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GIGANTE
CONVENCIDO E AMADO
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Alexandre
Mesquita
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Quando terminou o primeiro episódio da primeira temporada,
desliguei a televisão e fiquei olhando a tela angustiado.
Olhei tanto que auto-hipnotizei e tive um delírio. Da
tela saiu uma loira desconcertante, vestindo somente colar
e sapatos. Fiquei feliz, porém meio desconfiado. Sem saber
o que falar de inteligente, irônico e erótico, acabei
sendo eu mesmo: sinto lhe comunicar que você acaba de
me ganhar como fã. A loira deu um sorriso malicioso e
respondeu que estava muito calor, tirou o colar, os sapatos
e a minha roupa. "Samantha, é você mesmo!",
exclamei emocionado e a abracei. E ela também ficou emocionada,
mas não ficou só no abraço. Depois, deitados, fumamos
um cigarro e eu finalmente perguntei o que me angustiava.
Vem cá, aquela cena em que vocês conversavam dentro do
táxi, que o motorista paquistanês freou meio perturbado,
a piada foi sobre sexo anal mesmo? Depois da resposta,
eu não perdi um episódio da revolucionária série de TV
da HBO que durou seis temporadas, mais de cem episódios.
Fui no ano passado ao cinema assistir a Sex and the
City - o Filme (Sex and the City, EUA, 2008)
- agora disponível em DVD - achando ridículo o debate
que se instaurou. Era um filme de Sex and the City
ou um episódio estendido de Sex and the City? Pergunto,
qual a diferença? Porém, ao sair da poltrona vi que o
negócio é mais complicado. É sim um episódio estendido,
mas é mais complicado. Pena…
Vou tentar ser mais claro.
O quê o diretor Michael Patrick King (diretor e roteirista)
e demais produtores poderiam fazer? O primeiro vínculo
obrigatório, que possui cinquenta e um por cento das ações
em qualquer projeto "Sex and the City", é a presença de
Sarah Jessica Parker, Kim Cattrall, Cynthia Nixon e Kristin
Davies. Não, de maneira nenhuma, impossível, crime inafiançável
trocar as atrizes - ela são a química que fez o coquetel
sexo com Nova York uma explosão nuclear captada
até nos mais recônditos costumes sexuais do planeta. Tanto
que este longa era para ter saído há mais tempo, não fosse
Kim Cattrall, a voraz Samantha, exigir cachê semelhante
ao de Sarah Jessica Parker, produtora executiva e intérprete
da protagonista Carrie Bradshaw. Se não houvesse acordo,
nem precisava do filme.
Mas...acordo feito, garantidas as atrizes, o que fazer?
Recontar a história de todo? Seria impossível, porém não
porque teria de se concentrar seis temporadas em duas
horas. Seria ingrato como esculpir uma montanha para fazer
um Buda de bolso, mas possível. O impossível é que as
quatro atrizes deveriam voltar para dez anos atrás, quando,
no primeiro episódio, cada uma apresentou seu ecossistema
- a cidade de Nova York, cheia de predadores e presas
no campo do sexo (e em outros também), no mesmo tempo
que a Big Apple as apresentou como suas habitantes menos
diferentes das mulheres solteiras, independentes, na fase
de transição entre os vinte e trinta anos (idade em que
a vida começa, como sempre dizem os que lamentam a possibilidade
de voltar à adolescência) que nela viviam em busca, cada
uma à sua maneira, do parceiro dos sonhos. E enquanto
este não aparecia, o sexo casual, quando conseguido, vinha
muito bem, obrigado.
As quatro atrizes hoje já não convenceriam mais como as
mulheres que representaram dez anos atrás. As personagens
envelheceram com elas. Seria como fazer um filme com início,
meio, fim e vontade de lamentar o absurdo.
