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A
GRANDE PIRÂMIDE DE PALHA
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Alexandre
Mesquita
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Os Desafinados (Brasil, 2008): época atual, conjunto
de amigos, todos de barba e cabelos brancos, Davi (Genésio
de Barros), Geraldo (Bene Silva) e PC (Antônio Pedro),
depois de muito tempo, se reencontram ao redor da realização
de um documentário sobre o que significaram no passado.
Reencontro que certamente trouxe a mesma lembrança a cada
um: E o que vocês brasileiros fazem aqui em Nova York?
Bossa Nova? Não tenho a menor idéia. Claro que serei a
vocalista.
Vamos então ao início dos anos sessenta, Rio de Janeiro,
quatro amigos da classe média, Zona Sul, muito da parceria,
sorrisos e bom humor, caminham para participar de um concurso
musical. Joaquim (Rodrigo Santoro), Davi (Angelo Paes
Leme), Geraldo (Jair Oliveira) e PC (André Moraes), montaram
um grupo num estilo que começava a se chamar Bossa Nova,
uma das muitas brotoejas que floresciam na cara do Brasil
em desenvolvimento adolescente dos anos cinqüenta. Juscelino
Kubitschek, construção de Brasília, indústria automobilística,
Cinema Novo.
Após a audição no concurso, um produtor norte-americano
compra uma música deles e promete gravá-la nos EUA. Hipi,
hipi! Viver com a música em Nova York. Quem poderia imaginar?
Nem João Gilberto. Urra! Os quatro, mais o projeto de
cineasta Drico (Selton Mello), partem usando o kit de
viagem internacional mais típico do brasileiro, o mão
na frente e outra atrás, que os acompanhou desde o
aeroporto do Rio de Janeiro até o mesmo aeroporto, seis
meses depois. Não que tivessem deixado de acumular alguma
experiência pelo itinerário. Para dizer a verdade, eles
mudaram. Dois voltaram com o uniforme de imigrantes ilegais,
dois voltaram inexpressivos para a história, e dois (um
dos de uniforme) voltaram brigados, uma mulher linda e
cheia de graça entre eles.
Ah, ia esquecendo, plantaram as sementes da Bossa Nova
lá pelos lados da Quinta Avenida.
O mais entusiasmado, mais artista, mais simpático, e que
mais sofreu com a volta, foi Joaquim. Com o coração apertado,
decolou do Rio vendo a grávida esposa Luíza (Alessandra
Negrini) abanando lá embaixo. Aliás, foi ela quem pagou
a passagem, por acreditar que para o marido uma oportunidade
nos EUA era imperdível. A santa. Pousados na terra da
Estátua da Liberdade, largaram bagagens num hotel de pulgas
e saíram a tocar pelas ruas. Um dia depois, arranhando
um violão distraído pelo Central Park, Joaquim conhece
a brasileirinha Glória (Claudia Abreu), que tocava flauta
para atrapalhar ciclistas. Moça avançada para a época,
convida os quatro amigos, mais Drico, para morar no apartamento
dela.
Claro que será a vocalista.
Depois de descobrir que Joaquim era casado, ela não o
põe para correr junto com os amigos. É mais cáustica.
Toma banho nua na frente dos quatro. Gesto corajoso e
muito bem temperado, que conquistou o coração de Davi,
o sorridente "pé-no-chão" do grupo. Não exigiu muito esforço
para ele um dia acordar sob o cobertor de Glória. Joaquim
solitário na sala, sentado ao piano, compunha a trilha
sonora de Chucka, o Boneco Assassino de Traíras.
Mas, claro, com a batida musical de João Gilberto.
Porém, para Glória, o envolvimento com Davi foi passageiro.
