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PERDÃO,
SENHOR, MAS SEUS TENTÁCULOS ESTÃO APARECENDO
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Alexandre
Mesquita
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A relação do escritor Stephen King com o cinema é tão
fecunda quanto cheia de maus tratos. O talvez melhor escritor
de terror moderno morre de medo do que os produtores irão
fazer com as histórias apavorantes que ele escreve com
tanto amor e carinho. É inegável que alguns frutos de
sua imaginação renderam grandes filmes como O Iluminado,
Carrie, A Estranha, Louca Obsessão. No meio
termo aparecem os que não seriam boa coisa, mas que por
alguma qualidade acidental viraram cult, como Cemitério
Maldito. Contudo, como tendemos a lembrar das ruínas
pelo caminho, Sonâmbulos, O Apanhador de Sonhos,
A Revolta das Máquinas, It, e tantos outros
que transformam qualquer locadora em lugar mal-assombrado,
porque representam nossos piores pesadelos, os que tem
a ver com tempo e dinheiro jogados fora.
Frank Darabont, diretor e roteirista, tem no histórico
conseguir muito bem duas coisas: extrair o melhor dos
atores e compor cenas que misturem cotidiano com fatos
incomuns, gerando momentos inusitados e interessantes.
Pois este cara é dos poucos que conectaram-se positivamente
com a obra do "sofrido" escritor americano. Embora leve
a fama de artífice do terror, Stephen King por vezes tentou
dizer ao mundo que não se limitava a este gênero, que
também sabia escrever passagens bonitas e tocantes. Enquanto
milhares de pessoas davam gargalhadas, Darabont aproveitou
para apresentar Um Sonho de Liberdade, filme que tangencia
a obra-prima afetiva, através de um estudo da injustiça,
do cárcere, amizade e persistência, que ainda leva a fama
de ter um dos melhores roteiros já escritos. Para deleite
do escritor americano, este roteiro é fidedigno à novela
Rita Hayworth e a Redenção de Shawshank, uma das
quatro que compõem o livro Quatro Estações (do
qual também saiu O Aprendiz, com Ian McKellen).
Enquanto King ainda dava gargalhadas da cara de milhares
de pessoas, o parceiro Darabont apresentou À Espera
de um Milagre, recebido com muita expectativa. Gigante
negro (Michael Clark Duncan) com poderes mágicos, gestos
bondosos e que morre de medo de dormir no escuro, é acusado
do assassinato brutal de duas meninas. Enquanto espera
a sua morte pela justiça, desenvolve amizade com o chefe
da guarda de execução, interpretado por Tom Hanks. Diz
a norma da prudência que time que está ganhando permanece.
Novamente temos o cenário da prisão, novamente a amizade,
novamente condenação injusta. Algum sobrenatural para
temperar. Inspirado na novela de King O Corredor da
Morte, feita sob encomenda, no formato de comércio
literário na Internet, escrita em capítulos liberados
após os fãs pagarem por eles (eu não consigo admitir que
um escritor deixe de concluir uma história que o apaixone,
mesmo se não for pago; história que não apaixona o autor
termina em tramas artificiais, trechos poucos inspirados;
e eu não pagaria por ela). Um Darabont pressionado compôs
um bom filme, porém mais fraco que seu antecessor, por
se mostrar irregular - ótimas passagens entremeadas com
lacunas e soluções óbvias.
Percebendo o perigo de estar com a carreira condenada
ao fantasma de um filme só, o diretor deu cartão vermelho
para Um Sonho de Liberdade, no sentido de compromisso
artístico. Fugindo de qualquer sentimentalismo, mas sem
fugir de Stephen King, resgatou um conto do livro Tripulação
de Esqueletos (1986) e realizou O Nevoeiro
(The Mist, EUA, 2007), onde o terror e o sobrenatural
aparecem com força, mas de forma um pouco diferente. Embora
provoquem lá suas mortes, eu diria que estão mais para
vítimas.
Numa pequena cidade americana, uma tempestade provoca
diversos prejuízos. Os cidadãos correm ao supermercado
para garantir estoque no caso de racionamento. David Drayton
(Thomas Jane), artista de pôsteres para o cinema, vai
para lá com o filho, dando carona ao vizinho. No mercado
encontram outros cidadãos. Todos sorriam para todos. Frente
ao pequeno contratempo coletivo provocado pela tempestade,
esquecem das divergências enquanto enchem os carrinhos.
