O SAL DO CINEMA
Adriano de Oliveira
 
 

Gerbase é, sem dúvida, um apaixonado pelo cinema. Não bastasse falar de seu filme como um bom pai fala de seu filho - ou seja, com orgulho, segurança, sinceridade e carinho, o diretor e também roteirista de "Sal de Prata" fez, com esta obra, uma verdadeira declaração de amor à Sétima Arte.

Utilizando uma estrutura de narrativa cinematográfica claramente moldada na forma quadripartite da sinfonia clássico-romântica, o filme consegue ainda se dar ao luxo de fazer um belo e harmônico casamento entre imagem e música. Com uma impecável montagem de Giba Assis Brasil (premiada recentemente em Gramado), uma fotografia caprichada a cargo de Jacob Solitrenick (de "Garotas do ABC") e diversas atuações engajadas, com destaque para a de Camila Pitanga, "Sal de Prata" é uma deliciosa amálgama entre "A Noite Americana" de François Truffaut e uma história de surpreendentes descobertas feitas por uma mulher que começa a descortinar o fascinante e misterioso mundo do cinema a partir de um fato inesperado.

Atencioso e gentil, Carlos Gerbase nos concedeu a seguinte entrevista, realizada em um lugar dos mais propícios possíveis: no interior de uma sala de cinema, em meio às suas poltronas, após uma projeção de seu mais recente longa-metragem.

ENTREVISTA EXCLUSIVA: CARLOS GERBASE, roteirista e diretor de "Sal de Prata"

CINE REVISTA - Após assistir a "Sal de Prata", é praticamente impossível não estabelecer uma correspondência unívoca dele com sua tese de doutorado, ilustrada no livro "Impactos das Tecnologias Digitais na Narrativa Cinematográfica". É este um filme-tese?

CARLOS GERBASE - É interessante, você é o primeiro que percebeu e me pergunta isso. De fato, um corresponde ao outro, a tese e o filme. Este é a concretização de uma das idéias da teoria no livro: a história pode ser contada em 35mm e em digital, o que reforça uma proposta da tese. Curioso que, quando foi submetida a parte gravada em digital video para fazer o transfer para a película, pedi aos técnicos que não caprichassem no processo, justamente para ressaltar as diferenças causadas pelas distintas captações e, o que é incrível, ficou uma adaptação tão perfeita que não era possível perceber bem a diferença. Tivemos que inserir linhas naquelas cenas para tornar visível a distinção.

CINE REVISTA - Antes mesmo da trilha sonora incidental, que é música clássica em sua essência, entrar "em cena", ouvimos, durante os primeiros créditos, sons típicos de afinação de orquestra. É esse recurso uma espécie de prelúdio, para antecipar sensações no espectador e colocá-lo de antemão no clima "sinfônico" do filme?

CARLOS GERBASE - Essa idéia não estava originalmente no roteiro, veio na escolha da trilha. No cinema nacional, é habitual um longo desfile de logotipos antes de o filme propriamente dito entrar. A colocação desses sons de aquecimento de orquestra quebra o silêncio tradicional, cobre os logotipos com som e, de certa forma, surpreende o espectador, colocando nele uma antecipação.

CINE REVISTA - Algo como o extenso prólogo sem imagem (fade) e ao som de um órgão executando o início de "Assim Falou Zaratustra", de Richard Strauss, no início de "2001" de Kubrick?

CARLOS GERBASE - Exato. Algo assim, para criar certa tensão.

CINE REVISTA - Por mais que se tente não falar de metalinguagem ao se referir a "Sal de Prata", é inevitável tocar nesse assunto, porque ele fala da realização de um filme, da produção de cinema. Há alguma finalidade didática, nesse sentido, ao grande público nesta obra, ou ela é movida por puro lirismo?

CARLOS GERBASE - Bem, não gosto da palavra "didático". Acho que, de um modo que lhe é peculiar, um filme deve responder, e não necessariamente fazer perguntas. Ele deve sim, provocar reflexão.

CINE REVISTA - O início do filme, com o solilóquio da personagem da Camila Pitanga, é um libelo à censura. A sua intenção foi de criticar a censura no cinema em geral ou algum processo censor específico, como "os anos de chumbo" ou o carimbo pesado de "18 anos" para "Tolerância"?

