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Em uma recente passagem rápida por Porto Alegre, o
filme "Meu Nome É Dindi" apresentou aos cinéfilos
que o puderam apreciar um cinema pulsante, feito com
garra e técnica, superando obstáculos que o baixo orçamento
normalmente impõe a um filme autoral. Bruno Safadi,
um jovem cineasta de 28 anos que já dirigiu quatro curtas
e foi assistente de direção das lendas vivas do cinema
brasileiro Nelson Pereira dos Santos e Júlio Bressane,
estreou como diretor de um longa com este filme. Ele
nos concedeu a seguinte entrevista.
CINE REVISTA (Adriano de Oliveira): A câmera
colada nos personagens, que aparece em vários segmentos
do filme, é uma idéia sua ou sugestão do diretor de
fotografia Lula Carvalho, que realizou recurso idêntico
no longa de Selton Mello "Feliz Natal"?
BRUNO SAFADI: Todas as decupagens do filme são
minhas. Logicamente há uma parceria em todos os setores
do filme, com todos os colaboradores do filme, mas a
idéia foi minha. A idéia de um filme todo em câmera
na mão e que num plano-sequência tivéssemos diversos
planos. Abertos e fechados.
CINE REVISTA (Adriano de Oliveira): De onde vem
a inspiração surrealista para as cenas do sonho na praia?
Buñuel, Lynch? Ou algum pintor em especial?
BRUNO SAFADI: A inspiração vem de muitos lugares,
mas sai de uma maneira própria, minha. Para mim vem
mais de Fellini, de Roman Polansky e também dos pintores
surrealistas, principalmente o Magritte. Mas pode-se
encontrar paralelos em Buñuel, Lynch, Gondry, Ruy Guerra...
CINE REVISTA (Adriano de Oliveira): Parece existir
uma metáfora na história narrada em "Dindi":
assim como a quitanda representa o pequeno negócio versus
o mega-varejo (que é o supermercado), pode se estabelecer
um paralelo com o cinema de pequena escala, independente,
"marginal", de arte (como o é "Meu Nome É Dindi")
lutando contra as super-produções, o mainstream,
o blockbuster. O senhor intencionou em fazer
algo assim, ou então, concorda com essa idéia?
BRUNO SAFADI: Concordo com a idéia, sim, pois
a intenção era criar uma história universal, que fosse
marcada por fatores do nosso Tempo. Inventei a história
da quitanda versus supermercado, mas poderia ser muitas
outras, inclusive Cinema de Arte versus Cinema Blockbuster.
CINE REVISTA (Adriano de Oliveira): Há diversas
referências em "Meu Nome É Dindi", que vão de
Bressane a Fred Zinnemann (a cena do beijo na praia),
passando por Lynch. O senhor pretende seguir fazendo
esse tipo de referências em seus próximos trabalhos
como diretor e roteirista?
BRUNO SAFADI: Olha, o que vou fazer amanhã, ainda
não sei exatamente. De certo, tenho um filme-documentário
sobre a Belair e um de ficção chamado Éden sobre
a conversão de uma mulher à igreja evangélica. Mas posso
dizer que tudo me influencia. Sou uma pessoa do mundo,
que vive as coisas do mundo, portanto, sou influenciável.
E ainda bem. Enquanto tiver influências tão boas assim
e que saiam nas minhas obras à minha maneira de fazer
cinema, serei feliz. Não vejo isso como algo negativo.
E sim como positivo. Ter um primeiro filme de longa-metragem
que faça lembrar cineastas tão ilustres só me enchem
de orgulho. Acho que comecei bem.
CINE REVISTA (Adriano de Oliveira): Por que a
opção de realizar um filme constituído de diversos planos-sequência
unidos? Dentro da mesma questão: como foram os ensaios
tendo em vista essa opção técnico-estética? Qual foi
o plano que mais deu trabalho?
BRUNO SAFADI: Bom, a idéia de fazer o filme em
planos-sequências partiu de uma vontade de refletir
esse conceito tão caro à história do Homem que
é o Tempo. E esse conceito precisava passar pela linguagem
cinematográfica. E uma ótima experimentação do Tempo
no Cinema é o plano-sequência. O plano-sequência é um
esgarçamento do tempo cinematográfico. Outro fator contribuinte
para a escolha foi o econômico. Tinha uma necessidade
vital de realizar um filme de longa-metragem. E não
podia esperar um edital. Para isso, precisei realizar
um filme independente de recursos públicos, um filme
urgente, barato. E para se fazer filme barato é necessário
filmar rápido. Para se filmar rápido, precisa-se de
muitos minutos filmados por dia. Para muitos minutos
filmados, planos longos. A partir dessas duas pré-disposições,
criei toda a história e conceitos.
Antes dos ensaios, conversei muito com o Lula Carvalho,
Diretor de Fotografia, com o Moa Batsow, Diretor de
Arte, e com a Sofia Saadi, Diretora Assistente. Foram
muitas conversas, afinações. Depois, parti para os os
ensaios com a Djin Sganzerla. Foi um mês de ensaios.
E com o Lula e ela apenas no set. Já tinha a
decupagem na cabeça. E logicamente houve uma ou outra
mudança na hora, coisas naturais de uma filmagem.
O plano mais difícil foi o que a Dindi sabe da morte
do Pai e se enrola na fita. Levamos 10 horas para fazer
a luz do plano. Tive apenas uma hora e meia para filmar
e o dia estava prestes a nascer. Para completar, precisamos
fazer oito takes até ficar bom. O dia já estava
clareando. Foi pressão total. Mas enquanto não ficou
bom, não desisti. E valeu a pena o rigor!
CINE REVISTA (Adriano de Oliveira): Nota-se uma
grande preocupação em fazer um cinema fortemente imagético
em "Dindi", e para isso não houve economia de
ferramentas: há planos em superclose e há panorâmicas;
câmera estática e câmera irrequieta acompanhando a ação;
tem iluminação difusa, tonalidade graduada e luz low-key.
E o espectador fica maravilhado. Claro que imagem pode
não ser tudo num filme, mas qual a importância dela
no seu cinema e quais suas inspirações para "pintar
com a câmera"?
BRUNO SAFADI: Um respeito e um amor tremendo
à História da Imagem na História do Homem. Desde que
o Homem começou a se entender como Homem, ele procurou
se representar em imagem. Essa busca permanece até hoje
e passou pela caverna, pelo sarcófago, pela escultura,
pela pintura, pela fotografia, até chegar ao cinema.
Isso me fascina. Estudo essa trajetória e pretendo levá-la
adiante, fazendo cada filme como se ele fosse único,
o primeiro e o último, com todo o amor depositado em
cada plano. Uma máxima: em cada plano um filme. O rigor
total. Agora se houverem erros, isso faz parte da história
do Homem e da Arte. Mas sempre darei o meu máximo.
O site Cine Revista agradece a atenção e a
gentileza de Bruno Safadi.
Um agradecimento também a João Perassolo da "Foco
Jornalístico Assessoria de Imprensa", o qual ajudou
a tornar possível esta entrevista exclusiva.
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