SHAKESPEAREANA SEPARAÇÃO DE BENS PAULISTANA
Ricardo Rangel
 
 

Bruno Barreto afirmou, recentemente, que existem muitos cineastas no Brasil, e que muitos deles deveriam se ocupar de outras coisas, realizar outras atividades profissionais, em vista de uma má qualidade, segundo a sua opinião, da mais recente filmografia nacional. Essa é a opinião de um cineasta respeitado e reconhecido, que tem mercado na indústria, mas que, haja vista sua última realização, "O Casamento de Romeu e Julieta", bem que não seria de todo uma injustiça se esta produção fosse colocada neste rol. Um fator, entretanto, isenta um pouco Barreto nesse quesito: "O Casamento..." é, e deve ser visto assim, como um filme descompromissado, sem maiores pretensões, que tem como objetivo, além de ser uma apologia à cidade de São Paulo, reduto de Barreto, apenas divertir e fazer o espectador dar algumas boas risadas. Não se sabe se a opinião e a pretensão do referido diretor eram estas, mas a da crítica especializada e do público devem ser, pois só assim é possível analisar o seu filme como um produto unicamente de puro entretenimento, que visa divertir as pessoas em cima duma história de amor adaptada da literatura estrangeira, ambientada na capital paulista, tendo como pano de fundo a paixão pelo futebol, a rivalidade clubística que envolve praticamente todos os personagens do filme. Portanto, compre o seu ingresso, vá na bomboniére, providencie pipoca e refrigerante, e encare uma sessão de matiné não esperando uma grande produção, mas sim, divertimento somado a algumas boas piadas envolvendo essa paixão e o comportamento de alguns personagens, que, embora um pouco caricatos, justificam, de certa forma, a sua presença na sessão.

Julieta (Luana Piovani, bela e sensual como sempre) é filha de Baragazzi (Luiz Gustavo, um pouco exagerado em cena, mas convincente no papel), palmeirense fanático, conselheiro e sócio do clube, amigo do presidente, saudosista do velho Palmeiras (do tempo do Palestra Itália) e que vive em função dessa paixão clubística. Julieta, claro, pela influência do pai, é palmeirense também, joga no time feminino do clube, vai sempre nos jogos com a família torcer pelo seu time do coração. Do outro lado da torcida, está Romeu (Marco Ricca), oftalmologista, liderança da torcida organizada Gaviões da Fiel, corintiano fanático, assim como seu filho Zilinho (Leonardo Miggiorin, o Shao-Lin da já findada novela global "Senhora do Destino") e a sua vó Nenzica, igualmente corintiana fanática e que se orgulha do neto torcedor do timão. Por um "acaso" do destino (!), Romeu e Julieta se conhecem, se apaixonam, mas, assim como o casal famoso da tragédia de Shakespeare, que era oriundo de famílias inimigas, têm um obstáculo sério a enfrentar: Julieta é palmeirense, Romeu é corintiano, as suas respectivas famílias nutrem igual fanatismo pelos seus clubes queridos, fadando com isso o relacionamento ao supremo fracasso. Julieta sabe que Romeu é corintiano, mas ao apresentar seu namorado a seu pai, este não pode, em hipótese alguma, ter ciência disso, visto não aprovar o pretendente; para isso, Romeu arma uma presepada, uma mentira, fazendo-se passar por palmeirense para a família Baragazzi, e a sua farsa vai se tornando cada vez mais séria, tendo ele que, literalmente, driblar muitas situações para poder conquistar seu sogro e pedir a mão da sua amada em casamento.

Há situações, de fato, engraçadas no filme (a viagem de volta da delegação palmeirense de Tóquio, após a perda do Mundial Interclubes em 1999 para o Manchester United, com Romeu a bordo fardado de palmeirense e confessando a Baragazzi que é corintiano, assim como o rebuliço que se dá com a chegada deles ao aeroporto são realmente engraçadas e resultam em boas gargalhadas), mas há outras patéticas e que beiram o ridículo (como a discussão na quadra de futsal ao lado do condomínio de Romeu, com Baragazzi engessado xingando a vó Nenzica, após a bombástica revelação de Romeu), mostrando com isso a irregularidade da trama. As atuações, à exceção de Luiz Gustavo, deixam a desejar, e não seguram o pique que o filme deveria ter. Além disso, as imagens dos jogos, filmadas muito de cima na arquibancada, não causam muita emoção, revelando com isso uma falta de intimidade de Barreto no mundo da bola, confessada pelo próprio, despertando nos mais nostálgicos saudades do glorioso Canal 100, que era veiculado antes das antigas sessões de cinema. Como em "Bossa Nova", que é uma ode ao Rio de Janeiro, "O Casamento de Romeu e Julieta", como uma espécie de homenagem à cidade de São Paulo, tendo o futebol, mais especificamente a rivalidade entre palmeirenses e corintianos, como pano de fundo, cumpre minimamente, sob certos aspectos, o seu objetivo; em relação a outros pontos, deixa bastante a desejar, como essa própria rivalidade, muito caricatural e forçada no filme (era para ser apenas tragicômico, e não piegas e escrachado em demasia). No final, o óbvio happy end e uma propaganda descarada dos patrocinadores, que poderia e deveria ser mais sutil e menos escancarada. Há diversão, é claro, e por esse quesito vale o ingresso, no melhor estilo das comédias pastelão; mas vá assistir apenas com essa intenção, pois "O Casamento de Romeu e Julieta" tende a resultar em divórcio (amigável, pelo menos), e com separação de bens, é claro, ou alguém imagina palmeirenses e corintianos partilhando em comum as suas paixões?

O CASAMENTO DE ROMEU E JULIETA (2005)

Direção: Bruno Barreto.

Elenco: Luana Piovani, Marco Ricca, Luiz Gustavo, Mel Lisboa, Leonardo Miggiorin

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