O MANO RICO E O MANO POBRE
Ricardo Rangel
 
 

"Quase Dois Irmãos", de Lúcia Murat, é uma espécie de "mistura" entre "Cidade de Deus" e "O Que É Isso, Companheiro?", guardadas, evidentemente, as devidas proporções: "Cidade de Deus", de Fernando Meirelles, é uma obra prima na filmografia nacional, referência tanto aqui no Brasil quanto no exterior, tendo recebido algumas indicações ao Oscar em prêmios técnicos e direção (inexplicavelmente, não concorreu a melhor filme estrangeiro), enquanto "O Que É Isso, Companheiro?", bastante inferior, é claro, concorreu a esta categoria em Hollywood (e perdeu!). Mas por quê essa comparação, talvez um pouco despropositada? Pelo seguinte: o filme de Lúcia Murat trata de questões sociais, política e violência urbana, assim como nas duas produções já referidas, mas traz um elemento inovador nesse coquetel todo: a difícil e complexa relação entre indivíduos oriundos de diferentes classes sociais, enfocando os traumas que essas desigualdades podem trazer tanto às famílias envolvidas quanto à sociedade como um todo. Lúcia Murat foi presa política na época da ditadura militar, viveu essa fase conflituosa na pele, portanto tem autoridade para lidar com o tema, e é a isso que ela se propõe ao contar a história de dois amigos de infância, criados no mesmo ambiente, mas de formações diferentes, e as suas semelhanças e diferenças ao longo dos caminhos que percorrem.

Miguel e Jorginho foram amigos inseparáveis na infância, jogavam bola na mesma vila, e nutriam uma paixão em comum: a música, particularmente o samba. Jorginho tinha um pai músico, sambista nato, e herdou esta verve do pai nas suas veias, sua mãe trabalhava na casa da família de Miguel, estudante de classe média, daí tendo nascido o encontro e a amizade entre ambos (um destaque especial merece a trilha sonora, com belas músicas de Luiz Melodia e Naná Vasconcelos). O tempo passa, e vem a década de setenta, os tempos negros da ditadura, e Miguel e Jorginho estão agora confinados no presídio da Ilha Grande, no Rio de Janeiro, mas por razões diferentes: Miguel (Caco Ciocler, excelente em cena) é um intelectual de esquerda, ativista político, que luta contra o regime militar, e Jorginho (o gaúcho Flávio Bauraqui, também excelente, uma promessa de um ator muito interessante, que já havia chamado a atenção ao contracenar com o igualmente talentoso Lázaro Ramos no polêmico "Madame Satã"), um assaltante das ruas cariocas. A amizade persiste, com Jorginho fazendo parte dos chamados presos políticos, que tinham três regras de comportamento na prisão, a saber: eram terminantemente proibidos o consumo de maconha, práticas pederásticas e desonestidades como o roubo entre os companheiros; além disso, todas as decisões visavam o bem do coletivo, da comunidade toda, e o lema era mais ou menos o seguinte: um por todos, todos por um. Só que os nossos amigos presos políticos, descendentes em sua maioria da classe média carioca intelectualizada, não contavam com a chegada de bandidos comuns, advindos da criminalidade das vilas, e que conheciam Jorginho: o choque cultural e as diferenças ficam evidenciadas logo de início, e a convivência vai tornando-se mais tensa e violenta à medida em que todos vão expondo os seus pontos de vista e as suas idiossincrasias. O grupo de Pingão, o líder dos auto-intitulados "presos proletários", não respeita as normas dos revolucionários de esquerda politizados, e a separação é necessária, com a construção de um muro dividindo o presídio, rachando em dois o contingente penitenciário, tendo Jorginho migrado para o grupo de Pingão e começado a sua ascensão, a partir desse fato, no mundo do crime violento.

