|
"Amor só de Mãe" é sangue. Sangue aos montes, planos
geniais, um desafio ao espectador que vai sair odiando
ou adorando o filme ou os dois ao mesmo tempo. É um
terror visceral, que não se preocupa em ser seguro,
em não ofender seu público.
Ofendi-me na primeira vez. Assisti um filme perfeito,
mas não admiti gostar. Guardei como uma tara, com medo
de revelar a amigos, amigas, etc. Creio que tenha mais
a ver com meus gostos, sempre em mutação, que com o
filme em si. Tem a ver com condescendência de minha
parte a outras pessoas, pois o filme é o que é, uma
porrada avassaladora, um dos grandes filmes recentes
do cinema brasileiro e mundial.
Creio que esta é uma resenha e sondagem de minha rejeição
inicial ao filme e não uma avaliação genuína das características
desse. "Amor Só de Mãe" não me saia da cabeça desde
a primeira vez que vi. É muito difícil fingir indiferença
quando todas as conversas levam a um filme. É preciso
tomar uma posição e odiá-lo ou adorá-lo veementemente.
Ficar em cima do muro é para filmes que não valem discussão.
E esses, a depender do interlocutor, são raros.
"Amor só de Mãe" não é dessas raridades. É um filme
que importa, é um filme que merece ser xingado, esculachado,
amado ou idolatrado. Não merece indiferença, pois nenhum
dos seus planos é indiferente a seu espectador. Cada
plano é construído com amor, vigor, carinho, energia,
coragem, desejo; todo plano é uma hemorragia
de cinema, sem ter medo do risco de cair no ridículo,
lidando com aquela fronteira que só quem tem coragem
de fazer o que quer lida; a fronteira entre ridicularização
e genialidade.
A verdade é que "Amor Só de Mãe" era um filme bom demais
para mim, quando vi pela primeira vez. Talvez ainda
seja, mas é algo qual não me sinto mais na capacidade
de ser indiferente, pois não tenho como deixar de lado
meu interesse nesse filme grotesco e de mau gosto. Mau
gosto dos outros.
AMOR SÓ DE MÃE (2002)
Direção: Dennison Ramalho.
Elenco: Débora Muniz, Everaldo Pontes e Vera
Barreto Leite.
COTAÇÃO: *****
|