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Zack Snyder é diretor com experiência prévia em transladar
HQ's a versões cinematográficas correspondentes. Fez
bom trabalho com "300" de Frank Miller. Se o
seu presente "Watchmen - O Filme" não agrada
aos puristas, ao menos consegue, aos olhos do grande
público, narrar uma história a contento e recheá-la
de farto visual.
O maior inimigo de Snyder está no roteiro que tem em
mãos. Fica evidente, até para quem não é muito
íntimo da obra de Alan Moore, que a narrativa, embora
clara, fica prejudicada pela riqueza do material original:
duas horas e quarenta e três minutos de duração não
são suficientes para abordar os arcos de "Watchmen",
a graphic novel, e assim sobressaltos e soluções
rápidas no andamento da história surgem com facilidade
na projeção. A montagem também não guarda muito ritmo
(embora isso seja "culpa" da fonte original) e há problemas
de finalização no som. Claro que tudo isso pode (ou
não) ser resolvido numa versão do diretor para DVD ou
Blu-ray.
A estruturação da história e seu contexto
não são menos do que fascinantes e perturbadores. Nos
EUA do meio dos anos 1980, em uma realidade alternativa,
a Guerra Fria com os soviéticos se encontra num estado
de tensão máxima. Nixon foi reeleito presidente da nação
e os americanos venceram a Guerra do Vietnã por possuírem
uma arma decisiva, o Dr. Manhattan (Billy Crudup), um
físico que adquiriu poderes sobre o espaço, o tempo
e a matéria após um acidente de trabalho num laboratório
avançado. Nesse cenário, os super-heróis são pessoas
comuns com suas identidades secretas próprias, sem poderes
especiais (exceto Manhattan), e que foram banidos de
suas atividades por uma lei governamental. O misterioso
assassinato de um deles - o Comediante (Jeffrey Dean
Morgan) - os põe em estado de alerta, bem como dá início
a um trabalho de detetive levado a cabo pelo inquieto
e estressado Rorschach (Jackie Earle Haley), um sujeito
cuja máscara feita de látex especial reproduz os padrões
do famoso teste psicológico que o nomeia.
O elenco faz, na média, um bom trabalho em termos de
atuações e caracterizações, com destaque para Haley
e Morgan. Se sobressai também a beleza silfídica de
Malin Ackerman como a sinuosa Espectral II. Snyder efetua
um eficaz trabalho de câmera, organiza uma antológica
sequência de créditos iniciais e sabe utilizar as influências
do mundo pop sobre a trilha sonora. A direção
de arte o ajuda em muito e os efeitos visuais são abastados.
Tudo isso já seria motivo para se conferir um trabalho
interessante, mas há mais. "Watchmen"
tem personagens bem desenvolvidos para uma obra de ação.
Por serem super-heróis humanos - "demasiado humanos",
parafraseando Nietzsche, de quem o pessimismo e o niilismo
parecem ter influído diretamente na concepção filosófica
do gibi -, carregam características de personalidade
e histórias individuais que os aproximam de uma plateia
cansada de ver gente que se diz normal emulando teias
de aranha do próprio corpo ou dotadas naturalmente
com visão de raios-X.
Assim, a sina ancestral de herdar um trabalho vinda
da Espectral, os traumas de infância de Rorschach, o
ócio enternecedor do Coruja, a engenhosidade de Ozymandias,
o cafajestismo do Comediante e a angústia de Manhattan
não são fatos epidérmicos, eles batem fundo, chegando
ao espectador muito mais do que numa relação au passant
com a tela.
Manhattan é o mais nietzscheniano dos personagens,
talvez o símbolo estilizado de um anti-Super-Homem na
concepção do filósofo. Ele não dança, pois está
vergado sobre seu próprio peso causado pelo excesso
do saber e do ver. Entulhado por questões existencialistas,
resulta seu ser nas expressões da amargura do tempo
do qual representa, da paranoia, da dúvida, da dor,
da falta de esperança no homem. Aparentemente indúctil,
ele mais tarde se mostra tese e antítese. O Dr. Manhattan
representa a alegoria do físico que, insatisfeito com
o mundo das formas, procura abrigo na metafísica. Na
outra ponta da linha está o vilão (não o revelaremos
aqui), que com um gesto recorda que só a guerra faz
nosso mundo ter paz, algo parecido com a paradoxal
letra de uma música de Gilberto Gil - a diferença está
em substituir na expressão acima a palavra "mundo" por
"amor". Essa mesma canção (que soa esplendorosamente
quando interpretada pela voz de Zizi Possi) poderia
ser usada para ilustrar uma certa cena do filme, onde
o drama vivido pelo físico super poderoso poeticamente
se projeta através dos seguintes versos daquela:
Eu vim,
Vim parar na beira do cais.
Onde a estrada chegou ao fim,
Onde o fim da tarde é lilás,
Onde o mar arrebenta em mim
O lamento de tantos "ais".
Gilberto Gil, Zack Snyder, Nietzsche e Alan Moore? A
livre-interpretação é livre por definição.
WATCHMEN - O FILME (Watchmen, 2009)
Direção: Zack Snyder.
Elenco: Billy Crudup, Malin Ackerman, Matthew
Goode, Jeffrey Dean Morgan, Jackie Earle Haley, Carla
Gugino.
Cotação: ****
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