VIGIANDO OS VIGILANTES
Adriano de Oliveira
 
 

Zack Snyder é diretor com experiência prévia em transladar HQ's a versões cinematográficas correspondentes. Fez bom trabalho com "300" de Frank Miller. Se o seu presente "Watchmen - O Filme" não agrada aos puristas, ao menos consegue, aos olhos do grande público, narrar uma história a contento e recheá-la de farto visual.

O maior inimigo de Snyder está no roteiro que tem em mãos. Fica evidente, até para quem não é muito íntimo da obra de Alan Moore, que a narrativa, embora clara, fica prejudicada pela riqueza do material original: duas horas e quarenta e três minutos de duração não são suficientes para abordar os arcos de "Watchmen", a graphic novel, e assim sobressaltos e soluções rápidas no andamento da história surgem com facilidade na projeção. A montagem também não guarda muito ritmo (embora isso seja "culpa" da fonte original) e há problemas de finalização no som. Claro que tudo isso pode (ou não) ser resolvido numa versão do diretor para DVD ou Blu-ray.

A estruturação da história e seu contexto não são menos do que fascinantes e perturbadores. Nos EUA do meio dos anos 1980, em uma realidade alternativa, a Guerra Fria com os soviéticos se encontra num estado de tensão máxima. Nixon foi reeleito presidente da nação e os americanos venceram a Guerra do Vietnã por possuírem uma arma decisiva, o Dr. Manhattan (Billy Crudup), um físico que adquiriu poderes sobre o espaço, o tempo e a matéria após um acidente de trabalho num laboratório avançado. Nesse cenário, os super-heróis são pessoas comuns com suas identidades secretas próprias, sem poderes especiais (exceto Manhattan), e que foram banidos de suas atividades por uma lei governamental. O misterioso assassinato de um deles - o Comediante (Jeffrey Dean Morgan) - os põe em estado de alerta, bem como dá início a um trabalho de detetive levado a cabo pelo inquieto e estressado Rorschach (Jackie Earle Haley), um sujeito cuja máscara feita de látex especial reproduz os padrões do famoso teste psicológico que o nomeia.

O elenco faz, na média, um bom trabalho em termos de atuações e caracterizações, com destaque para Haley e Morgan. Se sobressai também a beleza silfídica de Malin Ackerman como a sinuosa Espectral II. Snyder efetua um eficaz trabalho de câmera, organiza uma antológica sequência de créditos iniciais e sabe utilizar as influências do mundo pop sobre a trilha sonora. A direção de arte o ajuda em muito e os efeitos visuais são abastados. Tudo isso já seria motivo para se conferir um trabalho interessante, mas há mais. "Watchmen" tem personagens bem desenvolvidos para uma obra de ação. Por serem super-heróis humanos - "demasiado humanos", parafraseando Nietzsche, de quem o pessimismo e o niilismo parecem ter influído diretamente na concepção filosófica do gibi -, carregam características de personalidade e histórias individuais que os aproximam de uma plateia cansada de ver gente que se diz normal emulando teias de aranha do próprio corpo ou dotadas naturalmente com visão de raios-X.

Assim, a sina ancestral de herdar um trabalho vinda da Espectral, os traumas de infância de Rorschach, o ócio enternecedor do Coruja, a engenhosidade de Ozymandias, o cafajestismo do Comediante e a angústia de Manhattan não são fatos epidérmicos, eles batem fundo, chegando ao espectador muito mais do que numa relação au passant com a tela.

Manhattan é o mais nietzscheniano dos personagens, talvez o símbolo estilizado de um anti-Super-Homem na concepção do filósofo. Ele não dança, pois está vergado sobre seu próprio peso causado pelo excesso do saber e do ver. Entulhado por questões existencialistas, resulta seu ser nas expressões da amargura do tempo do qual representa, da paranoia, da dúvida, da dor, da falta de esperança no homem. Aparentemente indúctil, ele mais tarde se mostra tese e antítese. O Dr. Manhattan representa a alegoria do físico que, insatisfeito com o mundo das formas, procura abrigo na metafísica. Na outra ponta da linha está o vilão (não o revelaremos aqui), que com um gesto recorda que só a guerra faz nosso mundo ter paz, algo parecido com a paradoxal letra de uma música de Gilberto Gil - a diferença está em substituir na expressão acima a palavra "mundo" por "amor". Essa mesma canção (que soa esplendorosamente quando interpretada pela voz de Zizi Possi) poderia ser usada para ilustrar uma certa cena do filme, onde o drama vivido pelo físico super poderoso poeticamente se projeta através dos seguintes versos daquela:

Eu vim,
Vim parar na beira do cais.
Onde a estrada chegou ao fim,
Onde o fim da tarde é lilás,
Onde o mar arrebenta em mim
O lamento de tantos "ais".


Gilberto Gil, Zack Snyder, Nietzsche e Alan Moore? A livre-interpretação é livre por definição.



WATCHMEN - O FILME (Watchmen, 2009)

Direção: Zack Snyder.

Elenco: Billy Crudup, Malin Ackerman, Matthew Goode, Jeffrey Dean Morgan, Jackie Earle Haley, Carla Gugino.

Cotação: ****