|
O mais autoral dos cineastas brasileiros está com novo
filme nos cinemas. "Bens Confiscados" é a mais
recente obra de Carlos Reichenbach, gaúcho de nascimento
e radicado em São Paulo.
Contando uma história que começa girando em torno de
um senador corrupto (que jamais aparece em cena, eficiente
recurso utilizado também em "Latitude Zero" de
Toni Venturi), a qual se desdobra habilmente por entre
os demais personagens ao longo de seu desenvolvimento,
"Bens Confiscados" fala de dois exílios forçados:
o do filho bastardo do político, Luís (Renan Gioeli),
e o da enfermeira Serena (Betty Faria, em bela atuação),
que é designada para cuidar do jovem. Tal degredo dos
personagens é obra do senador, acuado em denúncias,
que procura manter o filho secreto longe da mídia durante
o escândalo que o acomete.
Reichenbach emprega a trama para tratar, entre outros
assuntos (aniquilação da personalidade, amores impossíveis,
poder desenfreado, estigmas do destino), de solidão,
o que faz com um raro lirismo, estendendo aqui o estudo
que permeia o seu curta "Equilíbrio e Graça",
na temática e no uso sentimental de cenas de belezas
naturais. A câmera do diretor é um show à parte,
fazendo um vasto emprego de travellings e gruas,
como pouco se vê no cinema atual. Carlão, como é afavelmente
chamado, dá uma mobilidade toda especial à sua imagética
com uma bem-vinda fluidez, remetendo ao Tarkovski de
"O Sacrifício". A poesia e o intimismo do cineasta
são complementados pela bonita fotografia de Jacob Solitrenick
(responsável por sublimes trabalhos, como o são "Garotas
do ABC" e o recente "Sal de Prata"), fortemente
inspirada nos filmes de Fassbinder.
Além da já comentada boa representação de Betty Faria,
temos também as ações competentes de Werner Schünemann,
como o peão Lobo - que mais parece o último bastião
do machismo gaúcho -, de Antônio Grassi, e do novato
Gioeli. Surpreende muito positivamente a atuação da
jovem Márcia de Oliveira, no papel de Penha (a oprimida
esposa de Lobo), denotando garra e devoção nas cenas
em que surge.
"Bens Confiscados" é mais um bem precioso que
Reichenbach nos lega, através de seu estilo único: temática
social, personagens femininos lapidando o lado bruto
daqueles masculinos, câmera fluida, lirismo, poesia
em forma de Cinema.
BENS CONFISCADOS (2005)
Direção: Carlos Reichenbach.
Elenco: Betty Faria, Renan Gioeli, Werner Schünemann,
Márcia de Oliveira, Antônio Grassi, Fernanda Carvalho
Leite, Eduardo Dussek, Marina Person, Sissi Venturin,
Beth Goulart.
COTAÇÃO: ****
|