ENTREVISTA: ANDRUCHA WADDINGTON (DIRETOR) E PARTICIPAÇÃO DE FERNANDA MONTENEGRO (ATRIZ) , DE "CASA DE AREIA"
Por Adriano de Oliveira
 
 

Sexta-feira, 29 de abril de 2005. É uma fria manhã porto-alegrense, mas nada que arrefeça o extraordinário calor humano de Fernanda Montenegro e Andrucha Waddington. Bem-dispostos, simpáticos, atenciosos, conversaram com a imprensa local sobre "Casa de Areia". Fernanda dispunha de pouquíssimo tempo para a entrevista (cerca de meia hora), pois tinha vôo de partida da cidade em muito breve, mas em contrapartida, Andrucha mostrou ter todo o tempo do mundo para calmamente responder às perguntas dos entrevistadores.

As observações de Fernanda às perguntas se mostraram mais concernentes à sua atuação, ao fato de contracenar com a filha e à influência da produção no ambiente das locações. Com Waddington, foi possível detalhar aspectos da criação e realização do filme e da carreira de diretor. Essa pauta se mostrou mais atraente aos representantes do Cine Revista, cujas perguntas a Andrucha e respectivas respostas são transcritas abaixo.

CINE REVISTA (Adriano de Oliveira): Andrucha, você vem da publicidade e do videoclipe. E isso é algo que se torna bastante perceptível no visual caprichado, muito peculiar, em especial neste filme. Há algum tempo o cinema, em particular o americano, vem recebendo diretores egressos do setor publicitário. Um dos primeiros foi o Ridley Scott, no final da década de 70, início da década de 80. Nos anos 90, veio toda uma geração de cineastas advindos do mercado publicitário, como Michael Bay e Dominic Sena, entre outros. Em função disso, queria lhe perguntar: você acha que o trabalho no vídeo de publicidade é uma boa escola para se fazer cinema?
ANDRUCHA WADDINGTON : Sem dúvida, (o vídeo publicitário) é uma boa escola para se aprender a filmar. É uma base, mas que tem restrições: a mais importante é de que ali não há espaço para autoralidade. É um trabalho sob encomenda. Há uma divisão bem clara entre o mercado e o cinema. Lá eu faço uma coisa, aqui faço outra. No cinema, o corte final é meu. Por isso, gosto de ser produtor dos filmes que dirijo. Assim, posso me permitir a fazer o que acho mais interessante. Posso fazer experimentações. E acho que não se deve deixar de experimentar, isso é fundamental, ter liberdade.

CINE REVISTA (Adriano de Oliveira): Como foi que surgiu a idéia de incluir o Paradoxo dos Gêmeos da Teoria da Relatividade no roteiro de "Casa de Areia"? Lá há duas passagens em que isso ocorre, muito marcantes.
ANDRUCHA WADDINGTON : Nós fizemos uma pesquisa de eventos marcantes do século XX. Algo bem preliminar no começo: pesquisamos em um almanaque que narrava a cada década os fatos mais importantes. Dali, procuramos separar aqueles que pudessem dar uma métrica de tempo àquela região isolada onde o filme se passa. Para fazer essa marcação, eram necessários elementos que viessem do céu. O cometa Halley é uma influência do meu avô, que dizia ser um espetáculo, que chamava muita atenção naquela época (1910). Veio também a II Guerra Mundial, que se mostra aos personagens pelo vôo dos pássaros prateados- os aviões- e pela busca de corpos no litoral maranhense. A Teoria da Relatividade entra nessa história porque foi aqui no Brasil, particularmente em Sobral, que ela foi comprovada. O marco geodésico que é visto no filme é idêntico àquele no Ceará.


CINE REVISTA (Adriano de Oliveira): Enquanto você está rodando um filme, já está trabalhando em outro. Você poderia adiantar alguns dados sobre seu trabalho atual em andamento e será seu próximo produto, "Os Penetras"?
ANDRUCHA WADDINGTON : Sim. Será uma comédia urbana, protagonizada pelo Rodrigo Santoro e o Selton Mello. É a história de um operador de marionetes em um teatrinho de shopping e um guia turístico. Eles são opostos: um é ingênuo, bom moço, outro é malandro de carteirinha. A narrativa se passa entre os dias 30 de dezembro de 2006 e 02 de janeiro de 2007. O filme será lançado no final de 2006, e eu vou voltar a Porto Alegre para divulgá-lo. Vamos nos reencontrar lá!


CINE REVISTA (Ricardo Rangel): Assim como você já fez com "Gêmeas", você tem a intenção de filmar outra obra rodrigueana?
ANDRUCHA WADDINGTON : Uma obra vinda da literatura, sim…Meu sonho particular é fazer "Grande Sertão: Veredas" (de Guimarães Rosa). Isso seria algo fantástico! Gosto muito de diversificar o tipo de filmes que faço a cada um deles. Kubrick é meu ídolo, ele fez 13 filmes e nunca se repetiu. Eu procuro fazer filmes que tragam elementos novos entre eles. A única ligação que há entre eles é um detalhe em comum a "Eu Tu Eles" e "Casa de Areia": a trama de ambos se dá no isolamento. E somente isso.

CINE REVISTA (Adriano de Oliveira): Em relação à temática do filme, é curioso que ela é semelhante à de "Limbo", obra do John Sayles...
ANDRUCHA WADDINGTON : "Limbo"? Não conheço este filme. Vou ver hoje, então! Fiquei curioso!

CINE REVISTA (Adriano de Oliveira): É uma fita com Mary Elizabeth Mastrantonio, Vanessa Martinez e David Strathairn. Eles são três personagens que têm o azar de cair numa ilha remota a sudeste do Alasca, totalmente isolada da civilização, e lá ficam numa espécie de purgatório pessoal, assim como as protagonistas de "Casa de Areia".
ANDRUCHA WADDINGTON : Gostei do termo "purgatório pessoal", é uma excelente definição para "Casa de Areia".

CINE REVISTA (Adriano de Oliveira): Bem, como "Limbo" não lhe é ainda conhecido, vou mudar minha pergunta. Quais suas principais influências cinematográficas para criar "Casa de Areia"?
ANDRUCHA WADDINGTON : "Casa de Areia" é uma homenagem ao filme japonês "Mulheres de Areia"... Esse filme me marcou muito.

Leia também o artigo de Adriano de Oliveira sobre o filme.
Confira o artigo de Ricardo Rangel sobre o filme.