O BE-A-BÁ DO ABC
Ricardo Rangel
 
 

"Garotas do ABC", de Carlos Reichenbach, é um filme de alguns bons momentos e outros nem tanto, que alterna entre um bom ritmo de narrativa e algumas boas tiradas de humor com falhas de roteiro e uma estruturação por vezes repartida e que foge um pouco do fio da meada da história. O cotidiano retratado por Reichenbach é o da região do ABC paulista, um complexo industriário recheado de trabalhadores metalúrgicos e sindicalistas, e o cenário escolhido para tanto é o de uma fábrica de tecelagem. O roteiro gira em torno da personagem central, Aurélia (Michelle Valle), funcionária da fábrica e filha de um pai autoritário, vivido por Antônio Pitanga, e que começa a namorar um integrante de um grupo racista do submundo da região.

O filme procura contrastar duas realidades distintas dentro do Universo do ABC: a vida profissional e pessoal dos trabalhadores da região, em especial as funcionárias da Tecelagem Mazzini, e um bando de desajustados que se auto-intitula como uma espécie de fazedores de justiça do pedaço, liderados pelo insano advogado "Dr." Salesiano, bem interpretado por Selton Mello. Em meio a tudo isso está um jornalista que conhece os meandros das rixas entre os diferentes grupos de domínio desse submundo (os "justiceiros"), e que está investigando uma explosão em um estabelecimento, feita em forma de protesto pelo bando de Salesiano. O problema é a conexão que deveria existir entre esses "mundos" diferentes, e que Reichembach não encontra para dar suporte à narrativa: Aurélia, que é mulata, namora Fábio, figura ensandecida que é amigo de infância de Salesiano e "pau mandado" seu, assim como todos os outros loucos integrantes do seu bando neonazista. Mas aqui já há uma primeira contradição: como um adepto da teoria ignorante e estúpida, que pretende banir nordestinos, negros e semelhantes da região do ABC e tornar o local "puro" (...) envolve-se justamente com uma negra? Isso não fica bem claro no filme, qual essa intenção, além de insistir em uma prática que já virou um chavão totalmente desnecessário, que é a de relacionar a música de Richard Wagner com o nazismo (o "Dr." Salesiano, metido a intelectual besta que fala para loucos ignorantes, adora ouvir Wagner nas suas incursões dementes!).

Outro ponto obscuro e não explicitado no filme é a origem desses grupos, e as suas rivalidades no ABC: qual a gênese do seu racismo, e o que motiva tal comportamento injustificável e ignorante? Ficou faltando isso. Por outro lado, o foco sobre núcleo da fábrica mantém-se razoavelmente bom, tendo-se até alguma lembrança, pela suposta intenção não-efetuada do diretor, a saber, de dar uma conotação política a alguns elementos (há um sindicalista na fábrica, mas que está igualmente mal explorado, e também esse contraste, do defensor dos direitos dos trabalhadores com os nazistas pirados e bizarros não ficou bom), com "Norma Rae", em que Sally Field faz uma sindicalista também de uma fábrica de tecelagem que se revolta contra o sistema e sai em luta das "companheiras". Mas é bom deixar claro: essa comparação fica apenas por aqui, pois a suposta "defensora das operárias" Paula Nélson (Natalia Lorda) de "Garotas do ABC" nem consegue atingir rasamente tal patamar.

O que salva um pouco o filme é o humor: as situações envolvendo os nazis tupiniquins são tão bizarras que nos fazem gargalhar em vários momentos (a velha bêbada da birosca em que eles se encontram para jogar sinuca e tramar as suas "grandiosas" ações é impagável), mas, apesar disso, o resultado final ficou bem aquém daquilo que deveria ser. Mas a diversão é certa, do que se pode concluir que "Garotas do ABC", no fim das contas, é um filme que não pode ser levado tão a sério assim.

GAROTAS DO ABC (2004)

Direção: Carlos Reichenbach.

Elenco: Michelle Valle, Selton Mello, Natália Lorda, Fernando Pavão, Antônio Pitanga, Rocco Pitanga, Fernanda Carvalho Leite.

COTAÇÃO: ***