E se, então, fosse apenas (apenas?) trazer de volta as
mesmas teorias e práticas divertidamente nuas e cruas
a respeito do sexo, delimitadas pela complexa e multidimensional
geometria da cidade, com suas avenidas retas como o olhar
apressado dos cidadãos na superfície do dia e a obsessão
dos mesmos em terminar com uma companhia horizontal à
noite, com as curvas que iniciam uma esquina e terminam
num coquetel cheio de gente vip e petiscos dos mais improváveis
de estar num prato de comida, com os seus restaurantes,
lanchonetes e bistrôs cheios de erotismo fast-food
e seus preços medidos em grifes de roupas e sapatos
caríssimos, mas que entram e saem do corpo das meninas
a toda hora? Cidade com os retornos de trânsito confusos,
que podem levar ou para a segurança do lar ou para as
tentações perigosas das festas mais exóticas que as más
intenções de um noite podem conceber, com as lojas de
sapatos cheias de preços fora da realidade e suas inacreditáveis
listas de espera, com as escadas que juram que vão para
os subterrâneos do metrô, mas como bons lobos maus, são
na verdade portais para o mundo underground das
coisas menos recomendadas pelo bom senso. Lá onde é fácil
de encontrar supermodelos e bilionários, com as fugas
para o balneário chique de Hamptons, cujas praias já viram
de tudo seja sob o sol, seja sob a lua; com as galerias
de arte que sempre possuem um lugar mais reservado para
que as mãos façam arte, com as posições papai e mamãe,
por cima, por baixo, dos lados, tipo hetero, tipo homo,
que funcionam vinte e quatro horas como nunca havia sido
mostrado antes numa série de televisão.
Exemplos: num episódio havia uma exposição muito chique
de quadros apenas de pinturas de vaginas, o lance era
descobrir qual mostrava a da personagem Charlotte. O episódio
terminou com as quatro amigas olhando para o quadro e
morrendo de rir (não, a pintura não foi mostrada). Noutro
episódio, a personagem Carrie descobre que os novos vizinhos
do seu apartamento são um casal que transa toda a noite
em frente à janela. Depois de acharem um absurdo, discutirem
a pobreza do vouyerismo e terem suas "caçadas" frustradas,
as quatro terminam a noite na janela de Carrie com uma
bacia de pipocas apreciando o casal. Acho que na quinta
temporada acontece a participação da Sônia Braga que,
além de uma relação amorosa com Samantha, ensinou (teoria
e prática) a respeito da ejaculação feminina além de ensinar
as quatro a falar em plenos pulmões b......., nossa
tradicional ode em português ao órgão sexual feminino.
Mas todas essas situações foram sempre colocadas num contexto
inteligente e bem humorado, nunca houve queda para o vulgar.
Portanto, sim, daria para trazer de volta o mesmo "espírito
da coisa". Mas nessas condições o filme NATURALMENTE se
torna o que ele nasceu para ser: um episódio estendido.
Pode-se, então, argumentar, que ao se fazer declaradamente
uma espécie de continuação, deixaria quem jamais assistiu
a série "boiando" em algumas partes. É, pode sim acontecer,
pode mesmo. Mas sabe o que o longa fará? Evocará o "poder".
Azar dele, dirá, com toda a autoridade de quem
pode se dar ao luxo de ser feito apenas para fãs mais
exaltados e ainda assim correr risco de bater recordes
de bilheteria. Seis temporadas, muitas abordagens sexuais
bem-sucedidas no currículo, elevação da palavras glamour
e frescura à condição de princípio básico da evolução
humana, assinado embaixo pelo terceiro mundo, criaram
um gigante em cuja carteira de identidade está escrito
genuíno e único.
A história começa a partir do fim da última temporada.
Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker) antigamente tinha
uma coluna de jornal sobre os costumes sexuais de Nova
York. Atualmente, escreve para a revista de moda Vogue.
Ela desfruta finalmente um bem-sucedido estado de romance
com seu eterno "alguma coisa" Mr. Big (Chris Noth), agora
chamado pelo verdadeiro nome, John. Ao fazer do ato de
procurar apartamento em Manhattan uma prática a dois,
os pombinhos começam a considerar uma certa hipótese.
Enquanto isso, Charlotte York (Kristin Davies), consultora
de arte, gaba-se de um casamento de sucesso com o advogado
judeu Harry (Evan Handler), e a filhinha chinesa. A também
advogada Miranda Hobbes (Cynthia Nixon) passa os dias
entre o trabalho, o filho de cinco anos (Joseph Pupo)
e o ato de se distanciar gradualmente do marido Steve
(David Eingenberg), tipo seis meses sem transar e contando.
