A ÚLTIMA MARCHA DA COLUNA PRESTES
Adriano de Oliveira
 
 

"Olga", o filme, baseado no best-seller homônimo de Fernando Morais, não é uma adaptação das mais felizes. Entre acertos e erros, o saldo é negativo, mas ainda assim merece atenção.

Com um orçamento relativamente baixo em comparação com as produções americanas, totalmente rodado no Rio de Janeiro, é uma realização que afirma a qualidade técnica do cinema nacional recente, com excelente som e fotografia. Apesar de tocar em um tema que é caro à nossa história, tem um aspecto de internacionalização quanto à sua qualidade, parecendo querer almejar também o mercado exterior.

O problema é que aqui findam as pétalas da rosa e começam os espinhos. A direção do experiente na TV, mas novato no cinema, Jayme Monjardim, deixa a desejar. Por muitas vezes, parece que estamos vendo a versão para a tela grande de uma minissérie televisiva. O uso de closes demasiado fechados para captar a dramaticidade é chavão da tela pequena que infelizmente oculta a boa cenografia do filme no cinema, e torna a projeção enfadonha, repleta de cabeças gigantes enchendo a tela. A montagem igualmente não ajuda, calcada na linguagem da outra mídia.

A personagem-título, interpretada por Camila Morgado, recebe uma caracterização ondulante, oscilando entre a "super-atuação" teatral, o dramalhão mexicano e inclusive a falta de expressividade, esta em especial nas passagens de cenas de diálogos em que a protagonista é ouvinte. Os diálogos do roteiro de Rita Buzzar não colaboram (vários deles são rasos, outros soam artificialmente grandiloqüentes demais) e a situação se torna ainda mais aguda quando, em ambientações na Rússia e na Alemanha, as línguas locais mantêm conversação arbitrariamente com nossa língua pátria, provocando o espanto da platéia ou o riso involuntário da mesma.

Os demais personagens têm atuações variadas, ente o burocrático (Fernanda Montenegro, como Leocádia Prestes) e o convincente (Caco Ciocler, como o "cavaleiro da esperança" Luís Carlos). Osmar Prado fornece boa representação ao seu papel de Getúlio Vargas, incorporando o sotaque gaúcho e a firmeza do personagem histórico.

Lamenta-se que a direção de arte seja o maior atributo de um filme prejudicado em outros aspectos, entre os quais a pouco sutil trilha de Marcus Viana, que, ao invés de ser utilizada para sublinhar as passagens dramáticas, é efetivada para grafá-las em negrito e caixa alta. Aliás, muitas vezes o drama é exacerbado para provocar o choro do espectador, o que só acontece com aqueles mais sensíveis.

É inegável que "Olga" é um triunfo técnico, o que justifica o ingresso na sala de projeção, mas, na narração da última marcha da Coluna Prestes havia potencial para ser bem mais do que o produto final que é apresentado ao público.

OLGA (2004)

Direção: Jayme Monjardim.

Elenco: Camila Morgado, Caco Ciocler, Osmar Prado, Fernanda Montenegro, Werner Schünemann, Murilo Rosa, Jandira Martini, Guilherme Weber, Floriano Peixoto, Leona Cavalli, Mariana Lima, José Dumont.

COTAÇÃO: **