|
Este artigo visa falar, ainda que de modo breve, da
importância contextual cinematográfica e da perenidade
temática que tangem ao filme "Casa de Areia".
Não vou me deter aqui em outros aspectos da trama, pois
julgo que o colega de site Ricardo Rangel tenha feito
esta tarefa com êxito em seu artigo (há um link para
o mesmo ao final deste texto, caso você ainda não tenha
lido aquele).
Esta película de Andrucha Waddington possui uma excelência
intrínseca. Surge-me como o melhor filme brasileiro
desde "Cidade de Deus", este, em uma opinião
pessoal, um verdadeiro divisor de águas no cinema nacional.
Ao lado de "Central do Brasil" e "Abril Despedaçado",
ambos de Walter Salles, "O Outro Lado da Rua",
de Marcus Bernstein, e do próprio "Cidade de Deus",
de Fernando Meirelles, "Casa de Areia" representa
o melhor de nossa produção em Sétima Arte nos anos recentes.
Aparece desde agora como candidato natural ao posto
de representante brasileiro no próximo Oscar. E não
será surpresa nenhuma se ficar entre os cinco finalistas
indicados ao prêmio de filme estrangeiro na próxima
edição do evento. Inesperado, mesmo, seria tais fatos
não ocorrerem. Pois "Casa de Areia" é, acima
de tudo, universal.
A história abordada pela fita poderia ocorrer em qualquer
lugar do mundo, a qualquer tempo, bem como trabalha
com aspectos interessantes concernentes à humanidade.
Apresenta ela uma paradoxal idéia de que a prisão também
pode representar a liberdade. Enaltece a capacidade
de adaptação do ser humano a um lugar inóspito. Mostra
uma visão mítica do Mundo, ao sugerir o Paraíso perdido
que pode ser um Purgatório ou um Inferno, e simbolizar
um Anti-Caronte no personagem Chico do Sal (Emiliano
Queiroz): no lugar do lendário barqueiro que conduzia
as almas às profundezas dos domínios demoníacos,
há, neste caso, um viajante que representa a única possibilidade
de saída do tormento, o que não significa necessariamente
redenção aos condenados. Aliás, esse conceito do local
desolado como expiação das culpas coaduna com a idéia
apresentada pelo roteirista e diretor independente norte-americano
John Sayles, em sua obra cinematográfica "Limbo",
na qual os personagens de Mary Elizabeth Mastrantonio,
Vanessa Martinez e David Strathairn passavam por agruras
típicas do isolamento semelhantes às que ocorrem com
as representações de Fernanda Torres e Fernanda Montenegro
aqui. Em suma, tais concepções deságuam
na formulação de uma espécie de purgatório pessoal.
A areia que insidiosamente soterra, no filme, casas
e vidas, é a mesma areia que escorre de modo impiedoso
na invisível ampulheta do tempo que oprime e delimita
não apenas nossas existências individuais, mas também
a extensão da odisséia humana. Na coletiva em Porto
Alegre, o diretor bem lembrou que "naquele ambiente,
os personagens humanos todos poderiam vir a desaparecer,
mas a Lua e o Sol continuariam a aparecer no céu, o
vento a soprar e a areia a predominar". É esta uma
metáfora, portanto, da força da natureza, da implacabilidade
do tempo, e da necessidade de darmos sentido a nossas
vidas, tarefa que, como o filme mostra, não está necessariamente
ligada à realização de grandes feitos.
Porém, "Casa de Areia", paradoxalmente
à essa que é uma de suas mensagens, ficará
vinculada ao átrio das vultosas obras por suas
características: cósmica, atemporal na
temática e indubitavelmente imortal. Andrucha Waddington,
quem diria, descobriu, sem ser preciso utilizar ferramentas
matemáticas, como retardar - ao menos com este seu filme
- a passagem do tempo, algo que Einstein havia realizado
no Paradoxo dos Gêmeos da Teoria da Relatividade
que é citado na obra: o cineasta abordou de modo singelo
um tema visceralmente humano, algo absoluto, e isso
vai fazer seu nome tornar à baila cada vez que se assistir
à "Casa de Areia", seja hoje, amanhã, ou daqui
a muitos, longínquos anos.
CASA DE AREIA (2005)
Direção: Andrucha Waddington.
Elenco: Fernanda Montenegro, Fernanda Torres,
Seu Jorge, Luiz Melodia, Stênio Garcia, Enrique Diaz,
Ruy Guerra, Camilla Facundes, Emiliano Queiroz.
COTAÇÃO: *****
Leia também o artigo
de Ricardo Rangel sobre o filme.
Confira a entrevista com
Andrucha Waddington.
|