CONTEXTOS, VEROSSIMILHANÇAS E MELANCIAS
Alexandre Mesquita
 
 
Cena verídica que passou na minha TV. A mãe fugiu com o filho pequeno nos braços. As tias queriam matá-lo. Correram atrás e conseguiram cercar a mãe que, não tendo mais para onde fugir, estendeu a mão pedindo misericórdia. Não adiantou.

Vocês já viram um bebê ser maltratado? Eu já. E doeu, doeu muito não poder fazer nada aqui do meu lado da tela. Um dos piores momentos da minha vida.

Mas não condenei as tias. Entendi perfeitamente o seu contexto. Calma, não se precipitem em julgar agora isso que falei, pois essa posição ficará mais clara adiante, quando o contexto dessa situação for explicado.

Um filme que contém cenas de estraçalhar os brios da gente marca para sempre, é certo. Pergunta, então: apenas isso o torna um bom filme?

A questão me ocorreu depois de assistir outro filme, também contendo imagens cruas de violência contra um indefeso, Um Crime Americano (An American Crime, EUA, 2007). Logo após o "The End" sentei na frente do monitor para pescar na Internet opiniões alheias, e saber se eu estava sozinho ou acompanhado na minha. Encontrei muitos elogios para o acertado "afastamento da câmera" do diretor Tommy O'Haver (Uma Garota Encantada), que deixou o drama das imagens falar por si, quase como um documentário. Certamente trilha sonora, movimentos arquitetados de câmera, e outras coisas pensadas artisticamente, exacerbariam o potencial para pieguice do filme. Palmas ao diretor.

Vocês já pensaram em tacar fogo na tela de um monitor? Eu já.

Baseada em fatos verídicos, a história se passa na década de sessenta na conservadora cidade americana de Indianapolis. Para não interromper os estudos, duas irmãs, Jennie (Hayley McFarland) e Sylvia (Ellen Page) Likens, filhas de artistas de circo, são deixadas pelos pais, vinte dólares por semana, aos cuidados de Gertrudes Banizewski (Catherine Keener), mulher de aparência sofrida e inofensiva, cujo sorriso de quem vai sempre à igreja disfarça uma cabeça complicada. Com vários filhos de diferentes pais sumidos, anda sempre desesperada atrás de dinheiro, primeiro para sustentar o amante mais novo (James Franco), depois para sustentar remédios tarja preta, e depois o resto.

Precisamente nessa ordem.

Paula (Ari Graynor), a filha mais velha de Gertrudes, engravida de um homem casado. A guria se desdobra para manter a verdade longe da mãe. Porém, confidencia a Sylvia, sob juramento desta jamais contar a ninguém. Dias depois, para salvar a amiga grávida de ser espancada pelo pai da criança, e o motivo não foi ele ter descoberto - o homem casado estava apenas exercitando seu modo de resolver as coisas com quem lhe enche o saco -, Sylvia revela a gravidez dela.

A sã e salva, mas indignada, Paula, começa a espalhar pelos quatro ventos que a ex-amiga a está caluniando por pura maldade. Quando chega aos ouvidos de Gertrudes que a gravidez da filha é culpa de Sylvia, a mulher que já era doida enlouquece oficialmente.

Para a vingança, recruta um exército de "maltratadores" de adolescente mirrada e indefesa. Basta ter mais de seis anos de idade e estar armado. A fisicamente frágil personagem de Ellen Page sofre um flagelo absurdo. Mutilada, queimada, cortada, espancada. As pessoas do bairro, dos oito shopping centers da cidade, do time de futebol americano, da torcida do time de futebol americano, etc, ajudam, e o pior, com gosto. Se alguém lembrar da famosa fila para acalmar uma passageira surtando em Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu, é exatamente aquilo, só que levado às últimas consequências e sem graça nenhuma.

Apesar dos bons desempenhos de Catherine Keener e da engraçadinha Ellen "Juno" Page, feita sob encomenda para sofrer, e do interessante final do filme, onde a narrativa quebra a sua conduta realista, caindo para o transcendente, não gostei de Um Crime Americano.

O problema não é o sofrimento de Sylvia, esse daria um filme (brincadeirinha), nem a atitude dela difícil de engolir, tem quatrocentas e noventa e duas chances de fugir da casa de Gertrudes, mas sempre volta, e só resolve fugir mesmo depois de morrer (contei, azar). O problema é a falta de cuidado com uma palavra chamada contextualização, que dá suporte a uma outra palavra importante chamada verossimilhança.

Por exemplo...

Se um filme inicia mostrando a vida do cara que só fala em melancia, que conhece dois mil tipos diferentes de melancia, que sonha encontrar a melancia perfeita, e um dia cai do céu exatamente na frente dele uma que tem escrito no adesivo com um código de barras grudado nela, made in heaven, o que o amante das melancias fará? A maioria do público, que por uma hora inteira acompanhou sua vida, apostará que não vai sobrar nem a casca. Mas se ele der as costas e for embora? Filme perdido? Pelo contrário, gerará estranhamento, - porque o desgraçado não comeu? -, tão querido para segurar o interesse do público. Aí teremos mais uma hora para descobrir um drama antigo e escondido do personagem, o assassinato do seu pai, que teve a garganta cortada por um adesivo com código de barras de uma melancia made in heaven.