A fim de fugir de quem realmente gostava, esfriou a relação
com o grupo. Amargurado e indeciso, mas com sorte por
escapar do governo americano na hora certa, Joaquim voltou
sozinho ao Rio. Reencontrou Luíza, prestes a dar a luz
à filha (curioso, década de sessenta, e já sabiam o sexo
do bebê). Geraldo e Davi, com menos habilidade para ir
comprar cigarro no momento em que agentes da migração
batem à porta, voltaram extraditados. E Glória ficou abanando
lá embaixo com misteriosa cara de humm. Demorou
o Golpe Militar de 64 para Joaquim e Davi fazerem as pazes
e voltar a tocar juntos. Então, Glória apareceu para retomar
seus direitos de vocalista e de bis com os dois. Acolhida
foi por ambos. De Davi, o momentâneo, usou o apartamento,
e de Joaquim, o artista dividido, usou todo o resto, para
o desespero silencioso de Luíza.
Eis o filme na prática, o quadrado amoroso.
Pois, os outros personagens são como caminhos paralelos
que prometem, mas que viram ruas sem saída. PC ficou mais
importante como filho de militar do que como baterista
do grupo. Geraldo comprou um baixo nos EUA, e o baixo
apareceu mais que ele. Drico (alter-ego do diretor Walter
Lima Jr., que andou militando contra os militares nessa
época), foi premiado em Moscou no mesmo período que os
milicos passaram a dar as cartas por aqui. Quando se pensa
que ele faria o filme pegar fogo sendo perseguido ou torturado,
viaja e só ganha importância décadas depois, velho (Arthur
Kohl) e dublado (desnecessariamente, por Selton Mello),
para o documentário sobre os amigos.
E outros dois personagens que acabaram menos do que prometiam,
foram o período militar brasileiro e o período militar
argentino - o segundo faz até algum estrago, mas convenhamos,
fatos tão marcantes da história ficam péssimos como coadjuvantes
de Joaquim, Davi e Glória trocando olhares e Luíza no
fundo chorando. A má utilização do show de 1964, interrompido
pelos militares, deixa claro isso.
Pois é, Os Desafinados sacoleja entre acertos ótimos
e erros cruciais.
A utilização de recursos técnicos como montagem, jogo
de câmeras, trilha sonora e roteiro mostra competência.
Por exemplo, o desafio de fazer um filme brasileiro tentando
se passar no início dos anos sessenta em outro país merece
um sinal de jóia. Mesclado às imagens de arquivo,
está o cuidado com a câmera nas cenas externas para não
deixar transparecer detalhes modernos, como carros e vitrines.
A Nova York mostrada ficou tão com cara de cinqüenta anos
atrás que até me animei a retomar meu sonho de infância
quando um dia visitá-la, brincar de aviãozinho em cima
do túmulo do King Kong. A trilha sonora de Wagner Tiso
também é ganho de causa.
Além disso, o filme consegue, apesar das suas mais de
duas horas, prender o interesse, mostrando a maturidade
que o cinema brasileiro deveria ter atingido já na década
de oitenta, quando saíram vários filmes sobre perseguições
políticas, quebra de direitos, AI-5. Porém, naqueles tempos,
influenciados pelo cinema de autor americano e europeu,
os diretores queriam parecer gênios. Mas como o povão
não sacava muito que noventa minutos de interpretações
"teatralescas", misturando poesia, com sociologia e filosofia
em mesas de boteco, queriam dizer alguma coisa (falando
a verdade, nem eu), para evitar inconvenientes com platéias
mal humoradas - como depredações -, tudo se ajeitava com
cinco minutos de mulher pelada (genial, genial!), o que
sacramentou a fama dos filmes nacionais.
Rodrigo Santoro mostra que está de bem com seus afazeres.
Caras e bocas de artista que vive intensamente seu coração,
veste guarda-roupa compatível com cabelo desgrenhado e
barba dor-de-cotovelo, e até toca piano e canta direitinho.
