DESÉRTICA SOLIDÃO MOVEDIÇA
Ricardo Rangel
 
 

Ao ver uma casa soterrada pela areia, o produtor Luiz Carlos Barreto sugeriu ao diretor Andrucha Waddington ("Gêmeas", "Eu, Tu, Eles") a seguinte idéia: realizar um filme que retratasse alguns aspectos da solidão humana em meio a um lugar inóspito, em condições desfavoráveis, e que fosse narrado sob a égide da passagem das gerações, em uma espécie de perpetuação desse movimento, bem como da exploração do aspecto psicológico dos personagens. Andrucha fez o seu filme, o excelente "Casa de Areia", tomando tal idéia como base, escalando para os papéis principais duas das maiores atrizes brasileiras, mãe e filha na vida real e no filme também, a saber, Fernanda Montenegro e Fernanda Torres, respectivamente sogra e esposa do diretor. As duas Fernandas contracenam juntas em "Casa de Areia", fruto da simbiose que os seus personagens requerem, e o resultado, como não poderia ser diferente, é dos melhores.

A história tem o seu início em 1910, no litoral - interior do Maranhão (na verdade, foi filmada na bela região dos lençóis maranhenses), em que Áurea (Fernanda Torres) e sua mãe (naturalmente, Fernanda Montenegro) vão, juntamente com o marido de Áurea, o português Vasco, tomar posse das terras adquiridas pelo lusitano em tais paragens. O detalhe é que o lugar é um deserto, coberto de areia por todos os lados, e Vasco trata Áurea como uma escrava sua, em um presságio do infortúnio que ambas irão passar nessa verdadeira odisséia em meio ao nada. Lá pelas tantas, Vasco morre, e tem início então a via-crúcis a que Áurea e sua mãe têm de se submeter: abandonada pelos acompanhantes de Vasco, que fugiram e levaram dinheiro, mantimentos e vestimentas, as duas mulheres se vêem perdidas em meio às múltiplas dunas maranhenses, rodeadas pela areia e o desespero de sair deste lugar ermo. No caminho, encontram Massu (Seu Jorge, o Mané Galinha de "Cidade de Deus", músico que vem fazendo grande sucesso com seus sambas), que as acolhe e lhes dá casa, abrigo e comida. Áurea está grávida, o que dificulta a suposta saída pretensamente quase impossível das areias, e no impasse que se estabelece, sua filha nasce e elas continuam por lá, esperando uma saída e quem as leve embora. Nas andanças pelo deserto, Áurea conhece Luís, militar da aeronáutica que está conduzindo pelo deserto uma expedição científica de astrônomos buscando evidências empíricas que comprovem a teoria da relatividade, fotografando um eclipse, e ambos apaixonam-se. Luís promete levar Áurea embora, mas parte antes dela encontrar sua filha Maria, ainda pequena, e a sina persiste para elas. O tempo passa, e Maria, agora adulta (e que nessa fase é interpretada por Fernanda Torres), tem o mesmo desejo incontido de sua mãe Áurea (agora vivida por Fernanda Montenegro, em uma impressionante semelhança com a filha) de ir embora das intermináveis areias do Norte do Maranhão, o que dá lugar ao conflito das diferentes gerações, explorado muito bem, com as devidas nuanças que o contexto todo requer.

O personagem de Maria, em meio aos lençóis maranhenses, lembra bastante a Marcela de "A Ostra e o Vento", que é interpretada pela extraordinária atriz Leandra Leal, personagem que vivia isolada em uma ilha com seu pai, representado por Lima Duarte, a qual tinha como único amigo e contato com o mundo exterior, Saulo. Era como ela chamava o vento, seu companheiro inseparável. Maria, em "Casa de Areia", fuma, bebe e faz sexo para espantar o tédio e aliviar a sua dor em meio à solidão movediça em que se encontra no seio do desértico nada.

"Casa de Areia" possui momentos singelos e de pureza, como a explicação do Paradoxo dos Gêmeos que Luís dá à Áurea entre as dunas, ou ainda, quando a mesma emociona-se ao escutar música, fatos que são complementados pela belíssima fotografia do filme, assim como pela direção de arte. A direção segura e firme de Andrucha Waddington dá corpo a uma história sensível, da luta de um indivíduo em meio à solidão, ao vazio, numa dialética que engloba niilismo e esperança, comodismo versus vontade de conhecer o mundo (ou outro mundo), que vai passando de geração a geração, realçando nesse ínterim a sabedoria natural da velhice com o ímpeto irresponsável da juventude, aflorado em demasia pelo ambiente hostil e eremita em que tudo se dá.

A metáfora da areia, e a da casa também, é fundamental para o entendimento e a percepção deste curioso filme: há muitos desertos por aí, cobertos de muita areia, e se não formos perspicazes e sábios o suficiente, podemos nos engolfar nesses solos movediços. Talvez isso seja alguma espécie de provação, e possivelmente essa seja apenas uma das tantas percepções que "Casa de Areia" nos dá.

CASA DE AREIA (2005)

Direção: Andrucha Waddington.

Elenco: Fernanda Montenegro, Fernanda Torres, Seu Jorge, Stênio Garcia, Luiz Melodia, Emiliano Queiroz.

COTAÇÃO: *****

Leia também o artigo de Adriano de Oliveira sobre o filme.
Confira a entrevista com Andrucha Waddington.