A relações públicas Samantha Jones (Kim Catrall) mora
em Hollywood cuidando da carreira do ator-namorado Jerry
"Smith" Jerrod (Jason Lewis). Para quem a conhece, segure-se.
Ela mantém-se fiel. As quatro amigas levam suas vidas
em periódicos contatos até que surge o acontecimento que
as unirá novamente em grandes emoções, o casamento de
Carrie e Big. A partir disso, as alegrias e dramas das
personagens vão aparecendo e se emaranhando em torno deste
evento que, na série, parecia inacreditável. E claro,
mais do que previsto, nem tudo sai como esperado.
Foi o desbravar sexual que pautou a construção das personagens
Samantha, Miranda, Charlotte e Carrie nos primórdios da
germinação da série, a partir do livro homônimo de Candance
Bushnell. Para gerar contraste e boas histórias, era necessário
criar uma que ultrapassasse todas as fronteiras, uma que
ficasse no meio termo, uma que defendesse nossas avós
e outra que analisasse, tirasse conclusões e conduzisse
a festa. O quê o longa fez com elas?
Carrie Bradshaw é a narradora e concentra praticamente
todas as cenas como a voz alta dos questionamentos femininos
supremos dela, das outras três e talvez de todas as outras
mulheres do mundo. Seus comentários em off sobre divórcio,
comer para compensar solidão, incapacidade de engravidar,
tentação para adultério, etc., fazem pensar e divertem.
O longa não alterou em nada a sua boa e velha forma de
ser onipresente e complicada.
Samantha Jones, capaz de fazer um motoqueiro bigodudo
e musculoso pedir para ela ser carinhosa com ele, é a
moderna liberdade sexual feminina na virada do século
em pessoa (curiosamente, ela é uns dez anos mais velha
que as outras três). Protagonista das cenas e assuntos
de sexo mais ousados e divertidos da série, era/é sem
dúvida a de maior apelo entre o público feminino e masculino,
não necessariamente nessa ordem (para os trintões, a loirinha
de Os Aventureiros do Bairro Proibido). Deixou
Jessica Parker e seu dever de ser a estrela principal
a ver navios. Foi nítido que as interpretações para Carrie
sofreram mudanças pautadas no sucesso da colega/rival,
principalmente a partir da terceira temporada. Pois o
final de Samantha na série nunca me desceu. Não que ela
não pudesse se apaixonar pelo lorão Smith Jerrod, ainda
mais depois de tudo que ele fez para ela em termos de
demonstração de amor (como ficar ao seu lado no tratamento
do câncer), mas para um final que, no mínimo se coloque
como coerente com tudo que foi dito em seis temporadas,
não poderia terminar simplesmente no estilo do para
sempre com seu par do coração. A essência da personagem,
sua independência sexual debochada que ia da cama ao lustre
- e dava-lhe uma certa poesia -, ficou comprometida. Pois,
o longa veio para um acerto final, ou um conserto final.
E foi bacana: coerência é sempre bem-vinda.
Se Sarah Jessica Parker e Kim Cattrall trocaram rusgas
pelo cachê, nesta briga quem se deu bem foi Kristin Davies.
Surpreendentemente para mim, que sempre a achei meio chatinha,
ela provoca a sensação de que se tem alguém realmente
cumprindo o dever em tela é ela. Sua Charlotte foi a garota
que correu atrás do estereótipo príncipe encantado
a série toda, e terminou, na reedição de A Bela e a
Fera, com um baixinho careca, barrigudo e com alergia
à depilação nas costas, feliz da vida. Foi um final bacana,
mas não completo para quem torcia por ela. Charlotte também
passou as seis temporadas querendo muito um filho, enfrentou
abortos espontâneos e outras barras, e quando conseguiu
por adoção uma neném chinesa, esta tão aguardada só apareceu
em foto e deixou um epílogo vazio e menor frente às realizações
plenas das outras três amigas. Portanto, Kristin Davies
e sua Charlotte se esbaldam, aproveitam bem, se vingam,
roubando todas as cenas que aparecem.
