DEPOIS DO FILÉ
Adriano de Oliveira
 
 

Um grande filme é algo maravilhoso para o presente de um diretor, mas um perigoso fantasma para seu futuro. A crítica e os espectadores aguardam que seu próximo trabalho seja, no mínimo, do mesmo nível que o anterior, mas, desejavelmente, superior a este.

Ocorre que, depois do filé que representou "O Homem Que Copiava"(2003), servido por Jorge Furtado ao público cinéfilo, agora nos vem "Meu Tio Matou um Cara", prato frio e bem menos apetecível que o anterior. Os ingredientes que, adicionados, contribuem para a insipidez cinematográfica dessa receita são diversos, e tal mistura resulta pouco palatável.

Primeiramente, é importante registrar que a fórmula a qual caracterizou os recentes roteiros com participação de Furtado começa a dar sinais de cansaço. Os diálogos rápidos e espertos, os pequenos dramas urbanos, o processo construtivo da história, a condução da trama por protagonistas jovens, marcas do roteirista-diretor que atingiram seu ápice em "O Homem Que Copiava", agora vêem, nesta produção mais recente, seu vale, sua depressão.

Contribui para esse declínio a atuação do trio de adolescentes protagonistas, em especial Darlan Cunha, totalmente inexpressivo. A suposta timidez do personagem não é desculpa para uma representação sem acento algum, ausente de sentimento, robótica. Os adultos da fita ao menos não comprometem: é de Ailton Graça, Dira Paes e, principalmente, de Lázaro Ramos, que emergem os poucos bons momentos de "Meu Tio Matou um Cara". Desnecessário anotar que Débora Secco permanece muito limitada, como de praxe.

A montagem sempre competente de Giba Assis Brasil é a residência do ponto forte da fita, salvando parcialmente a realização de um projeto que aparenta ser uma síntese de elementos característicos das produções anteriores da Casa de Cinema de Porto Alegre - a trama criminal de "Tolerância", a ingenuidade adolescente de "Houve uma Vez Dois Verões", a artimanha de "O Homem Que Copiava" - mas que não consegue combinar adequadamente tais componentes.

MEU TIO MATOU UM CARA (2004)

Direção: Jorge Furtado.

Elenco: Darlan Cunha, Lázaro Ramos, Sophia Reis, Ailton Graça, Dira Paes, Débora Secco.

COTAÇÃO: **