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Andrew (Andrucha) Waddington tem problemas com histórias.
Seus colegas e ele próprio dizem que vive trabalhando:
de um filme, vai para outro; de um projeto, para o seguinte.
O que parece ótimo, se um talento narrativo fosse seu
forte. Cinema, essencialmente, conta uma história; e
se nela há falhas, o que está impresso e montado na
película as escancara. Pequenas ou grandes não importa,
pois tudo fica permanentemente iluminado na tela desde
quando o projetor é ligado.
Uma história precisa de maturação. É necessário sobre
ela, invariavelmente, certo distanciamento que corrige
as imperfeições, fornece a maleabilidade ao traço seco
arremessado na folha, dá a suavidade à tomada do plano
geral, a acuidade de sentido num plano de detalhe, na
montagem, no corte preciso. Pois se tal cuidado é coberto
por um desejo que leve a uma possível pressa de ver
o projeto acabado, é por aí que iniciam os problemas
de Waddington. Os planos, os detalhes, a edição servem
a um fim maior que o próprio cinema quando ele é pensado
apenas como belas imagens: a história que um cineasta
pretende contar através delas.
E não é o caso de falha na atenção. O interessante
é que está atento a bons argumentos, o diretor. Uma
mulher que vive com três maridos foi o princípio de
"Eu, Tu, Eles"; uma senhora que todos os dias
varre a areia da casa construída entre dunas foi a partida
de "Casa de Areia". Entre tanta perspicácia,
a questão é que um argumento não dá início, meio ou
fim a uma narrativa. Ele é tão somente a idéia. E essas,
muita gente tem: cineastas, padeiros, pintores, pedreiros.
A diferença é que quem vai transformá-la na matéria-prima
do seu trabalho precisa saber cuidá-la; domando-a, adestrando-a,
afinando-a: sucumbindo a ela. Mas nunca, de modo algum,
jogando-a na esteira industrial. Sob pena de tornar-se
um produto descartável, com curto prazer durante o uso,
do qual depois se diz: o que era mesmo? Desde que este
não seja de fato o objetivo.
As tomadas de "Casa de Areia" são muito boas.
Filmadas por quem tem no currículo vasta folha de vídeo
clipes. E menciona-se o histórico em clipes não com
o tom pejorativo que remeta a um amontoado frenético
de imagens, pois isto seria mais recorrente no cinema
vindo do campo da publicidade, em filmes dirigidos por
publicitários como "Nina" e "Cidade de Deus".
A experiência nessa bela escola que é o vídeo musical
dá o tempo da cena para Waddington. Está provado no
início do filme. Mesmo que não tenha sido filmado de
um avião, ao pôr do sol, com uma manada de lhamas, como
requeria o roteiro original, a tomada de longe, num
plano que faz a trupe cruzar toda a tela cortando o
horizonte de areia e vento funciona. Sabemos em que
ambiente devemos estar entrando. E até aí a condução
vai bem.
Contudo, quando é preciso que a história seja focada,
que a imagem sirva à construção de algo que vá envolver
o espectador além dela própria, algo vai mal. Se assim
não fosse, a cena da casa desmoronada poderia ser inesquecível,
ou a do eclipse, ou alguma outra que se tem dificuldade
de lembrar justamente porque não marcam. No modo como
os personagens são apresentados, não há tempo para criarmos
empatia por eles. Logo, não podemos sofrer por seus
sofrimentos. Na maneira como os momentos-chave do filme
são conduzidos, não há clima para nos emocionarmos com
eles. Logo, só o que podemos sentir é distância no instante
em que a personagem de Fernanda Torres é beijada pelo
soldado no alto de uma duna, quando a cena, apresentando-nos
uma fraqueza da protagonista, deveria aproximar-nos
dela.