A história toda é contada através de rememorações do passado e flashbacks por Miguel e Jorginho nos dias atuais, com uma realidade bem distinta para ambos, confrontada pelas suas posições atuais na sociedade: Miguel, agora vivido pelo insosso ator Werner Schünemann, é um deputado federal preocupado com questões sociais, e que vai até a cadeia fazer uma visita ao seu velho amigo Jorginho (Antônio Pompeu), que se tornou chefe do tráfico nos morros cariocas, propondo a adoção de um projeto social nas favelas. Ironicamente, a filha de Miguel, Juliana (Maria Flor), é apaixonada por bailes funks, e ela, uma garota de classe média, deliberadamente sobe o morro atrás do namorado, o traficante Delei (Renato Souza), protegido de Jorginho, e que disputa com o traficantezinho de meia-tigela, cabeça-de-vento, mas muito violento e impulsivo, Duda, o poder do tráfico na favela, expondo-se a muitos riscos, e contra a vontade do pai, causando transtornos em toda a família de Miguel.

Ao expor as diferenças entre esses mundos distintos, bem como a crueldade com que os bandidos comuns resolvem os seus assuntos, além da impotência de haver alguma esperança nesse mundo cão (vide aqui outra comparação com "Cidade de Deus", além da questão temática da violência: no filme de Fernando Meirelles, o traficante Benê, melhor amigo de Zé Pequeno, era um cara legal, um bandido com um código ético e de conduta no mundo do tráfico, que, contudo não sobreviveu à barbárie - é impossível ser bom e justo nesse mundo, e talvez esta seja uma das lições a se tirar desta amarga realidade paralela), Lúcia Murat expõe as feridas sociais de forma crua e visceral, fornecendo uma visão nada romântica ou glamourizada a respeito da utopia de nos vermos como sendo todos iguais. O crime, a violência, a ignorância, o sentimento de revolta impede a confraternização que deveria ser necessária para o bom convívio humano, em harmonia. Mas essas diferenças entre ricos e pobres, que trazem todos esses elementos à baila nessa discussão, impedem isso, e tanto assim, que, no filme, os bandidos comuns não aceitaram as regras dos intelectuais por julgarem esse propósito um ideal vazio de uma burguesia que, no entender deles, não sabia o que era trabalhar e/ou roubar, seqüestrar, matar não por ideal político, mas por profundas questões sociais. Assim como aos presos políticos, que não conseguiram impetrar sua democracia e o livre pensar por questões culturais e que, apesar de terem matado e seqüestrado também, não sabiam nada da dura vida, quanto para os bandidos comuns, tanto um lado quanto o outro saem derrotados nessa guerra insana.

A visão da diretora, por já ter estado imersa nessas questões, e de ter vindo da classe média, assim como o personagem de Miguel, que é o seu alter ego no filme, com a do roteirista Paulo Lins (que também escreveu o motivo de "Cidade de Deus"), cuja origem é a da favela, e está incorporado por Jorginho, fazem o contraponto necessário para a fluidez e a abordagem forte de "Quase Dois Irmãos". O Comando Vermelho nasceu desta cisão no presídio da Ilha Grande, através dos bandidos comuns, e incorporou a si, posteriormente, algumas das regras político-morais dos esquerdistas torturados pelo regime militar: isso, é óbvio, não deve e não pode servir de exemplo como algo que tenha dado, de certa forma, certo, pois nada de correto ocorreu: todos se deram mal, inclusive os intelectuais, que perderam a sua causa - o fim da ditadura não foi uma vitória completa - mas essa é outra questão, demasiado complexa para ser analisada e discutida com a rasidade que está sendo feita aqui. "Quase Dois Irmãos" tem um final brusco e seco, refletindo esse sentimento de derrota iminente; que todos assistam, pobres, ricos, intelectuais, trabalhadores, e até os bandidos, e pensem um pouco nas intensas questões sociais que o filme suscita, assim como ajam de alguma forma transformadora. É bom lembrar o que disse o escritor Edmund Burke: "Para que o mal triunfe, basta que os bons não façam nada".

QUASE DOIS IRMÃOS (2005)

Direção: Lúcia Murat.

Elenco: Caco Ciocler, Flávio Bauraqui, Werner Schünemann, Antônio Pompeu, Marieta Severo, Maria Flor, Renato Souza.

COTAÇÃO: ***