PELÉ NO CINEMA, ENTENDE?
Davi O. Pinheiro
 
 

"Pelé Eterno" lembra "Assassinos Substitutos", ação dirigida por Antoine Fuqua. O cinema não é tão importante ao diretor quanto a carta de amor à personagem central: no longa-metragem dirigido por Fuqua, o astro de ação chinês Chow Yun-Fat, no por Aníbal Massaíni, o jogador de futebol Edson Arantes do Nascimento, o Pelé.

Fuqua, quando explora a figura Yun-Fat, dispensa história e as demais personagens em favor de uma montagem que valoriza a imagem mítica surgida nos filmes de ação de Hong Kong; os ângulos, os detalhes, os movimentos exatos, calculados. "Pelé Eterno" aposta na reiteração. É uma repetição dos sucessos e glórias já conhecidos por qualquer brasileiro, quase uma coletânea "o melhor de".

"Pelé Eterno" é uma montagem pouco energética de vários momentos de Pelé. É uma jornada do herói sem provações, pois não há drama, apenas o elogio à capacidade do jogador. É tudo muito fácil, é tudo muito simples. Até os momentos de suposta falha soam como sucessos, pois são tão resumidos. Não há interesse em gerar drama. É a documentação com falsa emoção. Não tem a tensão e energia de um jogo de futebol. Como na grande maioria de filmes que trata do tema, o cinetismo e dramaticidade do jogo de futebol é perdido. Não se torce em nenhum momento. O filme não nos faz esquecer que estamos assistindo um filme, apesar de, em momentos, ser demasiado apelativo.

A trilha incidental é um absurdo. Talvez a trilha incidental mais incômoda e intrusiva desde "Canibais", de Michael e Peter Spierig. Em alguns momentos age como se fosse trilha de um épico. As falhas da trilha incidental não chegam a ser superadas, mas pelo menos são amenizadas pela escolha de músicas populares.

Para não ser injusto, o momento interessante do filme é a corrida para o milésimo gol de Pelé, onde se encontram a festa da mídia, os interesses políticos e a própria disposição de Pelé, uma jogando contra a outra e gerando drama. É uma seqüência marcante; seria possível fazer um filme completo à partir dessa. Como é, "Pelé Eterno" não passa de uma reafirmação do valor do Rei do Futebol. Nada de novo, nenhum confronto, nenhuma coragem. É um filme sem vísceras, um jogo de elogios esquecíveis.

O problema de "Pelé Eterno" reside na escolha de seu sujeito. Falar mal de Pelé constitui em crime inafiançável, no país do futebol. Então, o Pelé cinematográfico torna-se uma personagem desinteressante pelo excesso de sucessos e virtudes. O sucesso não é dos temas mais cinematográficos sem uma queda para contrabalançá-lo. É um filme que encontra seu rumo no título e segue até o final sem surpreender. É um informativo mais que uma obra cinematográfica.

Particularmente, numa completa digressão, é importante notar que "Os Intocáveis", de Brian De Palma, é o melhor filme sobre futebol já feito. Por quê? Porque Al Capone (Robert De Niro) explicita o que é um time, num monólogo inesquecível, e que se deve sempre pensar no time antes de si. Talvez o filme sobre Pelé fosse um filme melhor se explorasse seus colegas, se dividisse as glórias, pois outros dez homens estavam sempre no campo. Capone acaba a cena com uma pancada na cabeça de alguém que não soube jogar no time. Mais fundo nessa digressão está a construção de pequenas vitórias e grandes perdas, para Elliot Ness (Kevin Costner), culminando na perseguição final, em cima do telhado do tribunal. Naquele momento, é impossível não torcer, pois temos carga emocional o suficiente. Sorrir é possível com as pequenas vitórias de Ness, chorar é possível com as grandes perdas. E tanto choramos e investimos nas perdas, que queremos a desforra, como se fosse a rixa em pessoa. De Palma compreende que o grande vilão é o time adversário, e nós temos que não apenas torcer para o nosso jogador preferido fazer um gol, mas para o goleiro se dar mal. E é isso que faz um filme de futebol: a torcida.

PELÉ ETERNO (2004)

Direção: Aníbal Massaini.

Narração: Fulvio Stefanini.

COTAÇÃO: **