O CHOQUE E O VAZIO
Pedro Garcia
 
 

Dizer que A Professora de Piano (2001) é um título chocante, é pouco. Mais do que isso, o clássico de Michael Haneke enoja, confunde e machuca. Falamos de um filme que não hesita em invadir uma intimidade asquerosa e nos desafia a compreender um comportamento violento e perturbado.

A magnífica Isabelle Huppert aparece aqui como Erika, uma talentosa professora do Conservatório de Viena. Aos 40 anos, vive com a mãe (Annie Girardot) e mantém com ela um relacionamento instável. Secretos são os seus deleites pela automutilação e o voyeurismo. Sua vida é transformada quando conhece Walter (Benoit Magimel), um jovem que tenta conquistá-la a todo custo.

Acusações de pura apelação pela imagem impressionável contra qualquer outro filme de Michael Haneke seriam injustas. É verdade que o diretor alemão sempre foi talentosíssimo ao unir a perturbação com a crítica social e a estrutura inteligente. Isso não se aplica ao filme em questão.

Aqui, a seqüência de episódios indigestos vai nos distanciando da personagem a cada minuto até chegarmos ao ponto de querermos nos livrar daquele universo demente. Quando a história termina, ficamos sem entender a razão. Nada há por trás do retrato intimista provocante - a não ser, um conjunto de excelentes interpretações (não é à toa que o casal protagonista foi premiado em Cannes).

O valor da obra está justamente aí, dirão alguns. Até pode ser. Talvez a intenção tenha sido essa mesma. Mas a pergunta que inevitavelmente fica no ar, quando colocamos este ao lado de outras produções hanekianas, é: por quê? O fato é que depois do revertério, aquilo que o filme nos deixa é um doloroso vazio.



A PROFESSORA DE PIANO (La Pianiste, Alemanha / Polônia / França / Áustria, 2001)

Direção: Michael Haneke.

Elenco: Isabelle Huppert, Annie Girardot, Benoit Magimel.

Cotação: **

Este artigo é parte integrante da série de textos "Sextas-Feiras com Haneke". Confira a série completa de artigos sobre os filmes do cineasta.