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"Pelé Eterno" lembra "Assassinos Substitutos", ação
dirigida por Antoine Fuqua. O cinema não é tão importante
ao diretor quanto a carta de amor à personagem central:
no longa-metragem dirigido por Fuqua, o astro de ação
chinês Chow Yun-Fat, no por Aníbal Massaíni, o jogador
de futebol Edson Arantes do Nascimento, o Pelé.
Fuqua, quando explora a figura Yun-Fat, dispensa história
e as demais personagens em favor de uma montagem que
valoriza a imagem mítica surgida nos filmes de ação
de Hong Kong; os ângulos, os detalhes, os movimentos
exatos, calculados. "Pelé Eterno" aposta na reiteração.
É uma repetição dos sucessos e glórias já conhecidos
por qualquer brasileiro, quase uma coletânea "o melhor
de".
"Pelé Eterno" é uma montagem pouco energética de vários
momentos de Pelé. É uma jornada do herói sem provações,
pois não há drama, apenas o elogio à capacidade do jogador.
É tudo muito fácil, é tudo muito simples. Até os momentos
de suposta falha soam como sucessos, pois são tão resumidos.
Não há interesse em gerar drama. É a documentação com
falsa emoção. Não tem a tensão e energia de um jogo
de futebol. Como na grande maioria de filmes que trata
do tema, o cinetismo e dramaticidade do jogo de futebol
é perdido. Não se torce em nenhum momento. O filme não
nos faz esquecer que estamos assistindo um filme, apesar
de, em momentos, ser demasiado apelativo.
A trilha incidental é um absurdo. Talvez a trilha
incidental mais incômoda e intrusiva desde "Canibais",
de Michael e Peter Spierig. Em alguns momentos age como
se fosse trilha de um épico. As falhas da trilha incidental
não chegam a ser superadas, mas pelo menos são amenizadas
pela escolha de músicas populares.
Para não ser injusto, o momento interessante do filme
é a corrida para o milésimo gol de Pelé, onde se encontram
a festa da mídia, os interesses políticos e a própria
disposição de Pelé, uma jogando contra a outra e gerando
drama. É uma seqüência marcante; seria possível fazer
um filme completo à partir dessa. Como é, "Pelé Eterno"
não passa de uma reafirmação do valor do Rei do Futebol.
Nada de novo, nenhum confronto, nenhuma coragem. É um
filme sem vísceras, um jogo de elogios esquecíveis.
O problema de "Pelé Eterno" reside na escolha de seu
sujeito. Falar mal de Pelé constitui em crime inafiançável,
no país do futebol. Então, o Pelé cinematográfico torna-se
uma personagem desinteressante pelo excesso de sucessos
e virtudes. O sucesso não é dos temas mais cinematográficos
sem uma queda para contrabalançá-lo. É um filme que
encontra seu rumo no título e segue até o final sem
surpreender. É um informativo mais que uma obra cinematográfica.
Particularmente, numa completa digressão, é importante
notar que "Os Intocáveis", de Brian De Palma, é o melhor
filme sobre futebol já feito. Por quê? Porque Al Capone
(Robert De Niro) explicita o que é um time, num monólogo
inesquecível, e que se deve sempre pensar no time antes
de si. Talvez o filme sobre Pelé fosse um filme melhor
se explorasse seus colegas, se dividisse as glórias,
pois outros dez homens estavam sempre no campo. Capone
acaba a cena com uma pancada na cabeça de alguém que
não soube jogar no time. Mais fundo nessa digressão
está a construção de pequenas vitórias e grandes perdas,
para Elliot Ness (Kevin Costner), culminando na perseguição
final, em cima do telhado do tribunal. Naquele momento,
é impossível não torcer, pois temos carga emocional
o suficiente. Sorrir é possível com as pequenas vitórias
de Ness, chorar é possível com as grandes perdas. E
tanto choramos e investimos nas perdas, que queremos
a desforra, como se fosse a rixa em pessoa. De Palma
compreende que o grande vilão é o time adversário, e
nós temos que não apenas torcer para o nosso jogador
preferido fazer um gol, mas para o goleiro se dar mal.
E é isso que faz um filme de futebol: a torcida.
PELÉ ETERNO (2004)
Direção: Aníbal Massaini.
Narração: Fulvio Stefanini.
COTAÇÃO: **
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