|
"Quase Dois Irmãos", de Lúcia Murat, é uma espécie
de "mistura" entre "Cidade de Deus" e "O Que
É Isso, Companheiro?", guardadas, evidentemente,
as devidas proporções: "Cidade de Deus", de Fernando
Meirelles, é uma obra prima na filmografia nacional,
referência tanto aqui no Brasil quanto no exterior,
tendo recebido algumas indicações ao Oscar em prêmios
técnicos e direção (inexplicavelmente, não concorreu
a melhor filme estrangeiro), enquanto "O Que É Isso,
Companheiro?", bastante inferior, é claro, concorreu
a esta categoria em Hollywood (e perdeu!). Mas por quê
essa comparação, talvez um pouco despropositada? Pelo
seguinte: o filme de Lúcia Murat trata de questões sociais,
política e violência urbana, assim como nas duas produções
já referidas, mas traz um elemento inovador nesse coquetel
todo: a difícil e complexa relação entre indivíduos
oriundos de diferentes classes sociais, enfocando os
traumas que essas desigualdades podem trazer tanto às
famílias envolvidas quanto à sociedade como um todo.
Lúcia Murat foi presa política na época da ditadura
militar, viveu essa fase conflituosa na pele, portanto
tem autoridade para lidar com o tema, e é a isso que
ela se propõe ao contar a história de dois amigos de
infância, criados no mesmo ambiente, mas de formações
diferentes, e as suas semelhanças e diferenças ao longo
dos caminhos que percorrem.
Miguel e Jorginho foram amigos inseparáveis na infância,
jogavam bola na mesma vila, e nutriam uma paixão em
comum: a música, particularmente o samba. Jorginho tinha
um pai músico, sambista nato, e herdou esta verve do
pai nas suas veias, sua mãe trabalhava na casa da família
de Miguel, estudante de classe média, daí tendo nascido
o encontro e a amizade entre ambos (um destaque especial
merece a trilha sonora, com belas músicas de Luiz Melodia
e Naná Vasconcelos). O tempo passa, e vem a década de
setenta, os tempos negros da ditadura, e Miguel e Jorginho
estão agora confinados no presídio da Ilha Grande, no
Rio de Janeiro, mas por razões diferentes: Miguel (Caco
Ciocler, excelente em cena) é um intelectual de esquerda,
ativista político, que luta contra o regime militar,
e Jorginho (o gaúcho Flávio Bauraqui, também excelente,
uma promessa de um ator muito interessante, que já havia
chamado a atenção ao contracenar com o igualmente talentoso
Lázaro Ramos no polêmico "Madame Satã"), um assaltante
das ruas cariocas. A amizade persiste, com Jorginho
fazendo parte dos chamados presos políticos, que tinham
três regras de comportamento na prisão, a saber: eram
terminantemente proibidos o consumo de maconha, práticas
pederásticas e desonestidades como o roubo entre os
companheiros; além disso, todas as decisões visavam
o bem do coletivo, da comunidade toda, e o lema era
mais ou menos o seguinte: um por todos, todos por um.
Só que os nossos amigos presos políticos, descendentes
em sua maioria da classe média carioca intelectualizada,
não contavam com a chegada de bandidos comuns, advindos
da criminalidade das vilas, e que conheciam Jorginho:
o choque cultural e as diferenças ficam evidenciadas
logo de início, e a convivência vai tornando-se mais
tensa e violenta à medida em que todos vão expondo os
seus pontos de vista e as suas idiossincrasias. O grupo
de Pingão, o líder dos auto-intitulados "presos proletários",
não respeita as normas dos revolucionários de esquerda
politizados, e a separação é necessária, com a construção
de um muro dividindo o presídio, rachando em dois o
contingente penitenciário, tendo Jorginho migrado para
o grupo de Pingão e começado a sua ascensão, a partir
desse fato, no mundo do crime violento.
