|
Gerbase é, sem dúvida, um apaixonado pelo cinema. Não
bastasse falar de seu filme como um bom pai fala de
seu filho - ou seja, com orgulho, segurança, sinceridade
e carinho, o diretor e também roteirista de "Sal
de Prata" fez, com esta obra, uma verdadeira declaração
de amor à Sétima Arte.
Utilizando uma estrutura de narrativa cinematográfica
claramente moldada na forma quadripartite da sinfonia
clássico-romântica, o filme consegue ainda se dar ao
luxo de fazer um belo e harmônico casamento entre imagem
e música. Com uma impecável montagem de Giba Assis Brasil
(premiada recentemente em Gramado), uma fotografia caprichada
a cargo de Jacob Solitrenick (de "Garotas do ABC")
e diversas atuações engajadas, com destaque para a de
Camila Pitanga, "Sal de Prata" é uma deliciosa
amálgama entre "A Noite Americana" de François
Truffaut e uma história de surpreendentes descobertas
feitas por uma mulher que começa a descortinar o fascinante
e misterioso mundo do cinema a partir de um fato inesperado.
Atencioso e gentil, Carlos Gerbase nos concedeu a seguinte
entrevista, realizada em um lugar dos mais propícios
possíveis: no interior de uma sala de cinema, em meio
às suas poltronas, após uma projeção de seu mais recente
longa-metragem.
ENTREVISTA EXCLUSIVA: CARLOS GERBASE, roteirista
e diretor de "Sal de Prata"
CINE REVISTA - Após assistir a "Sal
de Prata", é praticamente impossível não estabelecer
uma correspondência unívoca dele com sua tese de doutorado,
ilustrada no livro "Impactos das Tecnologias Digitais
na Narrativa Cinematográfica". É este um filme-tese?
CARLOS GERBASE - É interessante, você
é o primeiro que percebeu e me pergunta isso. De fato,
um corresponde ao outro, a tese e o filme. Este é a
concretização de uma das idéias da teoria no livro:
a história pode ser contada em 35mm e em digital, o
que reforça uma proposta da tese. Curioso que, quando
foi submetida a parte gravada em digital video
para fazer o transfer para a película, pedi aos
técnicos que não caprichassem no processo, justamente
para ressaltar as diferenças causadas pelas distintas
captações e, o que é incrível, ficou uma adaptação tão
perfeita que não era possível perceber bem a diferença.
Tivemos que inserir linhas naquelas cenas para tornar
visível a distinção.
CINE REVISTA - Antes mesmo da trilha sonora
incidental, que é música clássica em sua essência, entrar
"em cena", ouvimos, durante os primeiros créditos, sons
típicos de afinação de orquestra. É esse recurso uma
espécie de prelúdio, para antecipar sensações no espectador
e colocá-lo de antemão no clima "sinfônico" do filme?
CARLOS GERBASE - Essa idéia não estava
originalmente no roteiro, veio na escolha da trilha.
No cinema nacional, é habitual um longo desfile de logotipos
antes de o filme propriamente dito entrar. A colocação
desses sons de aquecimento de orquestra quebra o silêncio
tradicional, cobre os logotipos com som e, de certa
forma, surpreende o espectador, colocando nele uma antecipação.
CINE REVISTA - Algo como o extenso
prólogo sem imagem (fade) e ao som de um órgão
executando o início de "Assim Falou Zaratustra",
de Richard Strauss, no início de "2001" de Kubrick?
CARLOS GERBASE - Exato. Algo assim, para
criar certa tensão.
CINE REVISTA - Por mais que se tente
não falar de metalinguagem ao se referir a "Sal
de Prata", é inevitável tocar nesse assunto, porque
ele fala da realização de um filme, da produção de cinema.
Há alguma finalidade didática, nesse sentido, ao grande
público nesta obra, ou ela é movida por puro lirismo?
CARLOS GERBASE - Bem, não gosto da palavra
"didático". Acho que, de um modo que lhe é peculiar,
um filme deve responder, e não necessariamente fazer
perguntas. Ele deve sim, provocar reflexão.
CINE REVISTA - O início do filme,
com o solilóquio da personagem da Camila Pitanga, é
um libelo à censura. A sua intenção foi de criticar
a censura no cinema em geral ou algum processo censor
específico, como "os anos de chumbo" ou o carimbo pesado
de "18 anos" para "Tolerância"?
CARLOS GERBASE - Em primeiro lugar, pensei
na censura exagerada que recebeu o meu filme "Tolerância".
