O Casamento de Romeu e Julieta
De Bruno Barreto
André Dornelles Pares
 
 

Não há mal maior um filme ser 'água com açúcar'. A história é que muda a pessoa, seja leve, pesada, crua ou doce, complicada ou simples como o soro caseiro. E se este é o problema com o qual se depara a primeira análise de "O Casamento de Romeu e Julieta", a desdita está logo superada.

Talvez pouco importe se o diretor Bruno Barreto quis adoçar sua história. Muitas vezes é melhor mesmo colocar açúcar no copo do que forçar uma tempestade nele. Quem sabe importe mais de qual adoçante se valeu para isso. E aí, o amargo forçado e norte-americanamente desnecessário de "Cidade de Deus", a alegoria brasileiramente raquítica de "Deus É Brasileiro", e o novo velho realismo sem inovação de "Central do Brasil" ou "Abril Despedaçado", podendo-se até esquecer os teatrais estereótipos sempre erroneamente importados para o cinema de "Carandiru", têm um gosto com sabor de velho que "O Casamento de Romeu e Julieta" não tem. O sabor do filme de Barreto, ingênuo que seja, é o da novidade, pequena que seja.

Pois é certo que o futebol não é novo na tela. Ugo Giorgetti já está em "Boleiros 2", a vida de Pelé, independente da qualidade, esteve no cinema ano passado. Fora do Brasil, "Histórias de Futebol", de Andrés Wood, mesmo diretor de "Machuca", foi o melhor filme de 1997 no Chile, e em termos de documentário, "Todos os Corações do Mundo" era a enormidade de cores da copa de 1994 na enorme tela. Entretanto, o que agora é posto em destaque com Barreto, sem drama, pretensa leitura sociológica ou denúncia social, é o fenômeno do futebol na particularidade do personagem. A influência de um simples esporte na vida de um brasileiro simples. Sabe o diretor, mesmo confessando parcial distância do futebol, que se trata de um fenômeno. E o valor que um torcedor comum como eu, tu, talvez não tua mãe, dão a ele: a coisa mais importante entre as coisas desimportantes. Esta é a leveza, a novidade, o sabor e o valor do filme.

"Moral em Concordata", filme brasileiro dirigido pelo português Fernando de Barros em 1959, colocava perfeitamente o futebol no dia do brasileiro. Pelo rádio, Jardel Filho e Armando Bógus, a cada gol perdido pelo Corinthians, bebiam e gritavam, para desespero de uma bela e triste Odete Lara. O filme, apesar da narração de Rubens de Falco isentando a história de ser moral, denunciava as dificuldades da vida no país. O futebol, como a falta de emprego, o descaso do poder público, e a corrupção, era mais uma face do quotidiano brasileiro do meio do século passado. O que Barreto mostra é que ainda é. Porém, e aí a diferença, sem querer caracterizá-lo como ópio, ou estigmatizá-lo como retrato de uma sociedade irresponsável. "O Casamento de Romeu e Julieta" tem a humildade de apenas apresentá-lo como parte integrante da vida do brasileiro, sem julgá-lo, pois julga que o espectador já tem discernimento para tal (quem sabe mais arriscado do que oferecer a leitura ideológica embutida no filme, contudo mais respeitoso), e o que merece mesmo é o que o cinema deve oferecer: uma história.

Antes que pareça outra ode à despretensão, ou apologia da simplicidade à revelia da responsabilidade, que só é entendida responsável através da exposição das mazelas, tenta-se explicar: o filme de Bruno Barreto é bom no papel que acaba tendo: brasileirar o Brasil. Frente ao cansativo e quadrado discurso americano de filmes como "O Lenhador", no qual Kevin Bacon - cada vez mais sucessor de Clint Eastwood, agora pelos projetos moralmente irretocáveis que produz, como este - faz a ode à cultura americana, está a responsabilidade de "O Casamento de Romeu e Julieta". Enquanto o protótipo de herói americano constrói sua dolorosa e fácil jornada rumo ao estrelato do bom moço injustiçado, decorado por bandeiras norte-americanas em inúmeras cenas, o filme de Barreto abre com uma bandeira brasileira decorando um dos maiores patrimônios do país: um estádio lotado em festa.

Não é muito, e nem deveria ser mérito, mas o bastante para podermos começar a descansar do beisebol, do golfe, do futebol americano, do basquete e o que vem a reboque como modelos de comportamento. Agora, somos nós na tela. E nos é oferecida então, a partir do reconhecimento, a possibilidade de nos comportarmos como nós mesmos sem o nosso próprio preconceito. Temos, enfim, modelos brasileiros. Seria chato, apenas, ter que escutar a justificativa solene de que este tipo de representação não serve, na maçante defesa dos itens sempre prontos na prateleira dos produtos audiovisuais nacionais: pobreza, desigualdade social, preconceito racial, fome, violência. Quem sofre de tudo isso está lá no estádio filmado por Barreto. Só que no lugar da denúncia, há a afirmação de uma identidade no seu lado que também vale a pena. Apenas deve ser menos lucrativa, pois sem apelação publicitária, ainda.

A direção exagera em algumas cenas, erra em outras, não esquece dos valores tradicionais como família e religião, e muda alguns parâmetros como a relação aberta entre pais e filhos e o espaço ao futebol feminino. Anda bem pela comédia com Luiz Gustavo e Marco Ricca, e pela metáfora na cena que decide o rumo do filme no meio de uma cancha de futebol - mesmo que o título já o tenha definido num aviso de que não é isso, definitivamente, o que interessa.

Todavia, a maior sacada do diretor é enxergar o que todo mundo vê: um fenômeno que leva de dez a 50 mil pessoas por semana (ao menos nos grandes centros urbanos) a um mesmo lugar não pode ser assim, tão escanteado e subjugado. Deve merecer uma atenção que valha uma história. Além de filmar, a função de um cineasta é observar, para poder extrair e oferecer. Nesse caso, é uma alegria perceber que Bruno Barreto não faz como Jorge Furtado. O gaúcho, com a pretensão de construir uma "história universal", desloca elementos peculiares da cidade de Porto Alegre, e consegue menos que um enredo de novela das seis da tarde. Barreto, sem medo de explorar o lugar que filma, sabendo que deve interferir o mínimo que puder, não tem receio de caracterizar São Paulo, e sabe que pode utilizar-se do específico para tornar universais as histórias de seus personagens, através das peculiaridades de suas vidas, de seus modos, e de sua cidade.

Dizer que só pôde fazê-lo, em grande parte, por causa do esporte que explorou seria o pior gesto da petulância analítica; travestir o "bom" gosto do crítico de relevância social. Ainda mais quando 'só porque o filme é sobre futebol'. Afinal, estamos no Brasil.

10.abr.2005

O CASAMENTO DE ROMEU E JULIETA (2005)

Direção: Bruno Barreto.

Elenco: Luana Piovani, Marco Ricca, Luiz Gustavo, Mel Lisboa, Leonardo Miggiorin.