Dificuldades vindas, quem sabe, do não-discernimento
de que diretor de cinema não é, por analogia, contador
de histórias. Pois se propor a montar uma narrativa
baseada num argumento, inventar personagens para isso,
caracterizá-los e criar um enredo não é o suficiente
para envolver o espectador numa história. Intrínseco
a ela, e justamente o que lhe dá gordura, vísceras,
sangue, é um sofrimento real, uma alegria pura, vindas
da descoberta, da paralisia, da dúvida. E a história
de Waddington não oferece, nem remete a este tempo em
que as coisas podem deixar de ser o que imaginamos que
sejam para serem elas mesmas. Porque o que aparece,
a partir do resultado final, do seu processo de produção,
é que não há parada para reflexão na linha de montagem
do diretor. Sem este olhar de fora necessário, só resta
a Waddington ter certeza do que está "contando". E isso
se vê no filme ao se perceber que nada está escondido,
exacerbado, contido, deliberadamente exagerado: nem
mesmo metaforizado. O fôlego, o intelecto, e o coração
do público não podem sofrer verdadeiramente, por isso,
a ação que o filme até teria em potência, pois a idéia
não é má.
Assim, o que sobra para o espectador poder pensar -
pois é como se participa de um filme - é pouco. Resta-nos
imaginar que talvez seja um corpo humano o que Waddington
está filmando ao fazer a panorâmica dos lençóis maranhenses
no começo do filme. As dunas, ora escuras pela água
infiltrada, ora claras pela areia fina, lembrando a
anatomia de um corpo por dentro (órgãos, veias) podem
estar indicando a tentativa de investigação que ele
fará de seres humanos colocados em condições de isolamento.
Mas apesar do esforço, logo o diretor nos criva de
poder metaforizar por conta própria suas imagens. O
filme não trata de isolamento pela falta sequer de indícios
de solidão, a não ser a vasta areia - que é cenário
do filme e aparece por contingência, sendo necessária
para a cena ou não - e pela invenção de que a distância
dos lugares é medida em dias. De resto, os personagens
- onde exatamente deveriam aparecer as marcas da solidão
- estão permanentemente acompanhados pela mãe, pela
filha, pela neta, pelo vizinho (no isolamento se tem
vizinho para Waddington), pelo filho do vizinho, pelo
pai do vizinho, pelo vendedor, pelas cabras.
Suspeita-se então que o filme seja sobre o comportamento
humano em condições de isolamento. Porém se espera em
vão acompanhar características dos personagens que indiquem
isso no avanço do filme. Não há indicativos dessa construção
como os que trazem os protagonistas de "Latitude
Zero", de Toni Venturi, que sofrem realmente de
isolamento físico, de "O Iluminado", de Stanley
Kubrick, que sofrem de fato de isolamento psicológico,
ou mesmo de "Encontros e Desencontros", de Sofia
Coppola, que sofrem de verdade de isolamento existencial.
Os de Waddington tentam sofrer, mas são impedidos pela
tentativa de encontrar uma história para se encaixarem,
e não a acharem.
Aceitemos finalmente que o filme, sem pretensão, seja
sobre uma mulher que acabou vivendo isolada, numa casa
solitária no meio do deserto. As características marcantes
dela são a de varrer a casa diariamente para que não
encha de areia, e a saudade, acima de tudo, da música.
Não há dúvida de que a idéia é boa e coberta de singeleza:
tudo que um filme precisa. O problema é justamente,
mais do que transformar isso em filme, fazer disso uma
história. Pois o que pode acontecer é que inclusive
casamento esta mulher arranje no isolamento, que a cena
dela varrendo a casa acabe sendo apenas mais uma no
meio das outras, que a saudade da música seja tão só
um artifício de sentimentalismo destoante, e que a solidão
em condições inóspitas seja permeada com ares familiares
por todo o filme.
Nunca estamos sozinhos, porque até uma
família podemos formar no deserto, pode ser, no fim,
o que diz "Casa de Areia". Mas se isso é tudo
que o diretor tem a desvendar, talvez só a ida ao cinema,
prestando atenção aos detalhes do caminho, possa nos
dar argumentos suficientes sobre os quais formamos uma
história no mínimo equivalente até chegarmos à porta
do cinema para nos entregarmos a alguém que teve mais
tempo, condições e aparatos para construir precisamente
isso: uma história que nos envolva.
CASA DE AREIA (2005)
Direção: Andrucha Waddington.
Elenco: Fernanda Montenegro, Fernanda Torres,
Seu Jorge, Luiz Melodia, Stênio Garcia, Enrique Diaz,
Ruy Guerra, Camilla Facundes, Emiliano Queiroz.
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