POBRE MILIONÁRIO
Ricardo Rangel
 
 
"Quem Quer Ser um Milionário?", do quase sempre bom diretor, outrora alternativo, Danny Boyle (o empolgante "Cova Rasa", o excelente "Trainspotting", e alguns poucos deslizes - tal o fraco "A Praia" -, só para citar algumas realizações suas) é produção ambientada na Índia que ganhou recentemente oito prêmios do Oscar, incluindo os de melhor filme e de melhor diretor. Entretanto, tal premiação não convence, pois o filme em si é, de certa forma, um embuste.

A história de dois irmãos favelados de Bombaim (agora Mumbai, fruto da tão falada "globalização"...), Jamal e Salim, busca fundamentos nos clichês para narrar uma trajetória de vida que conduz ambos a pontos extremos nas suas conturbadas existências paupérrimas. Salim trabalha para um ex-traficante e barra pesada de um subúrbio de Mumbai, mau elemento esse que casou com a queridinha de Jamal na infância e adolescência, Latika (uma bela indiana, aliás uma das poucas coisas boas do filme). Por sua vez, Jamal participa de um programa chamado "Quem Quer Ser um Milionário", atração televisiva de perguntas e respostas ao estilo do "Show do Milhão" de Sílvio Santos na versão brasileira. Existiria um suposto esquema de manipulação para que Jamal não ganhe o prêmio máximo, afinal de contas ele é um pobre favelado e de pouca instrução, que utiliza suas vivências no submundo para "chutar" as respostas certas. A narrativa toda é contada alternando Jamal no programa com o debochado e sarcástico apresentador e o público torcendo por si, com cenas exteriores em flashback, como as de sua tortura numa delegacia de polícia e a infância com Salim e Latika, bem como do emprego de Jamal servindo chá num call center e ouvindo atentamente tudo que acontece à sua volta.

Os problemas e as incongruências do filme, então, começam aí: a narrativa é mal-costurada e contada frouxamente. Os primeiros dois terços do filme de duas horas são deveras aborrecidos, sonolentos, apáticos, não focando a contento nem no show de TV, nem nas torturas, nem na infância do protagonista. A pretensão de contar uma história de redenção de um jovem pobre e humilde que se supera num ofício que não é seu desanda exatamente na sucessão de clichês de que o filme abusa, quando deveria diametralmente se afastar deles, que são inúmeros ao longo da projeção. As cenas finais, também em função disso, deixam então de serem modorrentas para se tornarem algo pior: apresentam-se patéticas, previsíveis e romanceadas por um viés água-com-açúcar incrivelmente constrangedor.

O ator indiano que interpreta Jamal tem um certo carisma em cena, mas insuficiente para evitar o naufrágio da produção. Danny Boyle, desta vez - assim como em "A Praia" e "Por uma Vida Menos Ordinária" - errou a mão: seu show para transpor Bollywood a Hollywood tem alguma pirotecnia, mas pouco conteúdo, carregando um resultado que se mostra piegas demais. Nesse caso, não vale a pena querer ser um milionário tentando a sorte no "show do milhão" hindu, pois nem mesmo a belíssima cultura indiana é decentemente apresentada ao mundo ocidental, surgindo artificializada, desnatural no contexto. E não adianta nada pedir ajuda aos universitários...



QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO? (Slumdog Millionaire, Grã-Bretanha, 2008)

Direção: Danny Boyle.

Elenco: Dev Patel, Freida Pinto, Anil Kapoor.

Cotação: **