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O
BOLO É UMA DELÍCIA, MAS A CEREJA...
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Alexandre
Mesquita
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As técnicas de animação atuais chegaram a um nível de
excelência absurdo. O papo de um animador hoje é o
senhor pode pedir qualquer coisa, não só materializaremos
o pedido como o faremos durar uma hora e meia e ainda
chamaremos de grande sensação da temporada, censura dez
anos. Sério, não há mais limites, investimento garantido.
Então por que Wall-E (idem, EUA, 2008) se
passa 700 anos no futuro e tem a textura dos desenhos
antigos, dos recursos animatrônicos e stop-motion
ultrapassados? Então por que Wall-E, em vez de distribuir
óculos escuros com mira a laser para seus personagens,
roubou o olhar de Charles Chaplin? Então por que ele pode
ser o indicativo que talvez meu grande sonho para um desenho
de ficção científica tenha chegado?
Quando se acha que se sabe tudo, o que não se sabe pode
virar um delicioso bolo.
De olhos tristes e curiosos, fascinado por musicais americanos
antigos, o robozinho Wall-E é um faxineiro do apocalipse
no meio de cenários com fotografia em tom amarelo gasto.
Fez parte de uma divisão de robôs criada para reorganizar
o lixo que tornou o planeta Terra inabitável. Os humanos,
entenda-se responsáveis, migraram para gigantescas naves
espaciais. Sem manutenção, os Wall-E foram parando pelos
caminhos da existência. Apenas nosso obstinado herói agüentou
o batente graças à auto-reciclagem. Salvo da solidão pela
amizade de uma baratinha (interessante, e pouco explorada)
ele vai empacotando entulhos até que um dia no céu surge
uma espaçonave. Dela sai uma robô de nome EVA, enviada
pelos humanos para averiguar as condições do planeta.
Nosso herói encanta-se com a fêmea metálica, dona de um
arsenal capaz de gerar uma explosão nuclear em nome da
TPM. Imaginem um cara presenteando a amada com uma bola
de futebol que ele pedirá emprestado todos os sábados
e nunca devolverá. É nesse espírito que Wall-E vai tirando
coisas do seu lixo particular e oferecendo a EVA. Paixão
siderúrgica que emula o relacionamento puro de duas crianças.
Uma plantinha faz a robô retornar animada aos seus superiores,
relatando que a vida começava a renascer na Terra. Leva
a tiracolo seu apaixonado. Ao encontrar aqueles que o
criaram e deixaram para trás, o robozinho, que só pensa
na amada, causa uma revolução na base da ingenuidade sortuda.
Divertido, terno, boas risadas, cenas antológicas como
o balé de Wall-E e EVA no espaço, inteligência com atmosfera
de originalidade graças à união de Jornada nas Estrelas
com o cinema mudo. As músicas de Alô, Dolly! contrastando
inusitadamente bem com o apocalipse futurista. E referências
mais. Na insubordinação do robô-controle da espaçonave-lar-dos-humanos
há uma cantada explícita para 2001, Uma Odisseia no
Espaço. Além de generosos flertes com Náufrago,
Muito Além do Jardim, Short-Circuit, entre
outros.
Ótima sacada do diretor e roteirista Andrew Stanton (Procurando
Nemo) é a crítica contra a dependência do conforto
tecnológico. Os humanos na nave são obesos, pois substituíram
a capacidade de andar por poltronas flutuantes, e assim
podem viajar de primeira classe da cozinha ao banheiro.
É necessário um robô para resolver o problema de quem
cai da poltrona, e outro robô para resolver o problema
desse robô.
Em dois terços de sua metragem o filme não é uma animação
de fórmula, daquele tipo mocinho e mocinha numa aventura
de aprender lições sobre a vida e ficar juntos, não é
o fácil e o bonito dentro do de sempre. Está em vantagem
de qualidade, portanto, frente ao seu rival na temporada,
Kung Fu Panda, que vende criatividade nos cenários
e no kung fu, mas é padronizado, mocinho, "irmandade zen
para o bem", etc.
Nestes dois terços não sabemos para onde a originalidade
gráfica retrô (desenho de produção de Ralph Eggleston),
a paixão entre os robôs, as citações a outros filmes,
a sátira aos costumes, nos levarão. Já o garante como
ótimo e delicioso. Porém falta o um terço final, vulgo
cereja do bolo. E... pronto, para minha frustração descobre-se
o de sempre, que tudo acaba na tal salvação da humanidade
recorrendo às detestáveis perseguições, pastelões e explosões
muito, muito desnecessárias.
Novamente fiquei na saudade do meu sonho particular de
um dia ver um desenho de ficção científica censura dez
anos que olhará para a humanidade à espera da salvação
e fará aquele sinal típico com dedo médio, censura dezoito
anos.
Pensando bem, a animação ainda não pode tudo.
WALL-E (idem, EUA, 2008)
Direção: Andrew Stanton.
Elenco com vozes de: Ben Burtt, Elissa Knight,
Sigourney Weaver.
Cotação: **** |
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