INDEFINÍVEL
Adriano de Oliveira
 
 

Após longa gênese (cerca de sete anos), "Redentor" chega aos cinemas sob o signo do indefinível - uma mistura de comédia, épico, drama, denúncia, fantasia, religioso, tudo em uma mesma produção. Não é o primeiro que carrega tal efígie, afinal como classificar em um único gênero específico filmes como "Titanic", "Armageddon", "Cidade dos Sonhos" e tantos outros?

O detalhe é que, no Brasil, inclusive por um viés mercadológico, as produções pátrias nascem com gênero definido. Esta rompe tal tradição. Como resultado, temos um filme que narra, à guisa dos cânones preestabelecidos, a saga típica do herói, vivido pelo jornalista Célio Rocha (Pedro Cardoso), balizada por elementos díspares e também incomuns de serem costurados em um só roteiro. Tudo isto faz de "Redentor" um produto diferente, digno de nota.

A um custo relativamente baixo (6,5 milhões de reais) para uma realização com várias entradas de efeitos visuais, fotografia cuidadosa e boa direção de arte, este título é totalmente nacional na sua confecção. Inclusive os efeitos criados digitalmente foram feitos aqui: o estúdio Mega realizou as incursões em HD, que foram a posteriori transpostas para a película.

Após despontar para o cinema no episódio "Diabólica" do filme baseado em textos rodrigueanos "Traição", primeiro projeto da Conspiração Filmes, do qual é cooperativado, o diretor Claudio Torres faz seu primeiro longa. Ele esteve em Porto Alegre nesta última quarta-feira, oito de setembro, para uma coletiva de imprensa da qual participou o site Cine Revista. Na entrevista concedida, Torres revelou que resolveu investir em um roteiro original (do qual é co-autor) por nenhum dos livros correntes à época da realização ter chamado sua atenção. Colaborou para tal decisão o fato de, em sua visão, achar a estátua do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, um objeto cinematograficamente forte e pouco explorado nesse sentido.

O diretor também revelou sua preocupação com o cinema de entretenimento, do qual é fã confesso, e afirmou que grande parte da concepção estética e da impressão visual com que impregnou "Redentor" emerge disso. Consciente e confidente de que o filme tem um roteiro raso, bem como muitos truques e clichês, Torres surpreende pela honestidade e até pela sua despretensão - considera que, se a produção presente atingir a marca dos 400 mil espectadores, ele ficará satisfeito.

Quando perguntei a ele sobre a extensa utilização de trechos da ópera "O Guarani" de Carlos Gomes, o diretor voltou a assombrar com sua sinceridade: não é apenas para dar o tom grandiloqüente à narrativa, mas também porque não havia recursos para contratar uma orquestra sinfônica para trilha incidental especialmente composta. Mas esse arroubo de improvisação não surge tão casual, pois Torres afirma, com muita propriedade, que o libreto daquela ópera é sobre luta social, um dos (tantos) temas do indefinível "Redentor".

REDENTOR (2004)

Direção: Claudio Torres.

Elenco: Pedro Cardoso, Miguel Falabella, Camila Pitanga, Fernanda Montenegro, Stenio Garcia, Tony Tornado, Fernando Torres.

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