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Daniel Filho tenta, em uma total falta de originalidade,
imitar Sandra Werneck em "A Dona da História", e, além
de não conseguir tal feito, o produto final é de pouca
qualidade, mesmo desconsiderando-se o seu exercício
frustrado desta arte mimética. Diferentemente do bom
filme "Amores Possíveis" de Sandra Werneck, no qual
supostamente Daniel Filho inspirou-se para fazer a narração
cinematográfica, "A Dona da História", protagonizado
por Marieta Severo e Débora Falabella, não convence,
é marcado por situações previsíveis, que caem numa certa
obviedade para o espectador, além de as atuações não
ajudarem muito (as duas atrizes citadas são competentes,
mas nesse filme parecem estar pouco à vontade, provavelmente
fruto das deficiências cinematográficas que este possui,
e isto se aplica também a praticamente todo o elenco).
Em "Amores Possíveis", o bom casal de atores (e ex-casados
na vida real) Murilo Benício e Carolina Ferraz interpreta
três possíveis destinos para dois jovens que se apaixonam,
se separam (por razões diversas), e que o destino quis
que no futuro se reencontrassem e vivessem as suas histórias
de amor. Em um deles, Carlos, vivido por Benício, é
casado mas infeliz no matrimônio; ele reencontra Júlia,
personagem de Carolina, que era sua paixão no passado
e que, após a tê-la convidado para ir ao cinema, desencontrou-se
da mesma, e nunca mais se viram. Nas outras duas histórias,
os seus personagens possuem os mesmos nomes, mas suas
realidades são bem diferentes: Carlos, em uma delas,
era casado com Júlia e a trocou por outro homem, assumindo
a sua homossexualidade, e, na outra, ele é solteiro,
mora com a mãe superprotetora e está a procura de um
amor ideal, vai a uma empresa especializada em procurar
o par perfeito, e adivinhem quem ele encontra? Júlia,
uma antiga amiga que tomou outros rumos na vida, e eles
se reencontram (coincidências ???). As histórias são
contadas simultaneamente, em uma narrativa bem estruturada
e contada, e que se mantém ao longo de toda a projeção.
Em "A Dona da História", o recurso utilizado é muito
semelhante, com a diferença de que não existem, como
em "Amores Possíveis", três histórias simultâneas, mas
sim, uma só, que vai alternando os possíveis destinos
da jovem Carolina (Débora Falabella), que conhece o
amor de sua vida, Luiz Cláudio (Rodrigo Santoro), em
uma passeata comunista, onde, em um destino possível,
casam, sendo que Marieta Severo e Antônio Fagundes,
respectivamente, os interpretam depois de velhos. Dentro
das outras possibilidades de destino apresentadas por
Daniel Filho no seu filme, está uma em que Carolina
vira uma atriz famosa, e outra em que é uma solteirona
convicta, e tudo isto intermediando as duas Carolinas,
a jovem e a velha, que contracenam juntas com o intuito
de contrapor a vida de uma com a da outra, nos diferentes
tempos em que vivem, em diálogos que versam sobre os
seus anseios, desejos e frustrações. Só que essa técnica
não fica bem no filme, resultando em diálogos por vezes
ridículos, desnecessários e piegas (apesar dos esforços
de Débora e Marieta, que acabam não ajudando muito,
embora a primeira esteja muito próxima, como atuação,
da sua personagem global da novela das nove, apelidada
de "Maria Enjoada ").
O contexto em que tudo se passa também deixa a desejar:
o revolucionário comunista Luiz Claúdio está "fora da
casinha" com Rodrigo Santoro, e é um pouco salvo por
Antônio Fagundes, que até segura as pontas em alguns
momentos. A modelo e apresentadora Fernanda Lima também
aparece em cena, como a melhor amiga de Carolina na
juventude, e isso por si só mostra uma certa falta de
critério na escolha do elenco para o filme, pois apesar
de possuir belos dotes físicos, a gaúcha ainda precisa
melhorar muito se quiser seguir uma carreira de atriz.
Nitidamente, "A Dona da História" é uma produção sem
dono, e sem dona também, pois o personagem principal,
dividido entre Débora Falabella e Marieta Severo, naufraga,
assim como quase todo o resto do elenco, nas obviedades
da trama, e na falta de imaginação ao tratar de um tema
deveras "batido" no mercado. O que deveria ser diferencial
em tudo, isso sim, seria a exploração de uma temática
com essas características, mas conduzida com originalidade
e até uma certa ousadia, ficou demasiadamente em falta,
o que torna a projeção da Globo Filmes um mero folhetim
de novela de matinê.
A DONA DA HISTÓRIA (2004)
Direção: Daniel Filho.
Elenco: Marieta Severo, Antônio Fagundes, Débora
Falabella, Rodrigo Santoro, Fernanda Lima.
COTAÇÃO: **
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