|
|
|
|
| |
| |
| |
|
NEM
MESMO A MAIOR DAS REGRAS
|
|
Pedro
Garcia
|
| |
 |
| |
Que Michael Haneke prefere passar longe dos formatos
usuais, todos já sabem. Mas a audácia do cineasta alemão
em seu clássico Violência Gratuita (1997) extrapola
qualquer limite. Haneke quebra a mais sagrada regra do
cinema, e da dramaturgia de maneira geral; o primeiro
de todos os conceitos trabalhados em livros especializados
e salas de aula é aqui desprezado por ele. O que Haneke
faz é nada mais nada menos do que derrubar o chamado "quarto
muro". O termo é utilizado para designar a distância que
deve(ria) ser mantida entre o filme e o espectador.
Aqui, Haneke chama sua audiência para dentro da situação
retratada na tela. Mais do que isso, apela para uma cumplicidade
entre ela e dois personagens específicos. A experiência
seria agradável não fosse o papel cumprido por eles: assassinos
que mantem refém uma família que acaba de chegar para
uma temporada em sua casa de campo, humilhando-a e agredindo-a
sem uma razão aparente.
Um deles, interpretado pelo grande Arno Fritsch - o mesmo
de O Vídeo de Benny (1993) -, é responsável por
estabelecer a ponte entre as duas partes. Em um primeiro
momento, vira-se para a câmera e dá uma piscadela. Depois,
em uma situação de indecisão sobre o que fazer com os
reféns, põe-se novamente de frente e pergunta: "O que
vocês acham?". Mais tarde, quando o pedem que acabe com
o sofrimento, ele diz: "Mas vocês ainda não querem que
o filme acabe, certo?".
Nem a seqüência de cenas agressivas é tão poderosa quanto
essa quebra. Haneke põe o espectador ao lado dos vilões
e, assim, este assume parte da culpa pelo sofrimento dos
reféns. E em um determinado momento, acontece o inverso:
os assassinos assumem o posto de observadores da situação
e até se mostram capazes de interferir na história - com
o uso de um controle remoto, voltam no tempo e corrigem
uma reação de uma das vítimas (tão abstrato que chegamos
a recuperar a crença no real e uma ponta de decepção surge
no peito).
A ousadia do diretor também aparece de outras formas -
como, por exemplo, no longo take de uma das reféns tentando
libertar-se das fitas que a prendem. Mas a ruptura, de
forma tão apelativa, da linha invisível que historicamente
separou a audiência da imagem projetada, é o que sustenta
a obra. Sem ela, o enredo se perderia no senso comum.
Violência Gratuita é a prova de que Haneke sabe
o que faz.
VIOLÊNCIA GRATUITA (Funny Games, Áustria,
1997)
Direção: Michael Haneke.
Elenco: Ulrich Mühe, Susanne Lothar, Arno Frisch,
Frank Giering.
Cotação: ****
Este artigo é parte integrante da série de textos "Sextas-Feiras
com Haneke". Confira, pois a cada sexta há a publicação
de um artigo inédito. |
| |
|
|
|