CARLOS GERBASE - Em primeiro lugar, pensei na censura exagerada que recebeu o meu filme "Tolerância". Porém, é uma postura crítica à censura como um todo, em uma leitura como cineasta.

CINE REVISTA - Queria lembrar da direção de fotografia. O Jacob Solitrenick trabalhou com o diretor Carlos Reichenbach em "Garotas do ABC" e marcou profundamente, não apenas por realizar um excepcional travelling circular em dada cena, como ainda mais pela tênue luz azul e atmosfera sombria, características que ele repete aqui. Como foi seu trabalho com o Jacob?

CARLOS GERBASE - Eu queria que o filme tivesse bem mais um clima europeu do que americano. Recomendei ao Jacob para que assistíssemos ao próprio anterior meu, "Tolerância", a "Pauline a la Plage" do Eric Rohmer e a "Interiores" do Woody Allen. O resultado foi exatamente o que eu queria. Há alguns momentos mais descontraídos, captando com leveza o clima de Porto Alegre, mas a fotografia é predominantemente sombria.

CINE REVISTA - Lendo o seu livro "Cinema - Direção de Atores", ele me surge como uma espécie de manual, que procura dar um rumo prático, até pragmático, ao ato de dirigir. O senhor segue à risca o que escreveu nele, ou, como se diz: "na prática, a teoria é outra", em virtude dos imprevistos?

CARLOS GERBASE - Aquele livro é bastante baseado em minha experiência pessoal. Setenta por cento do que está lá é resultado direto do que vivi. A gente, num filme, faz o planejado, nem sempre sai como se idealizou. É complicado, porque, sendo bom ou mau o filme, a culpa é sempre do diretor. É ele quem escolhe, quem controla, portanto o resultado final é fruto de suas decisões.

CINE REVISTA - O filme é dividido em quatro movimentos, tais quais as sinfonias. Há três movimentos que parecem lentos (Andante, Adágio, Largo) e um claramente rápido (Allegro), o que ocorre de modo nítido na narrativa da trama. Mas a música é toda ela de compasso arrastado, sombrio, inclusive no último movimento da fita. Há uma única exceção: quando do "filme de mentira", é executada a "Dança de Anitra" da Suíte "Peer Gynt", de Edvard Grieg, uma melodia lúdica por excelência. Por qual motivo essa opção: mostrar que cinema não é algo tão sério assim, ou para aliviar a carga dramática?

CARLOS GERBASE - De fato, "Peer Gynt" é o tema do "filme de mentira". Eu realmente queria algo leve, lúdico para ilustrar a contenda dos dois cineastas, que é uma disputa cômica. O Tiago Flores (diretor musical) me trouxe essa música e, ao ouvi-la, aprovei na hora.

CINE REVISTA - Como foi trabalhar no roteiro com a questão da grande transformação por que passa Cátia (Maria Fernanda Cândido) em face aos acontecimentos que a cercam? Essa proposta surgiu inicialmente de imediato?

CARLOS GERBASE - No primeiro esboço de roteiro, ela sequer tinha papel fundamental, era apenas a viúva de Veronese (Marcos Breda). Depois, Cátia foi ganhando espaço na trama. Ela inclusive tem papel decisivo em um aspecto que não é lembrado como deveria, mas é determinante na história: a traição dela a Rudi, junto a Valdo (Bruno Garcia). A transformação nela é um processo, mas há um momento em especial que é marcante: quando ela entra no estúdio e vê o set de filmagem. Isso é crucial.

CINE REVISTA - Para encerrar esta entrevista, eu gostaria de me reportar a Fernando Pessoa. O grande escritor português disse que "o poeta é um fingidor". Não apenas pelo caráter de "Sal de Prata", mas também por suas convicções como um homem de cinema de longa carreira, lhe pergunto: o cineasta é também um fingidor?

CARLOS GERBASE - O cineasta não é apenas um fingidor, é um mentiroso. E a mentira mais poderosa é o cinema. A TV veio depois, com sua capacidade de manipular. Mas, pelo seu aspecto ficcional que tanto ilude, é o cinema a própria "máquina de mentir".

SAL DE PRATA (2005)

Direção: Carlos Gerbase.

Elenco: Maria Fernanda Cândido, Camila Pitanga, Bruno Garcia, Marcos Breda, Nelson Diniz, Júlio Andrade, Janaína Kremer, Julia Barth.

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