ENTREVISTA EXCLUSIVA: SÉRGIO SILVA
Por Adriano de Oliveira
 
 

O diretor de "Noite de São João", Sérgio Silva, falou com exclusividade para o Cine Revista, logo após uma exibição de seu mais recente trabalho para o público do Clube de Cinema de Porto Alegre, neste último domingo, 27 de junho.

CINEREVISTA - Em 1997, "Anahy de Las Misiones" foi um dos expoentes da retomada do cinema brasileiro, inclusive obtendo o prêmio "Resgate do Cinema Nacional". Qual a diferença entre fazer um filme naquela época e hoje?

SÉRGIO SILVA - Parece incrível, mas o segundo filme é sempre mais difícil. E no aspecto financeiro também. Ainda estamos fechando captação de recursos. Em muitas coisas, "Anahy" foi bem mais fácil de se fazer.

CINEREVISTA - Como surgiu a idéia de realizar uma distribuição independente de "Noite de São João"? Quantas cópias da película existem no mercado?

SÉRGIO SILVA - Encontramos dificuldades com as distribuidoras. A Riofilme poderia ter feito a distribuição, mas acabou por não manifestar um maior interesse. Resolvemos seguir em frente, bancar a distribuição por nós mesmos. Estão circulando cinco cópias do filme, cada uma das quais nos custou sete mil reais ao laboratório.

CINE REVISTA - Tanto "Anahy", com a figura corajosa da "Madre" (Araci Esteves), quanto em "Noite...", com a empolada e - a princípio - dominadora Júlia (Fernanda Rodrigues), são utilizadas personagens femininas bastante fortes. O senhor tem uma preferência por esse tipo de personagem ao escolher o roteiro e conduzir a narrativa?

SÉRGIO SILVA - Sim, sem dúvida gosto muito da idéia de personagens femininas fortes, destemidas, marcantes. Na literatura gaúcha, historicamente elas são características. Basta lembrar apenas dois exemplos: Ana Terra e Bibiana. Acho muito importante representar no cinema o papel da matriarca dentro de um estado e de uma sociedade machistas e como ela luta para encontrar seu espaço.

CINE REVISTA - Falando ainda em personagens femininas, percebe-se um grande carinho que o senhor tem pela Araci Esteves. Ela estará em seu próximo filme?

SÉRGIO SILVA - Com certeza! Entretanto, no próximo, o personagem principal será masculino, de acordo com o roteiro.

CINE REVISTA - Poderia nos adiantar algo sobre seu novo projeto?

SÉRGIO SILVA - Inicialmente, o título deverá ser "Quase um Tango Argentino", e diferentemente dos outros dois filmes anteriores, será contemporâneo.

CINE REVISTA - E o elenco, algo definido?

SÉRGIO SILVA - Elenco é sempre um elemento imprevisível. Para "Noite de São João", os personagens principais seriam o Marcos Palmeira e a Letícia Sabatella. Mas o Marcos estava bastante envolvido com a novela "Porto dos Milagres", e a Letícia também estava muito ocupada. Optamos pela Fernanda Rodrigues e o Marcelo Serrado, que trabalharam bem.

CINE REVISTA - Uma das mais belas cenas do filme está no "flashback" que une na mesma cena uma memória da infância dos personagens centrais e, tornando ao tempo presente, eles na festa, sentados junto à fogueira. Como foi feita essa composição de cena?

SÉRGIO SILVA - Por continuidade, através do corte. A montagem permite esse recurso, e o fizemos com o (José Carlos) Macias, montador argentino com mais de 40 filmes no currículo, inclusive (o oscarizado como filme estrangeiro) "A História Oficial".

CINE REVISTA - Para encerrar a entrevista, queria lembrar de um comentário do Rubens Ewald Filho quando do lançamento de "Anahy". Ele disse, na época, que aquele filme lembrava os bons faroestes fordianos. Além dos filmes já realizados sobre o tema da "Miss Julie", como o de Mike Figgis, houve algum outro que o influenciou na rodagem de "Noite..."?

SÉRGIO SILVA - Fui sócio do Clube de Cinema (de POA), e o Gastal nos abarrotava de filmes japoneses, do Kobayashi e do Kurosawa, entre outros. Lembrei-me de "Ran" do Kurosawa, quando ocorre a cena da queima do castelo. Lá ocorria que saía o som do efeito, "realista", e ficava somente o som daquela cena reflexiva. Depois o som "normal" acabava voltando, trazendo com ele a realidade. Repeti essa influência na cena do diálogo dos personagens principais durante a festa, eles ficam sozinhos e, naquele momento, o som é só deles.

Leia também a crítica do filme "Noite de São João".