Por exemplo, Drayton um ano antes perdeu um processo para
o mesmo vizinho que deu carona. Tudo ia bem com a nobreza
humana até que uma espessa neblina toma conta do lado
de fora do estabelecimento e traz consigo algo estranho.
As pessoas lá de dentro não conseguem ver bem ao certo,
mas como, de cada dez infelizes que andavam nela apenas
um não morria imediatamente, o negócio parecia complicado.
A ameaça vai se mostrando aos poucos: um tentáculo cheio
de dentes pontiagudos, um bicho que parece uma mistura
de dinossauro com morcego, vespas e aranhas super-nutridas.
Todas essas criaturas parecem saídas de um filme B, algumas
descaradamente mal feitas, e isso pode gerar a falsa impressão
que o filme cairá para esse lado, o que é errado. Há um
surpreendente propósito escondido. Nos olhares aterrorizados,
os humanos, agora oficialmente presos no supermercado,
estabelecem a regra da sobrevivência. União. Mal sabem
eles o que os espera deles mesmos.
O tempo passa. As pessoas entram em estado lastimável
de conservação de paciência. A cooperativa União dá sinais
que não suporta a longa espera, isso que se passaram apenas
dois minutos. Surge o grupo dos que defendem que a esperança
de sobreviver está na luta contra o inimigo, e saem do
supermercado. É depois que estes morrem (de forma B) que,
ao certo, o filme começa em suas reais intenções.
O horror, o horror!
Coisas terríveis e imprecisas atacam lá fora. Aliás, reparando
bem, pensaram os enclausurados no segundo olhar que deram
uns para os outros, elas parecem muito com esse cara aqui
que está me devendo dinheiro. Aquele ali que tem uma religião
diferente, então, parece esconder tentáculos debaixo da
roupa. Esse do meu lado, que sempre pensou diferente de
mim, agora posso afirmar com certeza, come carne humana,
e mal passada. Ainda bem que notei a tempo, ou não?
Lutar pela sobrevivência transformou o supermercado em
uma caverna, e os homens em seus próprios primórdios.
Surgem os estereótipos - a religiosa, o insano, o "em
cima do muro", o que pende para qualquer lado, os militares,
o mocinho e seu filho. Dividem-se em duas grandes facções,
mas prontas a ruírem em sub-facções e assim por diante
se for o caso. Confinadas, não sabem o que fazer uma com
a outra. O que vem daí em diante dá para encurtar na seguinte
situação: um tentáculo gigante, de dar orgulho a qualquer
produção orçada em quatro salários mínimos, encontra uma
brecha na parede e vai entrando sem ser percebido. Quando
está prestes a atacar, as facções se viram para ele e
dizem: Não enche! O tentáculo sai de fininho apavorado,
deixando para trás um cenário de guerra.
Sempre ouvi dizer que a humanidade tende a se unir caso
apareça uma ameaça em comum. O filme diz que não é bem
assim. Os homens se unem desde que não precisem saber
que o desodorante do vizinho tem dez minutos de validade.
Ser bom e solidário requer espaço, fronteiras bem delimitadas,
mas que não possam ser medidas somente com réguas de trinta
centímetros. Se não, mesmo o mais sábio dos homens tenta
construir o lar de suas idéias e crenças no meio, ou em
cima, de quem está do lado.
A trama do filme prende, as tensões são múltiplas e todas
bem encaixadas. O protagonista até surpreende, já o vi
cometendo coisas que não o credenciariam a encarar este
personagem ou a limpar meu banheiro (O Apanhador de
Sonhos), mas aqui ele se sai bem. Marcia Gay Harden,
no papel da religiosa oportunista Carmody, é a dona do
filme e a maior parte dos imbróglios gira em torno dela.
O restante do elenco, alguns acostumados a trabalhar com
o diretor, dá consistência.
Portanto, se em O Nevoeiro Darabont tentou radicalmente
se livrar das expectativas emotivas que se criaram em
suas duas parcerias anteriores com King, foi muito bem
sucedido, criando, talvez, um novo parâmetro em sua carreira.
E o que dizer do final? É para poucos. Tão dramático e
pessimista que chega a soar como uma verdade dita na cara
carregada de ironia. Parabéns, Frank, que maneira corajosa
de resumir uma raça.
O NEVOEIRO (The Mist, EUA, 2007)
Direção: Frank Darabont.
Elenco: Thomas Jane, Marcia Gay Harden, Andre Braugher,
Toby Jones, Laurie Holden, Chris Owen, William Sadler.
Cotação: ****
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