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O cinema nacional tem produzido, ultimamente, filmes
de boa qualidade, inclusive alguns com repercussão internacional
("Cidade de Deus" e "Carandiru" são bons exemplos),
e a tendência é que esse crescimento continue ocorrendo,
o que soa excelente. A realizadora de "Cazuza" contribuiu
no passado para isso.
A diretora Sandra Werneck, que realizou os divertidos
e inteligentes "Pequeno Dicionário Amoroso" e "Amores
Possíveis", embrenhou-se em uma tarefa nada fácil, a
de adaptar o livro "Só as Mães São Felizes", com depoimentos
de Lucinha Araújo, mãe de Cazuza, e com isso fazer uma
biografia do genial músico e poeta carioca. Mas o resultado,
embora como intenção havia tido a melhor das possíveis,
não atingiu em muito o esperado: embora a idéia seja
promissora, o filme "Cazuza - O Tempo Não Pára" não
deslancha, além de possuir alguns aspectos negativos,
como uma fotografia demasiado escura, e uma tentativa
um pouco frustrada de glamourizar o personagem principal,
o qual, em quase todos os momentos até resulta bem interpretado
pelo novato ator Daniel de Oliveira, escolhido a dedo
para o papel, mas que em alguns momentos peca por um
excesso de artificialismo na interpretação de Cazuza.
Outro ponto fraco são as atuações de Marieta Severo
e Reginaldo Faria, que não parecem muito à vontade (especialmente
Reginaldo) como os pais do músico, e se apresentam muito
caricaturizados. Além disso, o ator Cadu Fávero, que
faz o papel de Frejat, do Barão Vermelho, é péssimo,
embora o roteiro não o ajude, bem como aos demais personagens.
Um exemplo de fragilidade do script está na polêmica
discussão sobre o motivo pelo qual Cazuza deixou a banda,
girando em torno de um ponto controverso, a saber, que
o protagonista gostaria de fazer samba e MPB, e Frejat,
apenas rock, segundo palavras deste:" o Barão é uma
banda apenas de rock " (???). Enfim, essa discussão
parece ser frívola, e se encontra até um pouco fora
de contexto no filme, além de sua veracidade ser questionável.
Como pontos positivos, a caracterização de Cazuza,
desde os tempos de pós-adolescente até o estado terminal
da doença que o vitimou está bem feita, e a alternância
das cenas com os seus principais sucessos dá um tom
nostálgico e saudosista para os espectadores (especialmente
para quem viveu a sua juventude nos áureos e agitados
anos 80). A ideologia de vida do poeta foi igualmente
bem representada.
A tentativa de Sandra Werneck foi boa, mas o presente
filme é muito inferior aos seus dois antecessores já
citados. Ficaram dois sentimentos no ar, o de que a
vida de Cazuza foi intensa e vibrante, como esta produção
pretendeu mostrar (e conseguiu apenas em parte), mas
também ficou perceptível que um grande poeta e visionário
poderia ser mostrado na tela sem excesso de glamourização
e muita idolatria forçada, o que ficaria bem mais honesto
e razoável.
CAZUZA - O TEMPO NÃO PÁRA (2004)
Direção: Sandra Werneck.
Elenco: Daniel de Oliveira, Marieta Severo,
Reginaldo Faria, Cadu Fávero, Leandra Leal.
COTAÇÃO: ***
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