O Preço da Paz / ***
Isidoro Guggiana
 
 

Paulo Morelli é um dos melhores diretores brasileiros da atualidade, um criador acima de qualquer roteiro ruim. "O Preço da Paz" é a prova filmada disso. Realizado em 2002, o primeiro longa-metragem do diretor é o trabalho de um grande entusiasta do cinema. Isso não é garantia de qualidade, mas "O Preço da Paz" é um trabalho cheio de qualidades, mas com um texto bem sofrível.

E eu não estou falando desses cineastas auto-proclamados "apaixonados" pela Sétima Arte. Esses mesmos que fazem filmes mornos e sem graça ou ruins mesmo. Estou falando de alguém que faz essa euforia aparecer em todos os frames da película projetada na tela. Paulo Morelli deve ser um daqueles diretores que grita para a sua equipe em alto e bom som:

- Está perfeito! Perfeito! Perfeito!!! Eu amo todos vocês!!!

Mesmo que o tal take não tenha ficado lá essas coisas e o roteiro também não seja grande coisa. É o caso de "O Preço da Paz". Nas mãos de outro diretor, o texto de Walther Negrão - sério demais, pedante, didático ou chato mesmo - resultaria em um filme desastroso. Morelli alterna entre a monotonia do texto e o brilhantismo dos grandes cineastas.

O filme conta a história do Barão de Serro Azul (Herson Capri) que, durante a Revolução Federalista, tenta impedir sem o uso de armas que Curitiba seja destruída pelos revolucionários gaúchos liderados por Gumercindo Saraiva (Lima Duarte). Falar mais seria estragar surpresas.

Bem, o filme está dividido em dois núcleos. O primeiro é o núcleo sério representado por Herson Capri, Giulia Gam que faz a esposa do Barão, Danton Mello, o burguesinho que pega em armas para defender Curitiba, e Camila Pitanga, a escrava que trabalha para o Conde. Eles são tão chatos, tão unidimensionais e desinteressantes que fica difícil acreditar neles.

O Barão em momento algum parece ser a pessoa importante que ele deveria ser para Curitiba. Ele apenas usa roupas bonitas e cartola e fala sobre o quanto ama sua família. A esposa Giulia é ainda mais tediosa. Também não há nada nela que desperte algum sentimento. Ela anda para lá e para cá dentro do filme também a dizer diálogos óbvios de amor família e nada mais, aliás, o que todos desse núcleo mais ou menos fazem. O romance entre Danton e Camila é frio demais para ser considerado.

O lado que brilha no filme, aquele que realmente merece com que a audiência se importe com os personagens, é o núcleo por assim dizer, menos sério, os "vilões" gaúchos. Lima Duarte está tão over-the-top com seu Gumercindo Saraiva, tão caricato, tão magnífico, que apenas o seu personagem - um gaúcho tão pouco convincente quanto qualquer outro do cinema - é melhor que o próprio filme.

O veterano Duarte sabe muito bem o que está fazendo. Ele tem a total consciência de que tudo aquilo é um filme e que seu personagem não passa de um clichê. E o que ele faz? Ele vai em frente. Ele é o correspondente gaúcho do japonês Sonny Chiba - o mestre Hattori Hanzo - em "Kill Bill". Outro personagem maravilhoso é o braço direito de Gumercindo, Cezário, outro gaúcho que não convence ninguém, interpretado por José de Abreu, que está excelente por ser ruim mesmo. O simples fato destes personagens saírem de cena por qualquer razão significa uma grande perda de qualidade para o filme.

Paulo Morelli mostra seus brios fazendo os gaúchos parecerem bandoleiros dignos do melhor faroeste americano (ou italiano). Suas cenas de ação são magníficas, talvez as melhores do cinema nacional em anos. Seus planos de luz e cores são perfeitos entre cavalgadas e interiores iluminados à luz de vela, cena após cena. É cinema em estado puro feito por um grande apaixonado. A coisa realmente desanda quando a história tenta entrar na política ou cai para o drama. O roteiro de "O Preço da Paz" está há milhas de ser um "Capitães de Abril" quando tenta dar dimensão ao conflito político ou aos personagens dentro desse contexto. "Capitães" funciona porque tem um afiado senso de humor.

"O Preço da Paz" sofre com a irregularidade entre o texto de Walther Negrão e a direção inventiva de Morelli que sabe que tudo aquilo não passa de um filme e que não se levar a sério também faz parte do espírito de se fazer um filme por assim dizer "sério". Paul Verhoeven sempre soube disso. E é por isso que o diretor de "O Quarto Homem" e "Conquista Sangrenta" é um dos melhores cineastas vivos. Morelli está indo nesse mesmo caminho.

O PREÇO DA PAZ (2003)

Direção: Paulo Morelli.

Elenco: Herson Capri, Giulia Gam, Camila Pitanga, Danton Mello, José de Abreu, Lima Duarte.

COTAÇÃO: ***