Esses são sujeito e situação contextualizados.

Por outro lado, se o sujeito criado e crescido no amor incondicional por melancias, que sonhou, mostrou, fé e esperança em encontrar a melancia perfeita, capturando-nos emocionalmente, a ponto de torcemos por ele de punho fechado, encontrar no chão um pente e uma tesoura, e começar a cortar cabelos e o filme terminar assim? O que resta a nós do público se não ter de engolir aquela terrível sensação de vazio existencial, chamada dinheiro jogado fora?

Esses são sujeito e situação não contextualizados, compondo um conjunto inverossímil, segundo expectativa criada.

Detalhe, não confundir verossimilhança com obediência à realidade. Guerra nas Estrelas desafia todas as aulas de física do colégio, mas é plenamente verossímil dentro do contexto que foi apresentado (inclusive deixaria de ser se começasse a obedecer Newton).

Pode-se alegar que no caso não contextualizado, diretor ou roteirista estão a tentar inovar, quebrando o jeito tradicional de contar histórias, Cinema Novo, Nouvelle Vague, e tal. Tudo bem: na arte, em tese, tudo é possível. Mas também a arte é mais calcada nas impressões do que na lógica em que se vive. O trabalho de contextualização é uma das partes mais difíceis de uma obra cinematográfica, literária ou de quadrinhos. Projetos que prometem muito podem fracassar na qualidade final pela má execução deste compromisso.

Se o público ficar mais incomodado com a reação do personagem ("imagina, o louco por melancias virou cabeleireiro"), do que gratificado com a solução genial e inovadora do diretor ou roteiro, isso na minha ótica significa mais problema do que mérito.

Em Um Crime Americano, especificamente, não que não haja nenhuma contextualização. A perturbada personagem de Gertrudes é maravilhosamente bem construída e desempenhada por Keener, o que ela fizer de mal eu entendo. Porém, é apenas ela e mais dois ou três personagens que cabem dentro da minha carroça um ponto zero.

Número não suficiente para sustentar um dos alicerces de impacto da história, os vários personagens que participam da barbárie. Destes, reclamo, e com veemência. Tiveram suas personalidades apresentadas pela câmera documental, seca e sem firulas do diretor apontando para uma direção e, sem mais nem menos, invertem e estão lá espancando a menina.

Pode-se alegar que na sociedade "real" psicopatas vivem entre nós como pessoas normais que de repente dão vazão a seus instintos assassinos. Tudo bem, mas sempre ouvi que estes são um entre milhares, na média "real". Pela quantidade de psicopatas per capita mostrada no filme, acho que nunca porei os pés em Indianapolis, principalmente num jardim de infância.

Na minha opinião, portanto, deveria ter sido indicado nas aparições dos personagens mais malvados do filme (aqueles de boa índole), um pequeno desvio de conduta que nos deixasse com uma pulga atrás da orelha. Sei, sei, se fizer isso com todos as pessoas do bairro, dos oito shopping centers, do time de futebol americano e tal, o filme terá dez horas de duração.

Ah, o diretor que se vire. Como já falei, contextualização é uma das coisas mais difíceis numa obra, e quando ela é bem sucedida, com certeza vai para o currículo do realizador como um atestado de talento e competência.

Última tentativa da defesa. O filme é baseado em fatos reais. Segundo laudos do processo, foi assim que ocorreu em 1965, não tem porque acrescentar nada.

Sim, claro. Não sou contra o estilo documental, seco e sem firulas. Pode-se conseguir muita coisa apenas com uma câmera ligada, nada mais. Mas então é preciso dar o devido tempo. Aqui vem a questão das tias, da mãe e do bebê que ocuparam os três primeiros parágrafos deste texto. Acompanhei por semanas os vários capítulos de um documentário sobre a vida de um grupo de chimpanzés na África. Sem efeitos especiais, sem roteiros, nem diretores. Cara, que potencial dramático. As imagens dos dramas cotidianos dos macacos apresentadas com paciência, permitiram-me entender suas ações acima da bondade e da maldade, onde, por exemplo, tias precisavam matar o bebê da irmã rival para proteger os seus próprios filhotes do macho alfa. A câmera crua, documental, e paciente, me fez entender aqueles macacos, só espero que não terminem na mesma ilha deserta que eu habitasse.

O flagelo verídico de Sylvia em 1965 certamente teve bem mais de vida "real" para justificar contextualmente as coisas que aconteceram. O outro flagelo de Sylvia, o disponível em DVD, com uma hora e meia de duração, é incompleto, e por tal, sua câmera passiva, distanciada, deixando a realidade falar por si, consegue passar a mim apenas uma idéia abominável das coisas que o ser humano é capaz.

Não, não estou falando do espancamento covarde de uma menina. Falo da certeza que fiquei de que, nesses termos, até eu poderia dirigir Um Crime Americano, o que é tão abominável para os brios de qualquer um, que as pessoas do bairro, dos oito shoppings, do time de futebol americano, e tantas outras, estão lá fora me esperando com cara de poucos amigos e com adesivos de códigos de barra em riste.



UM CRIME AMERICANO (An American Crime, EUA, 2007)

Direção: Tommy O'Haver.

Elenco: Catherine Keener, Ellen Page, Bradley Whitford.

Cotação: **