Cynthia Nixon foi quem mais sentiu o tempo. As rugas na
boca evidenciam. Também pudera. Sua Miranda era a mais
séria e "realista". Foi sobre os ombros dela que pesou
o simbolismo da mulher moderna. Sem a verve de princesa
de Charlotte, nem de hidrelétrica do sexo como Samantha,
Miranda, advogada bem sucedida e competitiva, engravida,
cogita aborto, tem o neném, desdobra-se no papel da mãe,
sacrificando namorados e/ou parceiros sexuais, até reconhecer
o amor pelo barman Steve, o pai de seu filho. O final
de Miranda é o mais bonito da série. Após ter saído correndo
atrás da sogra esclerosada pelas ruas do Brooklyn (impensável
até então), ela recebe um beijo na testa da babá Magda,
que lhe diz: "você está amando". Miranda definitivamente
sai perdendo com este longa, quebrou-se um encanto que
não tinha o direito de ser quebrado.
Analisando agora o global, constata-se que Sex and
the City - o Filme, episódio estendido, realmente
tem Sex and the City. Começa ótimo, com um rápido e bem
bolado resumo das garotas em sua evolução pela série.
Dá espaço a personagens secundários heteros e homos em
situações sexualmente irônicas ou atômicas. Apresenta
diálogos montados numa inteligência leve, mesmo para coisas
pesadas, e por muitas vezes acontecem gols de craque,
como a piada do botox.
E claro, há muita moda brotando das partes do corpo das
quatro que nem sempre são aquelas que se esperam cobertas,
segundo certo padrão moral. Mas como quem as calça, cobre
ou perfuma é Manolo Blahnik, Roberto Cavalli, Dior, Carolina
Herrera, dá para afirmar que se partes pudendas ficaram
descobertas foi em nome do estilo e do bom gosto.
No entanto, no entanto, nem tudo são figurinos maravilhosos
no roteiro. De um momento para o outro, tá vou contar,
a partir da falha no casamento de Carrie, os acontecimentos
vão pulando de supérfluo em supérfluo como se precisassem
passar por uma lista de compras de tudo que já se tem
em casa. Já foi mostrada a parte do desfile de moda? Já.
Já passou a cena em que as quatro vão viajar para um lugar
distante sem dar muitas justificativas para maridos, namorados
e chefes? Já. Já aconteceu aquela guinada onde as coisas
estão bem, e de repente dá tudo errado, de repente volta
a dar tudo certo, para prender a atenção do espectador
e acomodar todo universo dramático sexual novaiorquino
de quatro mulheres no tempo de um episódio?
Já.
Houve uma obsessão muito grande de diretor e roteiristas
em fazer com que vários elementos da série estivessem
presentes, mesmo para em nada contribuir. Muita coisa
do meio para o fim soou desnecessária. Pena. Este longa
naturalmente era para ser um episódio estendido. MAS QUE
NÃO DEVERIA FAZER FORÇA NENHUMA PARA ISSO, pois seria
o naturalmente era para ser que dava-lhe o charme,
que o diferenciava. Nivelando-se com os demais, ganhou
a concorrência de cento e tantos irmãos de apenas meia
hora e, humilhantemente, muitos deles bem melhores.
O tão esperado longa acabou sendo um simples episódio
estendido demais. Mas como também nunca houve um episódio
ruim, como é inegável que, só a idéia de rever Carrie,
Samantha, Charlotte e Miranda compensa, e como um certo
gigante, genuíno, único, que corre o risco de bater recordes
de bilheteria, dirá "azar, morram de inveja",
acho que pelo conjunto da obra, seis temporadas, muitas
revoluções sexuais, dá para no fim de tudo dizer em delírio:
desculpe, eu estou um pouco nervoso, é o trânsito, adorei
você ter vindo.
Deitados fumamos um cigarro, no cinema mesmo.
SEX AND THE CITY - O FILME (Sex and the City,
EUA, 2008)
Direção: Michael Patrick King.
Elenco: Sarah Jessica Parker, Kim Cattrall, Cynthia
Nixon, Kristin Davies, Chris Noth, Jason Lewis.
Cotação: ***
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