de
um deles, George Bynum (Josef Sommer), que foi assassinado
a punhaladas. O motor de tal curiosidade de fato é uma
enigmática loura que chega de súbito em seu consultório,
Brooke Richards (Streep), se dizendo amante da vítima.
Rice, já suficientemente colocado na linha de visada do
assassino por ser o psiquiatra dele e portanto saber de
seus segredos, se enamora de Brooke e passa a correr perigo
ainda maior.
O correto emprego do flashback, apresentando tópicos
das sessões entre Bynum e seu médico, ajuda a criar um
clima de mistério justamente ao descortinar o passado
do falecido, jogando pistas que podem - ou não - levar
à descoberta do assassino. Entrementes, Benton (também
roteirista da obra) procura fugir um pouco de um suspense
mais tradicional para fazer uma deliberada homenagem ao
grande mestre do gênero, Alfred Hitchcock. O ponto alto
dessa menção é a cena do leilão, claramente inspirada
em "Intriga Internacional" (1959). Além disso,
não se pode negar a bem construída sequência ambientada
no Central Park à noite (a parte final da mesma foi parcialmente
absorvida por "Valente" (2007), onde Neil Jordan
tentou fazer um "policial de arte" sobre um roteiro nitidamente
xerocado de "Desejo de Matar"), que não faz feio
diante dos ensinamentos do mestre.
Talvez ainda melhor é a cena do sonho de Bynum, caldeando
horror e mistério com esmero visual e amparada em signos
psicológicos, com resultado bem superior ao esperado.
Interessa destacar a bela fotografia em toda a película
de Néstor Almendros, habitual colaborador de Benton: trabalhou
com ele desde o final dos anos 70 até "Billy Bathgate
- O Mundo a Seus Pés" (1991), também último
filme do espanhol, rodado pouco antes de falecer em 92.
Uma vez que se trata de uma homenagem, e realizada por
alguém enquanto diretor cujo terreno de domínio é o drama
(como roteirista, já havia mostrado talento para a ação,
como em "Superman" (1978) e "Bonnie e Clyde
- Uma Rajada de Balas" (1967)), o resultado não é
soberbo, evidentemente. Existem falhas, como a total ausência
de humor - algo imperdoável em meio a um filme de tensão,
diria Hitch - e uma engasgada conclusão, ingênua e até
um pouco absurda: querendo surpreender o espectador, quebra
certo grau de coerência até então desenvolvido e resulta
bastante desajeitada.
Benton pode não ser um mimetizador tão eficiente como
De Palma quando o assunto é Hitchcock, mas ao menos mostra
que sabe brincar com os divertimentos do lendário mestre
- este muitas vezes imitado, nunca igualado.
NA CALADA DA NOITE (Still of the Night,
EUA, 1982)
Direção: Robert Benton.
Elenco: Roy Scheider, Meryl Streep, Josef Sommer,
Jessica Tandy, Joe Grifasi.
Cotação: *** |
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