UMA HISTÓRIA SEM DONO
Ricardo Rangel
 
 

Daniel Filho tenta, em uma total falta de originalidade, imitar Sandra Werneck em "A Dona da História", e, além de não conseguir tal feito, o produto final é de pouca qualidade, mesmo desconsiderando-se o seu exercício frustrado desta arte mimética. Diferentemente do bom filme "Amores Possíveis" de Sandra Werneck, no qual supostamente Daniel Filho inspirou-se para fazer a narração cinematográfica, "A Dona da História", protagonizado por Marieta Severo e Débora Falabella, não convence, é marcado por situações previsíveis, que caem numa certa obviedade para o espectador, além de as atuações não ajudarem muito (as duas atrizes citadas são competentes, mas nesse filme parecem estar pouco à vontade, provavelmente fruto das deficiências cinematográficas que este possui, e isto se aplica também a praticamente todo o elenco).

Em "Amores Possíveis", o bom casal de atores (e ex-casados na vida real) Murilo Benício e Carolina Ferraz interpreta três possíveis destinos para dois jovens que se apaixonam, se separam (por razões diversas), e que o destino quis que no futuro se reencontrassem e vivessem as suas histórias de amor. Em um deles, Carlos, vivido por Benício, é casado mas infeliz no matrimônio; ele reencontra Júlia, personagem de Carolina, que era sua paixão no passado e que, após a tê-la convidado para ir ao cinema, desencontrou-se da mesma, e nunca mais se viram. Nas outras duas histórias, os seus personagens possuem os mesmos nomes, mas suas realidades são bem diferentes: Carlos, em uma delas, era casado com Júlia e a trocou por outro homem, assumindo a sua homossexualidade, e, na outra, ele é solteiro, mora com a mãe superprotetora e está a procura de um amor ideal, vai a uma empresa especializada em procurar o par perfeito, e adivinhem quem ele encontra? Júlia, uma antiga amiga que tomou outros rumos na vida, e eles se reencontram (coincidências ???). As histórias são contadas simultaneamente, em uma narrativa bem estruturada e contada, e que se mantém ao longo de toda a projeção.

Em "A Dona da História", o recurso utilizado é muito semelhante, com a diferença de que não existem, como em "Amores Possíveis", três histórias simultâneas, mas sim, uma só, que vai alternando os possíveis destinos da jovem Carolina (Débora Falabella), que conhece o amor de sua vida, Luiz Cláudio (Rodrigo Santoro), em uma passeata comunista, onde, em um destino possível, casam, sendo que Marieta Severo e Antônio Fagundes, respectivamente, os interpretam depois de velhos. Dentro das outras possibilidades de destino apresentadas por Daniel Filho no seu filme, está uma em que Carolina vira uma atriz famosa, e outra em que é uma solteirona convicta, e tudo isto intermediando as duas Carolinas, a jovem e a velha, que contracenam juntas com o intuito de contrapor a vida de uma com a da outra, nos diferentes tempos em que vivem, em diálogos que versam sobre os seus anseios, desejos e frustrações. Só que essa técnica não fica bem no filme, resultando em diálogos por vezes ridículos, desnecessários e piegas (apesar dos esforços de Débora e Marieta, que acabam não ajudando muito, embora a primeira esteja muito próxima, como atuação, da sua personagem global da novela das nove, apelidada de "Maria Enjoada ").

O contexto em que tudo se passa também deixa a desejar: o revolucionário comunista Luiz Claúdio está "fora da casinha" com Rodrigo Santoro, e é um pouco salvo por Antônio Fagundes, que até segura as pontas em alguns momentos. A modelo e apresentadora Fernanda Lima também aparece em cena, como a melhor amiga de Carolina na juventude, e isso por si só mostra uma certa falta de critério na escolha do elenco para o filme, pois apesar de possuir belos dotes físicos, a gaúcha ainda precisa melhorar muito se quiser seguir uma carreira de atriz.

Nitidamente, "A Dona da História" é uma produção sem dono, e sem dona também, pois o personagem principal, dividido entre Débora Falabella e Marieta Severo, naufraga, assim como quase todo o resto do elenco, nas obviedades da trama, e na falta de imaginação ao tratar de um tema deveras "batido" no mercado. O que deveria ser diferencial em tudo, isso sim, seria a exploração de uma temática com essas características, mas conduzida com originalidade e até uma certa ousadia, ficou demasiadamente em falta, o que torna a projeção da Globo Filmes um mero folhetim de novela de matinê.

A DONA DA HISTÓRIA (2004)

Direção: Daniel Filho.

Elenco: Marieta Severo, Antônio Fagundes, Débora Falabella, Rodrigo Santoro, Fernanda Lima.

COTAÇÃO: **