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Bruno Barreto afirmou, recentemente, que existem muitos
cineastas no Brasil, e que muitos deles deveriam se
ocupar de outras coisas, realizar outras atividades
profissionais, em vista de uma má qualidade, segundo
a sua opinião, da mais recente filmografia nacional.
Essa é a opinião de um cineasta respeitado e reconhecido,
que tem mercado na indústria, mas que, haja vista sua
última realização, "O Casamento de Romeu e Julieta",
bem que não seria de todo uma injustiça se esta produção
fosse colocada neste rol. Um fator, entretanto, isenta
um pouco Barreto nesse quesito: "O Casamento..."
é, e deve ser visto assim, como um filme descompromissado,
sem maiores pretensões, que tem como objetivo, além
de ser uma apologia à cidade de São Paulo, reduto de
Barreto, apenas divertir e fazer o espectador dar algumas
boas risadas. Não se sabe se a opinião e a pretensão
do referido diretor eram estas, mas a da crítica especializada
e do público devem ser, pois só assim é possível analisar
o seu filme como um produto unicamente de puro entretenimento,
que visa divertir as pessoas em cima duma história de
amor adaptada da literatura estrangeira, ambientada
na capital paulista, tendo como pano de fundo a paixão
pelo futebol, a rivalidade clubística que envolve praticamente
todos os personagens do filme. Portanto, compre o seu
ingresso, vá na bomboniére, providencie pipoca e refrigerante,
e encare uma sessão de matiné não esperando uma grande
produção, mas sim, divertimento somado a algumas boas
piadas envolvendo essa paixão e o comportamento de alguns
personagens, que, embora um pouco caricatos, justificam,
de certa forma, a sua presença na sessão.
Julieta (Luana Piovani, bela e sensual como sempre)
é filha de Baragazzi (Luiz Gustavo, um pouco exagerado
em cena, mas convincente no papel), palmeirense fanático,
conselheiro e sócio do clube, amigo do presidente, saudosista
do velho Palmeiras (do tempo do Palestra Itália) e que
vive em função dessa paixão clubística. Julieta, claro,
pela influência do pai, é palmeirense também, joga no
time feminino do clube, vai sempre nos jogos com a família
torcer pelo seu time do coração. Do outro lado da torcida,
está Romeu (Marco Ricca), oftalmologista, liderança
da torcida organizada Gaviões da Fiel, corintiano fanático,
assim como seu filho Zilinho (Leonardo Miggiorin, o
Shao-Lin da já findada novela global "Senhora do Destino")
e a sua vó Nenzica, igualmente corintiana fanática e
que se orgulha do neto torcedor do timão. Por um "acaso"
do destino (!), Romeu e Julieta se conhecem, se apaixonam,
mas, assim como o casal famoso da tragédia de Shakespeare,
que era oriundo de famílias inimigas, têm um obstáculo
sério a enfrentar: Julieta é palmeirense, Romeu é corintiano,
as suas respectivas famílias nutrem igual fanatismo
pelos seus clubes queridos, fadando com isso o relacionamento
ao supremo fracasso. Julieta sabe que Romeu é corintiano,
mas ao apresentar seu namorado a seu pai, este não pode,
em hipótese alguma, ter ciência disso, visto não aprovar
o pretendente; para isso, Romeu arma uma presepada,
uma mentira, fazendo-se passar por palmeirense para
a família Baragazzi, e a sua farsa vai se tornando cada
vez mais séria, tendo ele que, literalmente, driblar
muitas situações para poder conquistar seu sogro e pedir
a mão da sua amada em casamento.
Há situações, de fato, engraçadas no filme (a viagem
de volta da delegação palmeirense de Tóquio, após a
perda do Mundial Interclubes em 1999 para o Manchester
United, com Romeu a bordo fardado de palmeirense e confessando
a Baragazzi que é corintiano, assim como o rebuliço
que se dá com a chegada deles ao aeroporto são realmente
engraçadas e resultam em boas gargalhadas), mas há outras
patéticas e que beiram o ridículo (como a discussão
na quadra de futsal ao lado do condomínio de Romeu,
com Baragazzi engessado xingando a vó Nenzica, após
a bombástica revelação de Romeu), mostrando com isso
a irregularidade da trama. As atuações, à exceção de
Luiz Gustavo, deixam a desejar, e não seguram o pique
que o filme deveria ter. Além disso, as imagens dos
jogos, filmadas muito de cima na arquibancada, não causam
muita emoção, revelando com isso uma falta de intimidade
de Barreto no mundo da bola, confessada pelo próprio,
despertando nos mais nostálgicos saudades do glorioso
Canal 100, que era veiculado antes das antigas
sessões de cinema. Como em "Bossa Nova", que
é uma ode ao Rio de Janeiro, "O Casamento de Romeu
e Julieta", como uma espécie de homenagem à cidade
de São Paulo, tendo o futebol, mais especificamente
a rivalidade entre palmeirenses e corintianos, como
pano de fundo, cumpre minimamente, sob certos aspectos,
o seu objetivo; em relação a outros pontos, deixa bastante
a desejar, como essa própria rivalidade, muito caricatural
e forçada no filme (era para ser apenas tragicômico,
e não piegas e escrachado em demasia). No final, o óbvio
happy end e uma propaganda descarada dos patrocinadores,
que poderia e deveria ser mais sutil e menos escancarada.
Há diversão, é claro, e por esse quesito vale o ingresso,
no melhor estilo das comédias pastelão; mas vá assistir
apenas com essa intenção, pois "O Casamento de Romeu
e Julieta" tende a resultar em divórcio (amigável,
pelo menos), e com separação de bens, é claro, ou alguém
imagina palmeirenses e corintianos partilhando em comum
as suas paixões?
O CASAMENTO DE ROMEU E JULIETA (2005)
Direção: Bruno Barreto.
Elenco: Luana Piovani, Marco Ricca, Luiz Gustavo,
Mel Lisboa, Leonardo Miggiorin
COTAÇÃO: **
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