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Fazer um filme baseado em um clássico da lietratura
brasileira - como é "Dom Casmurro"
de Machado de Assis - não é tarefa fácil.
Tal desígnio se torna ainda mais árduo
quando se resolve adaptar a trama para os dias atuais
sem que isto se perca demasiado do vínculo com
a obra original e não acabe sendo uma afronta
à mesma. Pois o diretor Moacyr Góes, egresso
do teatro, foi bastante feliz em sua concepção
de "Dom". Em primeiro lugar, "Dom"
é filmado de maneira muito clássica, sem
requintes de modernismo narrativo e/ou visual, o que
é algo muito arriscado: pode dar certo ("Romeu+Julieta",
de Baz Luhrmann) ou soar terrivelmente errado ("Hamlet",
de Michael Almereyda). Tão clássica quanto
sua filmagem, a trama de "Dom" faz uma referência
muito interessante à obra machadiana: a da história
que sai do livro e toma seu lugar na vida real tal qual
uma sina.
Falar da trama do filme é justamente assinalar
este fado. O bem-sucedido engenheiro Bento (Marcos Palmeira)
é o "Dom" da película, que viveu
um amor de infância com Ana (Maria Fernanda Cândido),
sua "Capitu", que ressurge avassaladoramente
em sua vida e o conduz a viver um destino semlhante
ao do protagonista da obra de Machado de Assis. Temos
então um interessante paralelo ao confrontar
os rumos dos dois Casmurros, que poderia soar
como a inevitabilidade de um destino literalmente escrito
de modo prévio.
Um destaque fica para o elenco. Maria Fernanda Cândido,
prêmio de melhor atriz no último Festival
de Gramado, está excelente. Marcos Palmeira,
ainda que não tão bem dramaticamente quanto
o necessário, é convincente. Bruno Garcia,
como Miguel, personificação do Escobar
do romance original, não chega a comprometer.
Luciana Braga faz corretamente o seu papel de uma solteira
desesperada afetivamente. No geral, em termos de representação,
o resultado fica acima da média.
O filme é curto, em torno de uma hora e meia
de projeção, mas isso não significa
que seja raso. Ele é tão coeso quão
hermético, e ainda que o trágico final
seja anunciado prematuramente nas primeiras cenas, não
há perda de vigor em antecipar tal fato. Modernizar
um clássico como "Dom Casmurro" não
é apenas adaptá-lo aos tempos atuais,
é também mostrar que seu tema é
atemporal, algo que "Dom" faz, e muito bem.
DOM (2003)
Direção: Moacyr Góes.
Elenco: Marcos Palmeira, Maria Fernanda Cândido,
Bruno Garcia, Luciana Braga, Malu Galli.
Cotação: ****
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