Claudia Abreu é uma atriz de muito tempo na ativa. Não
há o que ela faça que já não tenhamos visto. Mesmo assim,
este personagem rebelde no período militar que ela interpretou
umas cinco vezes convence. Ângelo Paes Leme foi a grande
surpresa, consistente, sóbrio, passa muita credibilidade
e carisma tranqüilo. Ele e Claudia foram vencedores respectivamente
como ator coadjuvante e atriz principal do festival de
Paulínia. Selton Melo é o mais talentoso do grupo, mas
tem dedicado muito de si a personagens perturbados. Sinal
amarelo, meu caro, se não você vai acordar um dia achando
que é Marlon Brando interpretando Selton Mello, e isso
é muito perigoso, pode acabar ganhando o Kikito e mandando
uma índia no seu lugar. Alessandra Negrini tem curta participação,
mas está como o suficiente gosta.
Mas, por outro lado, qual é a de Os Desafinados?
Começa com um grupo musical que, enquanto não estávamos
olhando, ajudou a difundir no exterior o estilo Bossa,
do samba calmo com jazz, da pausa e das letras de amores
platônicos do cotidiano da Zona Sul carioca (simbolizando
artistas que realmente fizeram isso na época, como Carlinhos
Lyra, Vinícius de Morais, Tom Jobim, e claro, João Gilberto).
O surgimento do intenso imbróglio amoroso em ritmo de
letra de música reforça a idéia. Porém, de repente, sai
a Bossa e vem a sombra da farda: o diretor subversivo
premiado em Moscou, shows históricos interrompidos na
base do cacetete, sumiço em Buenos Aires. De duradouro,
apenas o imbróglio.
A qual assunto devemos atribuir a linha mestra? À Bossa
Nova? Às conseqüências dos militares na vida artística
brasileira? Nenhum deles vai a fundo em si mesmo para
dizer: eu mando. E mais, embora algumas cenas rápidas
de nu por parte de Claudia Abreu, e na minha opinião,
nudez que deveria ter sido melhor explorada para potencializar
as próprias cenas, nem de longe dá para dizer que o artifício
da mulher pelada foi usado. Mas não que tenha deixado
de ocorrer um recurso semelhante. Minha impressão é que
Walter Lima trocou a nudez agrada-povão pela Bossa
Nova. Isso mesmo, alguns minutos de performances musicais
só para aparentar mais sofisticação à obra.
Outro problema, congênito aos filmes bem feitos para mostrar
serviço: não apaixona. Talvez faltou ao diretor de A
Ira do Delírio e A Ostra e o Vento ter apelado
um pouquinho, uma ceninha melosa aqui ou ali, sem culpa.
Obteria o final que o próprio final insinua que gostaria.
Os personagens "sessentões", com carinho, olhando para
a câmera e lembrado de como era quarenta anos antes, com
o público embarcando com eles na emoção. Não acontece.
Nos rumos da balança, Os Desafinados é filme bom.
Bem dirigido. Roteiro largo, que não se perdeu, mérito
de Walter Lima Jr., Suzana Macedo e Elena Soarez. Mas,
mas, mas. Abordando tanta coisa, indicou a pretensão de
ser um épico da história recente. Os Egípcios se propuseram
a construir a maior obra já feita em sua época, a Grande
Pirâmide. Entanto tiveram de gastar décadas, vidas e material
próprio para isso. Ela dura até hoje. Se o filme se concentrasse
numa das propostas e fosse a fundo nela, seria como a
pirâmide em menor escala, sólida e duradoura. Mas como
quis se estender em dimensões, sem os recursos e soluções
necessárias, se transformou numa enorme pirâmide de palha,
ou em apenas um filme bem feito com mais de duas horas,
que por se alongar demais com o passado, acho que será
esquecido. Uma pena.
OS DESAFINADOS (Brasil, 2008)
Direção: Walter Lima Jr.
Elenco: Rodrigo Santoro, Selton Mello, Claudia
Abreu, Angelo Paes Leme, Genésio de Barros, Antonio Pedro,
Arthur Kohl.
Cotação: *** |
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