UMA IDEOLOGIA PARA VIVER
Ricardo Rangel
 
 

O cinema nacional tem produzido, ultimamente, filmes de boa qualidade, inclusive alguns com repercussão internacional ("Cidade de Deus" e "Carandiru" são bons exemplos), e a tendência é que esse crescimento continue ocorrendo, o que soa excelente. A realizadora de "Cazuza" contribuiu no passado para isso.

A diretora Sandra Werneck, que realizou os divertidos e inteligentes "Pequeno Dicionário Amoroso" e "Amores Possíveis", embrenhou-se em uma tarefa nada fácil, a de adaptar o livro "Só as Mães São Felizes", com depoimentos de Lucinha Araújo, mãe de Cazuza, e com isso fazer uma biografia do genial músico e poeta carioca. Mas o resultado, embora como intenção havia tido a melhor das possíveis, não atingiu em muito o esperado: embora a idéia seja promissora, o filme "Cazuza - O Tempo Não Pára" não deslancha, além de possuir alguns aspectos negativos, como uma fotografia demasiado escura, e uma tentativa um pouco frustrada de glamourizar o personagem principal, o qual, em quase todos os momentos até resulta bem interpretado pelo novato ator Daniel de Oliveira, escolhido a dedo para o papel, mas que em alguns momentos peca por um excesso de artificialismo na interpretação de Cazuza. Outro ponto fraco são as atuações de Marieta Severo e Reginaldo Faria, que não parecem muito à vontade (especialmente Reginaldo) como os pais do músico, e se apresentam muito caricaturizados. Além disso, o ator Cadu Fávero, que faz o papel de Frejat, do Barão Vermelho, é péssimo, embora o roteiro não o ajude, bem como aos demais personagens. Um exemplo de fragilidade do script está na polêmica discussão sobre o motivo pelo qual Cazuza deixou a banda, girando em torno de um ponto controverso, a saber, que o protagonista gostaria de fazer samba e MPB, e Frejat, apenas rock, segundo palavras deste:" o Barão é uma banda apenas de rock " (???). Enfim, essa discussão parece ser frívola, e se encontra até um pouco fora de contexto no filme, além de sua veracidade ser questionável.

Como pontos positivos, a caracterização de Cazuza, desde os tempos de pós-adolescente até o estado terminal da doença que o vitimou está bem feita, e a alternância das cenas com os seus principais sucessos dá um tom nostálgico e saudosista para os espectadores (especialmente para quem viveu a sua juventude nos áureos e agitados anos 80). A ideologia de vida do poeta foi igualmente bem representada.

A tentativa de Sandra Werneck foi boa, mas o presente filme é muito inferior aos seus dois antecessores já citados. Ficaram dois sentimentos no ar, o de que a vida de Cazuza foi intensa e vibrante, como esta produção pretendeu mostrar (e conseguiu apenas em parte), mas também ficou perceptível que um grande poeta e visionário poderia ser mostrado na tela sem excesso de glamourização e muita idolatria forçada, o que ficaria bem mais honesto e razoável.

CAZUZA - O TEMPO NÃO PÁRA (2004)

Direção: Sandra Werneck.

Elenco: Daniel de Oliveira, Marieta Severo, Reginaldo Faria, Cadu Fávero, Leandra Leal.

COTAÇÃO: ***