CASMURRO MODERNO
Adriano de Oliveira
 
 

Fazer um filme baseado em um clássico da lietratura brasileira - como é "Dom Casmurro" de Machado de Assis - não é tarefa fácil. Tal desígnio se torna ainda mais árduo quando se resolve adaptar a trama para os dias atuais sem que isto se perca demasiado do vínculo com a obra original e não acabe sendo uma afronta à mesma. Pois o diretor Moacyr Góes, egresso do teatro, foi bastante feliz em sua concepção de "Dom". Em primeiro lugar, "Dom" é filmado de maneira muito clássica, sem requintes de modernismo narrativo e/ou visual, o que é algo muito arriscado: pode dar certo ("Romeu+Julieta", de Baz Luhrmann) ou soar terrivelmente errado ("Hamlet", de Michael Almereyda). Tão clássica quanto sua filmagem, a trama de "Dom" faz uma referência muito interessante à obra machadiana: a da história que sai do livro e toma seu lugar na vida real tal qual uma sina.

Falar da trama do filme é justamente assinalar este fado. O bem-sucedido engenheiro Bento (Marcos Palmeira) é o "Dom" da película, que viveu um amor de infância com Ana (Maria Fernanda Cândido), sua "Capitu", que ressurge avassaladoramente em sua vida e o conduz a viver um destino semlhante ao do protagonista da obra de Machado de Assis. Temos então um interessante paralelo ao confrontar os rumos dos dois Casmurros, que poderia soar como a inevitabilidade de um destino literalmente escrito de modo prévio.

Um destaque fica para o elenco. Maria Fernanda Cândido, prêmio de melhor atriz no último Festival de Gramado, está excelente. Marcos Palmeira, ainda que não tão bem dramaticamente quanto o necessário, é convincente. Bruno Garcia, como Miguel, personificação do Escobar do romance original, não chega a comprometer. Luciana Braga faz corretamente o seu papel de uma solteira desesperada afetivamente. No geral, em termos de representação, o resultado fica acima da média.

O filme é curto, em torno de uma hora e meia de projeção, mas isso não significa que seja raso. Ele é tão coeso quão hermético, e ainda que o trágico final seja anunciado prematuramente nas primeiras cenas, não há perda de vigor em antecipar tal fato. Modernizar um clássico como "Dom Casmurro" não é apenas adaptá-lo aos tempos atuais, é também mostrar que seu tema é atemporal, algo que "Dom" faz, e muito bem.

DOM (2003)

Direção: Moacyr Góes.

Elenco: Marcos Palmeira, Maria Fernanda Cândido, Bruno Garcia, Luciana Braga, Malu Galli.

Cotação: ****