|
A idéia não é lá tão original assim, mas apesar disso,
não quer dizer que não vá dar certo: fazer uma sátira
de como são feitos os filmes românticos no cinema, "filmes
de amor" (e entenda-se por "amor", aqui, as comédias
água-com-açúcar do gênero), utilizando-se dos seus próprios
clichês para isso. Foi o que José Roberto Torero teve
em mente ao realizar "Como Fazer um Filme de Amor",
uma comédia romântica que satiriza os próprios filmes
do gênero, e que, se não é uma obra-prima do cinema
nacional, que está excelente em termos de qualidade
de alguns anos para cá, é diversão na certa e garante,
em vários momentos, algumas boas gargalhadas.
Para começo de conversa, Torero parte do princípio
que toda estória de amor deve ter um narrador, e em
"Como Fazer um Filme de Amor", essa figura é Paulo José,
que está a procura do casal ideal em torno de quem toda
a estória irá girar (afinal, em um filme de amor, há
que se ter um casal apaixonado), casal esse que se conhece
por acaso, bate aquela paixão à primeira vista, ainda
que há uma antipatia inicial de um com o outro, mas
depois vem a empatia, e a "babação" mútua, blábláblá...
(típico clichê de filme de amor, não é mesmo?). O casal
escolhido é uma fotógrafa de casamentos, Laura (Denise
Fraga), uma moça tímida e ingênua, que cuida da mãe
cega que sonha com um transplante de córnea, e o executivo
Alan McDermott (Cássio Gabus Mendes), milionário yuppie,
dono de uma agência de modelos, viúvo, entediado com
a vida vazia que leva e que não quer mais saber de envolvimentos
emocionais (tem como conselheiro o seu mordomo, figura
bastante curiosa, cuja sabedoria Alan segue à risca).
Os dois se conhecem, há a antipatia clichê habitual,
mas logo em seguida começam a se dar bem, e a paixão
é despertada (clichê... novidade). E, para não fugir
desse bom clichê, há a vilã da estória, Lilith ( Marisa
Orth ), que é apaixonada por Alan e fará de tudo para
tê-lo e passar por cima de Laura, (mais clichê...),
sempre auxiliada pelo seu fiel escudeiro, o bizarro
Alfred ( André Abujamra), com direito à maldades e baixarias
que deixariam a Nazareth de Renata Sorrah da novela
"Senhora do Destino" com inveja.
Tudo isso é contado pelo narrador, que é constantemente
interrompido pelos protagonistas, em algumas boas tiradas
de humor, assim como em cenas que tiram uma onda dos
melôs bregas que os apaixonados insistem em entoar
para as suas amadas, em situações ridículas, como a
encenada por Alan, ao cantarolar uma serenata de cima
de um caminhão de pamonha com músicas do ultra-brega
cantor Wando para Laura através de um "afinadíssimo"
Cássio Gabus (ahahah... igualmente impagável é a cena
na beira da praia que Alan se declara para Laura, dizendo
: "Eu sei que vou te amar, por toda a minha vida", e
no fundo está tocando o grande clássico da MPB de Tom
Jobim e Vinícius de Moraes).
O narrador Paulo José alerta: esses clichês dos filmes
de amor só servem para tirar o seu tempo e o seu dinheiro,
caso presente também com este filme, um ensaio satírico
e divertido de como realizar um filme romântico (e os
clichês não se resumem apenas às cenas do tipo: há uma
referência a alguns clássicos da história do cinema,
como "Janela Indiscreta", "Nosferatu", na famosa cena
do ataque do vampiro em que a sua sombra aparece na
parede, e "O Iluminado"). José Roberto Torero cumpre
a sua função, ao utilizar o clichê do clichê para fazer
o seu "filme de amor", tirando um sarro de tudo, e a
fórmula acaba funcionando bem. Diversão garantida, com
direito a chocolate, pipoca e refrigerante, claro, para
não fugir do clichê.
COMO
FAZER UM FILME DE AMOR (2004)
Direção: José Roberto Torero.
Elenco: Denise Fraga, Cássio Gabus Mendes,
Marisa Orth, André Abujamra, José Rubens Chachá.
COTAÇÃO: ***
|