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Ao ver uma casa soterrada pela areia, o produtor Luiz
Carlos Barreto sugeriu ao diretor Andrucha Waddington
("Gêmeas", "Eu, Tu, Eles") a seguinte
idéia: realizar um filme que retratasse alguns aspectos
da solidão humana em meio a um lugar inóspito, em condições
desfavoráveis, e que fosse narrado sob a égide da passagem
das gerações, em uma espécie de perpetuação desse movimento,
bem como da exploração do aspecto psicológico dos personagens.
Andrucha fez o seu filme, o excelente "Casa de Areia",
tomando tal idéia como base, escalando para os papéis
principais duas das maiores atrizes brasileiras, mãe
e filha na vida real e no filme também, a saber, Fernanda
Montenegro e Fernanda Torres, respectivamente sogra
e esposa do diretor. As duas Fernandas contracenam juntas
em "Casa de Areia", fruto da simbiose que os
seus personagens requerem, e o resultado, como não poderia
ser diferente, é dos melhores.
A história tem o seu início em 1910, no litoral - interior
do Maranhão (na verdade, foi filmada na bela região
dos lençóis maranhenses), em que Áurea (Fernanda Torres)
e sua mãe (naturalmente, Fernanda Montenegro) vão, juntamente
com o marido de Áurea, o português Vasco, tomar posse
das terras adquiridas pelo lusitano em tais paragens.
O detalhe é que o lugar é um deserto, coberto de areia
por todos os lados, e Vasco trata Áurea como uma escrava
sua, em um presságio do infortúnio que ambas irão passar
nessa verdadeira odisséia em meio ao nada. Lá pelas
tantas, Vasco morre, e tem início então a via-crúcis
a que Áurea e sua mãe têm de se submeter: abandonada
pelos acompanhantes de Vasco, que fugiram e levaram
dinheiro, mantimentos e vestimentas, as duas mulheres
se vêem perdidas em meio às múltiplas dunas maranhenses,
rodeadas pela areia e o desespero de sair deste lugar
ermo. No caminho, encontram Massu (Seu Jorge, o Mané
Galinha de "Cidade de Deus", músico que vem fazendo
grande sucesso com seus sambas), que as acolhe e lhes
dá casa, abrigo e comida. Áurea está grávida, o que
dificulta a suposta saída pretensamente quase impossível
das areias, e no impasse que se estabelece, sua filha
nasce e elas continuam por lá, esperando uma saída e
quem as leve embora. Nas andanças pelo deserto, Áurea
conhece Luís, militar da aeronáutica que está conduzindo
pelo deserto uma expedição científica de astrônomos
buscando evidências empíricas que comprovem a teoria
da relatividade, fotografando um eclipse, e ambos apaixonam-se.
Luís promete levar Áurea embora, mas parte antes dela
encontrar sua filha Maria, ainda pequena, e a sina persiste
para elas. O tempo passa, e Maria, agora adulta (e que
nessa fase é interpretada por Fernanda Torres), tem
o mesmo desejo incontido de sua mãe Áurea (agora vivida
por Fernanda Montenegro, em uma impressionante semelhança
com a filha) de ir embora das intermináveis areias do
Norte do Maranhão, o que dá lugar ao conflito das diferentes
gerações, explorado muito bem, com as devidas nuanças
que o contexto todo requer.
O personagem de Maria, em meio aos lençóis maranhenses,
lembra bastante a Marcela de "A Ostra e o Vento",
que é interpretada pela extraordinária atriz Leandra
Leal, personagem que vivia isolada em uma ilha com seu
pai, representado por Lima Duarte, a qual tinha como
único amigo e contato com o mundo exterior, Saulo. Era
como ela chamava o vento, seu companheiro inseparável.
Maria, em "Casa de Areia", fuma, bebe e faz sexo
para espantar o tédio e aliviar a sua dor em meio à
solidão movediça em que se encontra no seio do desértico
nada.
"Casa de Areia" possui momentos singelos e de
pureza, como a explicação do Paradoxo dos Gêmeos que
Luís dá à Áurea entre as dunas, ou ainda, quando a mesma
emociona-se ao escutar música, fatos que são complementados
pela belíssima fotografia do filme, assim como pela
direção de arte. A direção segura e firme de Andrucha
Waddington dá corpo a uma história sensível, da luta
de um indivíduo em meio à solidão, ao vazio, numa dialética
que engloba niilismo e esperança, comodismo versus vontade
de conhecer o mundo (ou outro mundo), que vai passando
de geração a geração, realçando nesse ínterim a sabedoria
natural da velhice com o ímpeto irresponsável da juventude,
aflorado em demasia pelo ambiente hostil e eremita em
que tudo se dá.
A metáfora da areia, e a da casa também, é fundamental
para o entendimento e a percepção deste curioso filme:
há muitos desertos por aí, cobertos de muita areia,
e se não formos perspicazes e sábios o suficiente, podemos
nos engolfar nesses solos movediços. Talvez isso seja
alguma espécie de provação, e possivelmente essa seja
apenas uma das tantas percepções que "Casa de Areia"
nos dá.
CASA DE AREIA (2005)
Direção: Andrucha Waddington.
Elenco: Fernanda Montenegro, Fernanda Torres,
Seu Jorge, Stênio Garcia, Luiz Melodia, Emiliano Queiroz.
COTAÇÃO: *****
Leia também o artigo
de Adriano de Oliveira sobre o filme.
Confira
a entrevista com Andrucha Waddington.
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