Porém, é uma postura crítica à censura como um todo,
em uma leitura como cineasta.
CINE REVISTA - Queria lembrar da
direção de fotografia. O Jacob Solitrenick trabalhou
com o diretor Carlos Reichenbach em "Garotas do
ABC" e marcou profundamente, não apenas por realizar
um excepcional travelling circular em dada cena,
como ainda mais pela tênue luz azul e atmosfera sombria,
características que ele repete aqui. Como foi seu trabalho
com o Jacob?
CARLOS GERBASE - Eu queria que o filme
tivesse bem mais um clima europeu do que americano.
Recomendei ao Jacob para que assistíssemos ao próprio
anterior meu, "Tolerância", a "Pauline a la
Plage" do Eric Rohmer e a "Interiores"
do Woody Allen. O resultado foi exatamente o que
eu queria. Há alguns momentos mais descontraídos, captando
com leveza o clima de Porto Alegre, mas a fotografia
é predominantemente sombria.
CINE REVISTA - Lendo o seu livro "Cinema
- Direção de Atores", ele me surge como uma espécie
de manual, que procura dar um rumo prático, até pragmático,
ao ato de dirigir. O senhor segue à risca o que escreveu
nele, ou, como se diz: "na prática, a teoria é outra",
em virtude dos imprevistos?
CARLOS GERBASE - Aquele livro é bastante
baseado em minha experiência pessoal. Setenta por cento
do que está lá é resultado direto do que vivi. A gente,
num filme, faz o planejado, nem sempre sai como se idealizou.
É complicado, porque, sendo bom ou mau o filme, a culpa
é sempre do diretor. É ele quem escolhe, quem controla,
portanto o resultado final é fruto de suas decisões.
CINE REVISTA - O filme é dividido
em quatro movimentos, tais quais as sinfonias. Há três
movimentos que parecem lentos (Andante, Adágio,
Largo) e um claramente rápido (Allegro), o
que ocorre de modo nítido na narrativa da trama. Mas
a música é toda ela de compasso arrastado, sombrio,
inclusive no último movimento da fita. Há uma única
exceção: quando do "filme de mentira", é executada a
"Dança de Anitra" da Suíte "Peer Gynt",
de Edvard Grieg, uma melodia lúdica por excelência.
Por qual motivo essa opção: mostrar que cinema não é
algo tão sério assim, ou para aliviar a carga dramática?
CARLOS GERBASE - De fato, "Peer Gynt"
é o tema do "filme de mentira". Eu realmente queria
algo leve, lúdico para ilustrar a contenda dos dois
cineastas, que é uma disputa cômica. O Tiago Flores
(diretor musical) me trouxe essa música e, ao
ouvi-la, aprovei na hora.
CINE REVISTA - Como foi trabalhar
no roteiro com a questão da grande transformação por
que passa Cátia (Maria Fernanda Cândido) em face aos
acontecimentos que a cercam? Essa proposta surgiu inicialmente
de imediato?
CARLOS GERBASE - No primeiro esboço
de roteiro, ela sequer tinha papel fundamental, era
apenas a viúva de Veronese (Marcos Breda). Depois,
Cátia foi ganhando espaço na trama. Ela inclusive tem
papel decisivo em um aspecto que não é lembrado como
deveria, mas é determinante na história: a traição dela
a Rudi, junto a Valdo (Bruno Garcia). A transformação
nela é um processo, mas há um momento em especial que
é marcante: quando ela entra no estúdio e vê o set
de filmagem. Isso é crucial.
CINE REVISTA - Para encerrar esta
entrevista, eu gostaria de me reportar a Fernando Pessoa.
O grande escritor português disse que "o poeta é um
fingidor". Não apenas pelo caráter de "Sal de Prata",
mas também por suas convicções como um homem de cinema
de longa carreira, lhe pergunto: o cineasta é também
um fingidor?
CARLOS GERBASE - O cineasta não é apenas
um fingidor, é um mentiroso. E a mentira mais poderosa
é o cinema. A TV veio depois, com sua capacidade de
manipular. Mas, pelo seu aspecto ficcional que tanto
ilude, é o cinema a própria "máquina de mentir".
SAL DE PRATA (2005)
Direção: Carlos Gerbase.
Elenco: Maria Fernanda Cândido, Camila Pitanga,
Bruno Garcia, Marcos Breda, Nelson Diniz, Júlio
Andrade, Janaína Kremer, Julia Barth.
COTAÇÃO: ****
|