A história toda é contada através de rememorações do
passado e flashbacks por Miguel e Jorginho nos
dias atuais, com uma realidade bem distinta para ambos,
confrontada pelas suas posições atuais na sociedade:
Miguel, agora vivido pelo insosso ator Werner Schünemann,
é um deputado federal preocupado com questões sociais,
e que vai até a cadeia fazer uma visita ao seu velho
amigo Jorginho (Antônio Pompeu), que se tornou chefe
do tráfico nos morros cariocas, propondo a adoção de
um projeto social nas favelas. Ironicamente, a filha
de Miguel, Juliana (Maria Flor), é apaixonada por bailes
funks, e ela, uma garota de classe média, deliberadamente
sobe o morro atrás do namorado, o traficante Delei (Renato
Souza), protegido de Jorginho, e que disputa com o traficantezinho
de meia-tigela, cabeça-de-vento, mas muito violento
e impulsivo, Duda, o poder do tráfico na favela, expondo-se
a muitos riscos, e contra a vontade do pai, causando
transtornos em toda a família de Miguel.
Ao expor as diferenças entre esses mundos distintos,
bem como a crueldade com que os bandidos comuns resolvem
os seus assuntos, além da impotência de haver alguma
esperança nesse mundo cão (vide aqui outra comparação
com "Cidade de Deus", além da questão temática
da violência: no filme de Fernando Meirelles, o traficante
Benê, melhor amigo de Zé Pequeno, era um cara legal,
um bandido com um código ético e de conduta no mundo
do tráfico, que, contudo não sobreviveu à barbárie -
é impossível ser bom e justo nesse mundo, e talvez esta
seja uma das lições a se tirar desta amarga realidade
paralela), Lúcia Murat expõe as feridas sociais de forma
crua e visceral, fornecendo uma visão nada romântica
ou glamourizada a respeito da utopia de nos vermos como
sendo todos iguais. O crime, a violência, a ignorância,
o sentimento de revolta impede a confraternização que
deveria ser necessária para o bom convívio humano, em
harmonia. Mas essas diferenças entre ricos e pobres,
que trazem todos esses elementos à baila nessa discussão,
impedem isso, e tanto assim, que, no filme, os bandidos
comuns não aceitaram as regras dos intelectuais por
julgarem esse propósito um ideal vazio de uma burguesia
que, no entender deles, não sabia o que era trabalhar
e/ou roubar, seqüestrar, matar não por ideal político,
mas por profundas questões sociais. Assim como aos presos
políticos, que não conseguiram impetrar sua democracia
e o livre pensar por questões culturais e que, apesar
de terem matado e seqüestrado também, não sabiam nada
da dura vida, quanto para os bandidos comuns, tanto
um lado quanto o outro saem derrotados nessa guerra
insana.
A visão da diretora, por já ter estado imersa nessas
questões, e de ter vindo da classe média, assim como
o personagem de Miguel, que é o seu alter ego no filme,
com a do roteirista Paulo Lins (que também escreveu
o motivo de "Cidade de Deus"), cuja origem é
a da favela, e está incorporado por Jorginho, fazem
o contraponto necessário para a fluidez e a abordagem
forte de "Quase Dois Irmãos". O Comando Vermelho
nasceu desta cisão no presídio da Ilha Grande, através
dos bandidos comuns, e incorporou a si, posteriormente,
algumas das regras político-morais dos esquerdistas
torturados pelo regime militar: isso, é óbvio, não deve
e não pode servir de exemplo como algo que tenha dado,
de certa forma, certo, pois nada de correto ocorreu:
todos se deram mal, inclusive os intelectuais, que perderam
a sua causa - o fim da ditadura não foi uma vitória
completa - mas essa é outra questão, demasiado complexa
para ser analisada e discutida com a rasidade que está
sendo feita aqui. "Quase Dois Irmãos" tem um
final brusco e seco, refletindo esse sentimento de derrota
iminente; que todos assistam, pobres, ricos, intelectuais,
trabalhadores, e até os bandidos, e pensem um pouco
nas intensas questões sociais que o filme suscita, assim
como ajam de alguma forma transformadora. É bom lembrar
o que disse o escritor Edmund Burke: "Para que o
mal triunfe, basta que os bons não façam nada".
QUASE DOIS IRMÃOS (2005)
Direção: Lúcia Murat.
Elenco: Caco Ciocler, Flávio Bauraqui, Werner
Schünemann, Antônio Pompeu, Marieta Severo, Maria Flor,
Renato Souza.
COTAÇÃO: ***
|