A TEORIA DA ABSOLUTIVIDADE
Adriano de Oliveira
 
 

Este artigo visa falar, ainda que de modo breve, da importância contextual cinematográfica e da perenidade temática que tangem ao filme "Casa de Areia". Não vou me deter aqui em outros aspectos da trama, pois julgo que o colega de site Ricardo Rangel tenha feito esta tarefa com êxito em seu artigo (há um link para o mesmo ao final deste texto, caso você ainda não tenha lido aquele).

Esta película de Andrucha Waddington possui uma excelência intrínseca. Surge-me como o melhor filme brasileiro desde "Cidade de Deus", este, em uma opinião pessoal, um verdadeiro divisor de águas no cinema nacional. Ao lado de "Central do Brasil" e "Abril Despedaçado", ambos de Walter Salles, "O Outro Lado da Rua", de Marcus Bernstein, e do próprio "Cidade de Deus", de Fernando Meirelles, "Casa de Areia" representa o melhor de nossa produção em Sétima Arte nos anos recentes. Aparece desde agora como candidato natural ao posto de representante brasileiro no próximo Oscar. E não será surpresa nenhuma se ficar entre os cinco finalistas indicados ao prêmio de filme estrangeiro na próxima edição do evento. Inesperado, mesmo, seria tais fatos não ocorrerem. Pois "Casa de Areia" é, acima de tudo, universal.

A história abordada pela fita poderia ocorrer em qualquer lugar do mundo, a qualquer tempo, bem como trabalha com aspectos interessantes concernentes à humanidade. Apresenta ela uma paradoxal idéia de que a prisão também pode representar a liberdade. Enaltece a capacidade de adaptação do ser humano a um lugar inóspito. Mostra uma visão mítica do Mundo, ao sugerir o Paraíso perdido que pode ser um Purgatório ou um Inferno, e simbolizar um Anti-Caronte no personagem Chico do Sal (Emiliano Queiroz): no lugar do lendário barqueiro que conduzia as almas às profundezas dos domínios demoníacos, há, neste caso, um viajante que representa a única possibilidade de saída do tormento, o que não significa necessariamente redenção aos condenados. Aliás, esse conceito do local desolado como expiação das culpas coaduna com a idéia apresentada pelo roteirista e diretor independente norte-americano John Sayles, em sua obra cinematográfica "Limbo", na qual os personagens de Mary Elizabeth Mastrantonio, Vanessa Martinez e David Strathairn passavam por agruras típicas do isolamento semelhantes às que ocorrem com as representações de Fernanda Torres e Fernanda Montenegro aqui. Em suma, tais concepções deságuam na formulação de uma espécie de purgatório pessoal.

A areia que insidiosamente soterra, no filme, casas e vidas, é a mesma areia que escorre de modo impiedoso na invisível ampulheta do tempo que oprime e delimita não apenas nossas existências individuais, mas também a extensão da odisséia humana. Na coletiva em Porto Alegre, o diretor bem lembrou que "naquele ambiente, os personagens humanos todos poderiam vir a desaparecer, mas a Lua e o Sol continuariam a aparecer no céu, o vento a soprar e a areia a predominar". É esta uma metáfora, portanto, da força da natureza, da implacabilidade do tempo, e da necessidade de darmos sentido a nossas vidas, tarefa que, como o filme mostra, não está necessariamente ligada à realização de grandes feitos.

Porém, "Casa de Areia", paradoxalmente à essa que é uma de suas mensagens, ficará vinculada ao átrio das vultosas obras por suas características: cósmica, atemporal na temática e indubitavelmente imortal. Andrucha Waddington, quem diria, descobriu, sem ser preciso utilizar ferramentas matemáticas, como retardar - ao menos com este seu filme - a passagem do tempo, algo que Einstein havia realizado no Paradoxo dos Gêmeos da Teoria da Relatividade que é citado na obra: o cineasta abordou de modo singelo um tema visceralmente humano, algo absoluto, e isso vai fazer seu nome tornar à baila cada vez que se assistir à "Casa de Areia", seja hoje, amanhã, ou daqui a muitos, longínquos anos.

CASA DE AREIA (2005)

Direção: Andrucha Waddington.

Elenco: Fernanda Montenegro, Fernanda Torres, Seu Jorge, Luiz Melodia, Stênio Garcia, Enrique Diaz, Ruy Guerra, Camilla Facundes, Emiliano Queiroz.

COTAÇÃO: *****

Leia também o artigo de Ricardo Rangel sobre o filme.
Confira a entrevista com Andrucha Waddington.