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"Garotas do ABC", de Carlos Reichenbach, é um filme
de alguns bons momentos e outros nem tanto, que alterna
entre um bom ritmo de narrativa e algumas boas tiradas
de humor com falhas de roteiro e uma estruturação por
vezes repartida e que foge um pouco do fio da meada
da história. O cotidiano retratado por Reichenbach é
o da região do ABC paulista, um complexo industriário
recheado de trabalhadores metalúrgicos e sindicalistas,
e o cenário escolhido para tanto é o de uma fábrica
de tecelagem. O roteiro gira em torno da personagem
central, Aurélia (Michelle Valle), funcionária da fábrica
e filha de um pai autoritário, vivido por Antônio Pitanga,
e que começa a namorar um integrante de um grupo racista
do submundo da região.
O filme procura contrastar duas realidades distintas
dentro do Universo do ABC: a vida profissional e pessoal
dos trabalhadores da região, em especial as funcionárias
da Tecelagem Mazzini, e um bando de desajustados que
se auto-intitula como uma espécie de fazedores de justiça
do pedaço, liderados pelo insano advogado "Dr." Salesiano,
bem interpretado por Selton Mello. Em meio a tudo isso
está um jornalista que conhece os meandros das rixas
entre os diferentes grupos de domínio desse submundo
(os "justiceiros"), e que está investigando uma explosão
em um estabelecimento, feita em forma de protesto pelo
bando de Salesiano. O problema é a conexão que deveria
existir entre esses "mundos" diferentes, e que Reichembach
não encontra para dar suporte à narrativa: Aurélia,
que é mulata, namora Fábio, figura ensandecida que é
amigo de infância de Salesiano e "pau mandado" seu,
assim como todos os outros loucos integrantes do seu
bando neonazista. Mas aqui já há uma primeira contradição:
como um adepto da teoria ignorante e estúpida, que pretende
banir nordestinos, negros e semelhantes da região do
ABC e tornar o local "puro" (...) envolve-se justamente
com uma negra? Isso não fica bem claro no filme, qual
essa intenção, além de insistir em uma prática que já
virou um chavão totalmente desnecessário, que é a de
relacionar a música de Richard Wagner com o nazismo
(o "Dr." Salesiano, metido a intelectual besta que fala
para loucos ignorantes, adora ouvir Wagner nas suas
incursões dementes!).
Outro ponto obscuro e não explicitado no filme é a
origem desses grupos, e as suas rivalidades no ABC:
qual a gênese do seu racismo, e o que motiva tal comportamento
injustificável e ignorante? Ficou faltando isso. Por
outro lado, o foco sobre núcleo da fábrica mantém-se
razoavelmente bom, tendo-se até alguma lembrança, pela
suposta intenção não-efetuada do diretor, a saber, de
dar uma conotação política a alguns elementos (há um
sindicalista na fábrica, mas que está igualmente mal
explorado, e também esse contraste, do defensor dos
direitos dos trabalhadores com os nazistas pirados e
bizarros não ficou bom), com "Norma Rae", em que Sally
Field faz uma sindicalista também de uma fábrica de
tecelagem que se revolta contra o sistema e sai em luta
das "companheiras". Mas é bom deixar claro: essa comparação
fica apenas por aqui, pois a suposta "defensora das
operárias" Paula Nélson (Natalia Lorda) de "Garotas
do ABC" nem consegue atingir rasamente tal patamar.
O que salva um pouco o filme é o humor: as situações
envolvendo os nazis tupiniquins são tão bizarras que
nos fazem gargalhar em vários momentos (a velha bêbada
da birosca em que eles se encontram para jogar sinuca
e tramar as suas "grandiosas" ações é impagável), mas,
apesar disso, o resultado final ficou bem aquém daquilo
que deveria ser. Mas a diversão é certa, do que se pode
concluir que "Garotas do ABC", no fim das contas, é
um filme que não pode ser levado tão a sério assim.
GAROTAS DO ABC (2004)
Direção: Carlos Reichenbach.
Elenco: Michelle Valle, Selton Mello, Natália
Lorda, Fernando Pavão, Antônio Pitanga, Rocco Pitanga,
Fernanda Carvalho Leite.
COTAÇÃO: ***
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